Os acasos

Os acasos

Marcelo Rubens Paiva

19 de abril de 2009 | 15h34

Sou aterrorizado pela ideia de que muitas coisas que nos acontecem são obras do acaso. Toda a evolução da espécie pode ter sido obra do acaso. Uma bactéria que sofreu mutação. Um peixe que resolveu caçar na praia. Um asteróide que eliminou os dinossauros e abriu espaço para o domínio dos mamíferos. O macaco que fez de um osso uma arma. Hitler que não conseguiu desenvolver a Bomba Atômica antes dos americanos.

O Universo pode ter sido obra do acaso: forças gravitacionais e quânticas se romperam numa grande explosão, o Big Bang, e cá estamos nós, numa escada rolante do metrô, na fila do bilhete único, discutindo se este disco do Caetano é melhor ou pior do que o anterior.

Minha avó Cecy conheceu meu avô Paiva num trote. Ele gostou da voz da inoportuna, que ligou no meio do expediente, e cá estou, em dúvida entre o Halls azul e o preto.

Conheci minha primeira mulher numa lanchonete, Frevinho. Se ela não estivesse lá naquele dia, eu não teria convivido 9 anos com ela.

NO DESERTO MOJAVE

Fui fazer teatro no CPT, porque encontrei um amigo da escola na Avenida Paulista, que me sugeriu fazer um curso de dramaturgia com o Antunes Filho. Meu primeiro livro foi uma encomenda de um editor. Se ele não tivesse me sugerido, sabe-se lá o que eu estaria fazendo.

O acaso e a sorte deu origem ao novo filme do meu amigo cineasta-surfista Mauro Lima. Há anos, trocamos e-mails com roteiros, peças, livros, opiniões e sugestões anexadas. É a tal amizade em que um lê a obra ainda inacabada do outro, para palpites.

Há dez anos, ele me mandou um dos seus roteiros engavetados, REIS E RATOS, um história policial divertida que se passa às vésperas do Golpe de 64. Há meses, ele teve a ideia de filmá-lo, aproveitando os cenários e figurinos de outro filme, BEM AMADO, de que foi co-produtor e se passa na mesma época. Só que tinha perdido o roteiro.

Me ligou desesperado. Não estava mais no meu computador nem no dele; diferentes dos de dez anos atrás. Busquei nos meus disquetes antigos. Encontrei-o casualmente num disquete de 3″1/2 jogado num fundo de gaveta. Mandei para ele.

O filme foi rodado em 13 dias (com Selton Mello, Rodrigo Santoro e outros), em preto e branco, com externas e cenas de estúdio, aproveitando a produção anterior de Guel Arraes. Mauro brincou comigo: “Você foi literalmente o script doctor desse filme…” Ou o script saver. A vida não é séria… Você também é vítima dos acasos decisivos?

DUAS PRIMEIRAS PÁGINAS DO ROTEIRO