Os muitos Golpes de 64

Os muitos Golpes de 64

Marcelo Rubens Paiva

17 Dezembro 2014 | 11h51

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A repórter Cristina Serra, ao anunciar na semana passada no Jornal Nacional, que peritos não conseguiram provar o envenenamento do ex-presidente João Goulart, fez um abre didático, que não sei se é padrão ou foi de improviso:

“João Goulart foi deposto pelos militares, com apoio de setores da sociedade, que temiam que ele desse um golpe de esquerda, coisa que seus partidários negam até hoje”.

Está errado? Não. É uma interpretação.

Jango é acusado de tentar dar um “golpe esquerda”. Mas era de esquerda, seu ministério era basicamente de esquerda, seu gerente econômico, Celso Furtado, de esquerda, assim como a base no Congresso. Implantou um governo de esquerda. Propôs reformas de esquerda.

Governos de esquerda existem em democracias. Sempre existiram. A alternância do Poder, essência do regime, costuma ser bipolar: democratas versus republicanos, trabalhistas e conservadores, esquerda e direita.

Setores da sociedade temiam que Jango desse um golpe comunista, numa campanha que começou em 1962 nos jornais, televisões, cinemas, escolas e igrejas, financiada primeiro pelo governo Kennedy e depois Lyndon Johnson.

Até hoje, a versão que corre entre os que conhecem a História de ouvir falar é que os militares salvaram o Brasil do comunismo.

Dá pra explicar o Golpe de 64, ciente da proximidade histórica e de que muitos personagens estão vivos?

Numa filtragem maniqueísta, predominam versões.

Aos vencedores, não foi golpe, mas revolução:

1. A esquerda brasileira, aliada ao comunismo internacional, se aproveitou de um governo fraco, um presidente titubeante, que era vice, para desafiar a ordem militar, com motins de soldados de baixa patente, comícios populares em que acusavam a imprensa de ser conservadora e reacionária e greves, para impor na marar a reforma agrária, controlar os lucros de empresas, que chamavam de mais-valia, marxistas que eram, que queriam investir no Brasil. O país se isolou, a inflação corroeu a moeda.

2. Implantariam uma ditadura do proletariado, de partido único, repartiriam propriedades privadas, instituiriam que a religião é ópio do povo e obrigariam jovens a usar barba e pílula anticoncepcional.

3. A família cristã via a ameaça de implosão e corroídos seus valores por quebras de tabu como virgindade, num país em que nem havia lei do divórcio, enquanto os valores morais eram corroídos por uma arte de vanguarda viciada e niilista. Até nu frontal o cinema brasileiro produziu (Os Cafajestes).

4. Ainda preso exilado numa embaixada em Brasília, meu pai, deputado cassado, escreveu uma carta num papel com o timbre da Câmara dos Deputados (ironia) em junho de 1964. Nos chamou pelos apelidos, e os militares, de “gorilas”:

“Veroca, Cuchimbas, Lambancinha, Babliu e Cacasão.

Recebi suas cartinhas, desenhos etc, fiquei muito satisfeito de ver que os nenês não esqueceram o velho pai. Aqui estou fazendo bastante ginástica, fumando meus charutos e lendo meus jornais. É possível que o velho pai vá fazer uma viagenzinha para descansar e trabalhar um pouco. Vocês sabem que o velho pai não é mais deputado? E sabem por quê? É que no nosso país existe uma porção de gente muito rica, que finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito e, às vezes, quer trabalhar, e não tem emprego. O papai sabia disso tudo. Quando foi ser deputado, começou a trabalhar para reformar o nosso país e melhorar a vida dessa gente pobre. Aí veio uma porção daqueles muito ricos, que tinham medo que os outros pudessem melhorar de vida, e começaram a dizer uma porção de mentiras. Disseram que nós queríamos roubar o que eles tinham: é mentira! Disseram que nós somos comunistas, que queremos vender o Brasil: é mentira! Disseram tanta mentira que teve gente que acreditou. Eles se juntaram- o nome deles é gorila- e fizeram essa confusão toda, prenderam muita gente, tiraram o papai e os amigos dele da Câmara e do governo, e agora querem dividir tudo o que o nosso país tem de bom entre eles que já são muito ricos. Mas a maioria é de gente pobre, que não quer saber dos gorilas, e mais tarde vai mandar eles embora, e a gente volta para fazer um Brasil muito bonito e para todo mundo viver bem. Vocês vão ver quer o papai tinha razão e vão ficar satisfeitos do que ele fez.

Beijos do Papai.”

 

Carta papai

 

O velho pai tinha 35 anos.

