o urbano selvagem

o urbano selvagem

Marcelo Rubens Paiva

17 de dezembro de 2012 | 17h25

 

Tenho a sensação de que a maioria que me atende preferia desabafar:

“Não estou aqui porque quero, mas porque pre-ci-so.”

E quanto maior a cidade, mais indiferente fica o morador. Como uma defesa.

Mais indiferente a problemas que “não são da minha esfera”. Como há milhões circulando diariamente, se você reclama atenção exclusiva num guichê, uma fila de gente que aceita as regras se forma atrás. Portanto, se você acredita que há problemas no serviço oferecido, nem vem, pois quem fica do outro lado do balcão, porque pre-ci-sa, não porque adora, grita sem muita consideração: “Próximo!”

Como aprendemos na infância a expressão precisa de um reacionário, os incomodados que se retirem.

Parece uma contradição, afinal os sumérios inventaram as cidades, os gregos as transformaram em Estado, os romanos as aperfeiçoaram e popularizaram soluções engenhosas de engenharia para civilizar tribos e antigos aldeões selvagens.

A burocracia estatal se firmou como solução para problemas criados pelo convívio em massa em espaços apertados. Problemas que não tínhamos quando morávamos em cavernas, tribos, aldeias.

No ambiente labiríntico da burocracia estatal, a relação atendente&nós é tensa, ele está lá porque pre-ci-sa e ganha direitos específicos, imunidades, uma aposentadoria infinitamente mais justa que a nossa, privilégios do monopólio e estabilidade questionada do serviço público.

Muita gente não está onde está porque quer é um paradoxo urbano com que somos obrigados a conviver- a não ser que nos mudemos de chapéu e cuia para casa do mesmo, onde Judas perdeu as botas, para plantar batatas, bananeiras e vermos se tem alguém na esquina.

A maioria gostaria de estar numa praia, numa rede, numa ilha deserta, num resort luxuoso, ou numa rede de uma praia de um resort luxuoso de uma ilha deserta em que só se chega de navio, ou até numa espaçonave, não num balcão atendendo a queixas de sujeitos que desconhecem leis, protocolos, imprevistos.

Estou aqui, pre-ci-so desse emprego, fiz concurso, fui indicado, escuto amigavelmente suas reclamações despropositais, para apontar com toda paciência e precisão o guichê correto, documento que falta, formulário a ser preenchido. E chego em casa afônico de tanto: “Próximo!”

No metrô, instalaram novas, como chamam, catraca?

Mas não faz “cá-tra-cá” quando acionada. São duas lâminas de vidro verticais muito ameaçadoras, nada onomatopeicas. O sujeito enfia o bilhete. Elas abrem. Se não passar rápido, elas fecham, como uma tesoura, cortam você em dois. Não fazem “cá-tra-cá”, mas “vupt”. Intimidação que começa na entrada. “Tente me enganar, que te quebro!”

O vupt pode virar crau!

Hora do rush.

Depois de ultrapassarmos dentes afiados que excluem não pagantes, descemos pelo esôfago do transporte nada acolhedor, nos apertamos na plataforma até chegar nosso trem, o duodeno. Com movimentos peristálticos, viajamos pelos canais do intestino delgado, baldeação para o grosso, para sairmos do outro lado, noutra estação, no orifício de outro bairro, passando pelo esfíncter que dessa vez parece mais amigável e faz um vupt suave como um pum.

Andar e ser tratado diariamente como um toco de fezes deixa qualquer um abominavelmente selvagem.

Como em Londres, que tem o notório “mind the gap” (atente ao vão), o sistema de som dos metrôs daqui deveria, entre um quarteto de Mozart e uma ária de Bach, nos acalmar com uma voz doce, frases positivas e de cunho social, “quem espera sempre alcança”, “seja justo e dê a passagem”, “calma, você vai chegar em tempo”, “feche os olhos e pense numa rede de uma praia duma ilha deserta”, “conte até dez, respire fundo”, “acabamos de ouvir Concerto de Brandenburgo, allegro”.

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Interrompi um Jonathan Franzen no fim depois que me disseram que sua sombra, David Foster Wallace, é melhor. Fui checar. Seu Ficando Longe é realmente fascinante. Sua neurótica meticulosidade e capacidade de descrição lembram o nosso Renato Pompeu (Memórias de uma Bola de Futebol). A precisão em descrever o sofrimento de uma lagosta cozida viva, uma privada a vácuo, uma jogada de Federer, com tantos detalhes, humor e como somos ridículos, também explorado por Franzen, colocam o cara na lista daqueles poucos escritores que pretendemos ler tudo!

 

A insistência com longos pés de página pode se transformar num pé no saco se você está em dívida com o oculista. Wallace fragmenta seus textos com uma média de duas notas de pé de página por página, notas que poderiam ser inseridas na narrativa. Algumas têm três páginas. Uma é simplesmente “Dãã”. O pior é que são imperdíveis.

Como a do Sorriso Profissional, praga americana no ramo da prestação de serviços: “Sorriso que não chega a envolver os olhos de quem sorri e que não significa nada além de uma calculada tentativa de promover os interesses daquele que sorri ao fingir que ele gosta da pessoa para quem sorri.”

Não consigo apontar se Wallace é melhor que Franzen. Do segundo já li romances tijolos e contos. Romance será o quesito final. Criar personagens, narrar, bolar tramas e conflitos… É a diferença entre pintar um quadro e um teto de igreja. O romance mais cultuado de Wallace, Infinite Jest, ainda está em processo de tradução e será publicado em 2013. Aí sim a comparação será com tira-teima.

Se eu fosse o editor manteria o título. “Jest” é algo como tirar um sarro, uma onda. Tomara que não usem Tirar uma Onda Sem Parar, Zoando Infinitamente. Já não basta o que fizeram com Sallinger e o seu Raise High the Roof Beam, Carpenters. Na Brasiliense virou Pra Cima Com a Viga, Moçada. Quando passou para a Cia. das Letras, virou Carpinteiros, Levantem Bem Alto A Cumeeira. Não dá… E The Catcher in the Rye? Tiraram a sonoridade e beleza. Virou O Apanhador no Campo de Centeio. Por que não Para Onde Vão os Patos do Central Park no Inverno?

Não é preciso ser literal. Feliz Ano Velho, que fez 30 anos, em inglês virou, Happy Old Year, em espanhol, Feliz Año Viejo, em italiano, Feliche Anno Vechio. Mas em alemão não faria sentido. A editora Rowohlt mudou para Sprung in der Sonne (me parece que é Um Mergulho Para o Sol), que saiu com uma ilustração na capa da Avenida Paulista com coqueiros e um sol de rachar. Blecaute virou Jenseits der 4 Jahreszeit, que não tenho a menor do que significa. Em tcheco, virou Stastny Stary Rok. Melhor nem saber o que é.

 

 

Sinto falta da prática do Sorriso Profissional no Brasil.

O Sorriso Estou Aqui Porque Preciso, do paulistano, o Está Falando Comigo? Profissional, do carioca, e o Vai Com Calma Meu Rei, do baiano, são sinceros, mas agregam o valor do Custo Brasil.

 

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E ano não acabou.

Tem coisa rolando ainda.

 

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