occupy me

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Marcelo Rubens Paiva

04 de dezembro de 2012 | 10h07

Wallace, Franzen, Eugenides jovens amigos

 

“A vida é uma só.”

Para os agnósticos que não acreditam em reencarnação, espiritismo, vida após a morte, sim, ela é uma só. O que é um alento e um tormento, traz paz na mesma intensidade que aflige. Muitos seguem a vida com a escolha de que ela é uma só e não deixam nada pra depois. É agora ou nunca, é pra já. É?

Tal opinião pode vir precedida de outra frase que gruda na cabeça, como música de festa de casamento: “Quero, mas não posso.”

Poderá ter consequências danosas realizar o querer. A razão, a intuição, ou o que psicanálise chama de superego, combatem numa guerra sangrenta as emoções, os instintos, ou o que os amigos de bar chamam de desejo. Fazer o que não se deve pode nos levar a uma roubada, apesar de tentador. Numa blitzkrieg, a artilharia moral entra em ação e enumera, de acordo com a crença de cada um, o que pode trazer a mais pura anarquia.

Quer, mas não deve, não pode, não vai!

“Mas a vida é uma só”, retorna para atormentar e anunciar outra fatalidade a ser evitada, uma bomba de gás mostarda nas trincheiras dos pensamentos duradouros: o arrependimento! O que leva a uma terceira questão metafísica: “Erro ou remorso?”

Se ela é uma só pode apenas ser provado no fim dela. A dúvida razoável nos torna inocentes se desejarmos levar uma vida desregrada, doida demais, em que a repressão atinge uma blindagem eficiente, e o prazer forma a cabeça de praia por onde a tropa hedonista, que só quer diversão e arte, uma vida dionisíaca, em paz com Eros e com os mais abusados dos mitos, se infiltra pelo território do sentido da vida cantando “a gente quer inteiro, e não pela metade…”

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No domingo, abri os olhos, e silêncio pela casa. Mulher viajou. Estava sozinho, ficaria sozinho. Nada de hóspedes, nenhum amigo recém-separado abrigado no quarto dos fundos, nem compromissos ou visitas agendadas. Eu, dois gatos, uma ressaca deprimente, minha vida e 24 horas para ocupá-la com relevâncias. Afinal, ela é uma só.

Pela janela, deus ex machina: chuva. A vida é uma só, São Paulo tem mais de 200 teatros, 200 cinemas, milhares de estabelecimentos gastronômicos, exposições, mas uma chuva rala e um frio fora de época indicavam que talvez eu devesse ficar em casa. Mas a vida não é uma só?

Daqui a pouco, largada da Fórmula 1 em Interlagos, final de campeonato. Nem o acompanho mais. Porém, é programa obrigatório ver a famigerada reta dos boxes, a largada, aquela primeira curva em que muitos se estrepam, curva em que se chega a mais de 320 km/h, num circuito redesenhado pelo Senna, que dizem ser seletivo, mas tem cara de autódromo vintage, com aquelas arquibancadas aparentemente improvisadas, o Cingapura do Maluf ao fundo, que era azul, mas pintaram de branco, a Curva do Pinheirinho sem pinheirinho, que a maioria não sabe onde é, a Curva do Laranjinha, Galvão Bueno menos ufanista, porque os pilotos brasileiros atuais não chegam aos pés dos seus rivais ou companheiros de equipe, estão longe do posto dos heróis do passado e nem de perto dignos de nomearem uma rodovia pedagiada.

Vi a prova até o fim. O favorito venceu.

Logo mudei para NFL (National Futebol League). Três clássicos na sequência, na fase final de grupos. Mas um jogo de futebol americano dura em média três horas. Conseguiria ficar nove horas diante da TV, sendo que o time mais simpático, Falcons, jogaria, assim como meu time, o 49ers, jogaria depois- com Colin Kaepernick, o quarterback reserva que aos poucos vira titular, repetindo a substituição da lenda Joe Montana pela lenda Steve Young, justamente na temporada em que morei em San Francisco-, e depois teria Giants contra Green Bay, os dois últimos campeões de 2010 e 2011, ou melhor, do Super Bowl XLV e XLVI, assim mesmo, em algarismo romano?

E Homeland, rapá, a série que você assiste de olhos esbugalhados, passa à noite no FX. Passar um domingo inteiro diante da TV faz sentido? A vida é uma só. Jogará um dia desta preciosidade na lata de lixo do entretenimento HDTV?

Estude uma língua, reconfigure seu computador, baixe os novos e mais populares aplicativos, consulte fundos de investimento que pagam mais, vá a uma loja de construção e compre enfim aquela luminária, planeje uma viagem para a primavera europeia, aproveite agora os supostos preços baixos da antecedência, privilégio de pessoas organizadas que conseguem prever o futuro e estabelecer planos e metas que são cumpridos e se dão bem, os ídolos da classe média e da sacolagem.

Nada disso. Pedi comida da lanchonete. O entregador foi a única pessoa que vi no domingo. Até dei para ele um livro autografado. Vi Falcons vencer, 49ers arrasar, e Giants trucidar, numa noite memorável a zero grau em Nova York. Ainda gravei Homeland que vi dentro da madrugada e da coberta.

Não li uma linha do meu terceiro Jonathan Franzen de 600 páginas. Estou no final. Mas ele foi trucidado numa roda de amigos na quarta-feira anterior. “Muito novelão”, disseram. Sim, muito novelão, mas que novelão, que escritor, que personagens, que narrativa, que estilo, quantos conflitos… Todos já bêbados afirmaram que Jeffrey Eugenides e Foster Wallace, que se matou, são muito melhores que o melhor amigo deles, Franzen.

Fiquei revoltado, aflito, frustrado. Não li Eugenides e Wallace! Li tudo de Franzen. Estou perdendo meu tempo com um escritor que até a Veja diz que “não está com essa bola toda”?

Minha sorte foi que passou Daniel Galera, tradutor de Wallace (Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo). Me piscou tipo “não ligue para estes bêbados” e declarou em bom tom: “Franzen é ótimo!”

Passei mais de 14 horas em frente à TV. Não aprendi nenhum truque de mágica. Não fiz absolutamente nada. Me pergunto se ocupei bem o dia ou o desperdicei sem levar em conta a raridade que é a vida.

Sei lá. Como saber vivê-la se não há jurisprudência ou manuais? Talvez seja melhor imaginar que ela não é uma só. Assim, a culpa de não fazer nada num domingo chuvoso não estraga o resto da semana. Reabri meu Franzen só na terça e já coloquei Eugenides e Wallace na fila.

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