Revelava um otimismo peculiar: todos na embaixada imaginavam que a Golpe não duraria muito, que, pela lógica e roteiro escritos pelos próprios golpistas, devolveriam o poder ao civis numa eleição, que provavelmente seria ganha por Juscelino Kubitschek, líder nas pesquisas.

Não imaginaram que duraria 21 anos. Que ficariam décadas exilados. E que só 26 anos depois teríamos uma eleição direta para Presidente. Que o terror seria uma rotina e prática do regime militar. E que ele, o velho pai, estaria sob tortura, em 1971 numa dependência do Exército seis anos e meio depois. E assassinado.

Almino Afonso, exilado na mesma embaixada, ex-ministro de Jango e líder da bancada, contou recentemente: “Os comunistas não tinham como chegar ao poder. Por eleições, nem falar; por luta armada, nem falar; muito menos em aliança com Jango. A que título um proprietário de terras faria aliança que levasse ao comunismo?”

Ele e meu pai, deputados eleitos pelo PTB, foram cassados pelo primeiro Ato Institucional instaurado pela Junta Militar em 9 de abril com Jango, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Jânio Quadros, Miguel Arraes.

Nenhum deles era comunista.

Do AI-2 ao AI-5, que se seguiram, o aliado e golpista histórico Carlos Lacerda e Juscelino foram cassados, partidos políticos, extintos, determinaram eleição indireta a governadores e prefeitos de capitais, revogou-se a Constituição e proclamou outra. Por fim, suspenderam garantias constitucionais que tinham acabado de promulgar. O Golpe não tinha projeto. Tinha ocasiões.

Elio Gaspari dividiu a ditadura em quatro fases, quatro livros: A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada.

Como não existe uma só ditadura, não existe um só Golpe de 64.

Nem se sabe a data correta, 31 de março ou 1 de abril?

Pela primeira vez, o Golpe de 1964 é contado por uma história em quadrinhos.

A façanha nada fácil da Editora Três Estrelas coube ao jornalista veterano, Oscar Pillagalo (BBC, Prêmio Esso em 1993, autor dos livros A Aventura do Dinheiro, A História do Brasil no Século 20 e História da Imprensa Paulista), e o ilustrador Rafael Campo Rocha (piauí, Caros Amigos, Grafitti, autor de Deus, Essa Gostosa), ambos colaboradores da Folha de S. Paulo.

A dupla defende a tese que muitos defendem:

Golpe de 64 começou dez anos antes, e só não se concretizou, pois Getúlio Vargas deu um tiro no peito e entrou para a História. A comoção popular impediu a UDN de tomar o poder.

Rocha ilustrou com perfeição. Reproduziu o clima do brasileiro comum, que via a revolução chegar aos cinemas, até a roubada de cena da belíssima Maria Thereza Goulart. Marchinhas e fatos relevantes são lembrados.

 

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Pilagallo faz da birra entre militares, aliados da UDN, e herdeiros do getulismo o arco condutor, desde a investigação da morte do major responsável pela segurança de Lacerda, a ascensão de Juscelino, que derrubou a candidatura única do udenista Café Filho, o complô em 1955 para impedir a posse de Juscelino, abortado pelo general Henrique Lott, a renúncia de Jânio, a ascensão de Jango, impedido de voltar ao Brasil pelos ministros militares almirante Silvio Heck, brigadeiro Gabriel Grune marechal Odilio Denys, que prenderam Lott e ameaçaram prender Jango, o racha de generais, já que José Machado Lopes, do III Exército, aderiu à Campanha da Legalidade de Brizola, a solução negociada do parlamentarismo, a rejeição de 79% da população ao novo regime, e a posse definitiva de Jango.

A radicalização encontrou um presidente vacilante.

Jango se aproximou dos empresários, nomeando Carvalho Pinto para o Ministério da Fazenda. Que se demitiu no final de 1963, por pressão da esquerda. Sargentos sem revoltam contra a lei que os tornava inelegíveis. Jango não puniu os revoltosos, estimulando a birra dos militares. Um mês depois, quis decretar estado de sítio.

Para a direita, era um golpe que ele preparava. Desistiu da ideia. A polarização empacava as reformas. A esquerda (UNE, Ligas Camponesas, Comando Geral dos Trabalhadores) convocou um comício na Central do Brasil, em frente ao Ministério do Exército. Jânio discursou depois de Brizola e Arraes. Em 25 de março, marinheiros e fuzileiros se rebelaram. O presidente apoiou os amotinados.

Seu governo estava selado. Uniu os golpistas, que receberam o sinal verde da Casa Branca. Em dois dias, um golpe sem derramamento de sangue, derrubou um governo respaldado pela Constituição.

É uma versão com fundamento que convence.

Outras aparecerão.