O tormento da água

O tormento da água

Marcelo Rubens Paiva

03 Março 2015 | 11h07

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Logo se inauguram restaurantes de rodízio de água, de água por quilo (litro), de água mineira, japonesa, italiana, francesa.

Logo alguns extrapolam e encomendam água a parentes que vão para o exterior, não uísque, nem Toblerone, e se tiver cisterna à venda no Free Shop, comprem!

De repente o brasileiro começou a levar a sério algo que nos advertem há décadas: é preciso valorizar a água. Tem casamentos em que o brinde é feito com taças de água cristalina 12 anos.

E os mais exigentes cheiram a água servida em taça, a tampa da garrafinha, examinam o rótulo com rigor e comentam depois:

“Mineralizada. Leve aroma de Potássio. Boa fonte. Pode servir.”

Já entendemos que é preciso racionalizar o uso.

Não era noia de ambientalistas apocalípticos ou da oposição. Somos cercados por rios e represas. Em São Paulo tem água saindo pelo ladrão. Tinha. Sumiram com ela. Poluíram. Aterraram riachos, nascentes. Construíram condomínios ao redor de represas. Ocupação ilegal e plantação de cana, soja e pastos tomaram a paisagem de mananciais. De repente, o ficamos obsessivos. Só falamos em como economizar cada gota de água e em reuso.

Talvez por culpa de no passado lavarmos tanta calçada com mangueira e cantarmos tanto bolero no chuveiro.

O problema é quando a obsessão vira loucura, como no meu caso. Passo o dia bolando invenções, como calhas em que água da chuva do capô do carro pode ser captada para o radiador ou para o reservatório do limpador de para-brisa.

Vejo a chuva desabar sobre o Sambódromo e me pergunto por que não tem gente recolhendo a água em baldes disfarçados de alegorias, ou se os carros alegóricos têm sistema de coleta de água, ou uma cisterna. Terá alguém na dispersão recolhendo plumas e paetês encharcados, para enxaguar, reutilizar a água, além de reciclar as penas para o próximo Carnaval? O maior volume captado da chuva durante o desfile ganha pontos no quesito Molhou a Pena Mas Deu Água?

Já tenho ideias de enredo para o próximo Carnaval: Volume Morto Me Salvou, Sistema Cantareira Meu Amor Cadê Você, Sabesp Infinita Razão do Meu Sofrer, A Torneira Secou Mas Governo Não Racionou, Uma Avenida de Cisternas Pra Você…

Meu desespero por racionar água é tamanho, que vejo gente chorando e imagino se dá para reutilizar as lágrimas. Chorar de tanto rir aumenta mais o nível de reservatórios oculares do que tristeza por um amor finito?

Minha neurose chegou ao ponto de me incomodar com a esposa do Chris Kyle, do filme Sniper Americano, vivida por Sienna Miller.

Como ela desperdiça água…

 

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Deixa escorrer o bem tão precioso, enquanto lava a louça, para discutir com o coitado do marido que ela que educa os filhos sozinha, sem se dar conta de que a torneira está aberta e ele passa pelo maior perrengue no Iraque. Numa outra cena, mais alegrinha, ela puxa a descarga no banheiro do nada, enquanto ele toma banho, para esquentar subitamente a água da ducha, brincadeirinha de mau gosto que não se faz numa crise de tamanhas proporções. Hídrica.

O Oscar não tem prêmio para filmes que dão o bom exemplo na preservação da natureza.

Mas não dá para a Sabesp multar cinemas que exibem filmes que dão mau exemplo? Sniper Americano é um filme envolvido em muitas polêmicas, menos a do desperdício de água.

Michael Moore tuitou dizendo que atiradores (snipers) “não são heróis”, e que um tio dele foi morto por um na Alemanha. Até postou a foto do jazigo do tio Lawrence T. Moore, em Flint, morto por um sniper na Segunda Guerra Mundial em 10 de março de 1945.

Moore falou uma das maiores idiotices que já se ouviu (que Roberto Godoy me dê razão). Pôde estar movido pela infelicidade do tio Lawrence, que morreu dois meses antes do fim da guerra, e pelo ódio que o conflito quase edipiano que Bush filho, contra o Saddam que o pai desistiu de cassar, provocou recentemente.

Mas que diferença faz você estar na mira de um rifle a mais de cem metros de distância, ou sozinho dentro de um caça, pilotando com o dedo no gatilho do manche, ou na blindagem protetora de um tanque, de um submarino, de um couraçado, ou com os dedos no joynstick manobrando um drone do outro lado do mundo? Acho até que, desses aí, o mais desprotegido é o sniper. Portanto, o mais corajoso. Graças a alguns deles, como Vassili Zaitsev, o maior atirador russo, camponês que matou mais de 400 soldados e oficiais nazistas, Stalin interrompeu o avanço alemão sobre suas estepes, retratado no magnífico filme Círculo do Fogo (2001).

O sinper não é um covarde, é um soldado agraciado com uma visão incrível e a habilidade de falir um parque de diversões, cuja missão é proteger outros soldados e acelerar o fim do conflito.

Outras polêmicas envolvem o filme.

O Comitê Americano-Árabe reclamou de discriminação contra muçulmanos. Relatou que seus membros foram alvo de ameaças, reacendendo um conflito racial que fazem de tudo para acabar. Na Europa, em alerta máximo contra obras que possam ser consideradas ofensivas por radicais islâmicos, tem gente se perguntando se o filme veio em boa hora. Sem contar que o assassino de Kyle começa a ser julgado justamente agora, o que pode influenciar o júri.

Alguns vão se irritar com os “clichês” (ai que palavra velha). Outros, que ele faz “apologia” (ai que palavra perigosa) da violência contra árabes. Na verdade, Clint fez um filme matematicamente perfeito, com seu livro de receitas de um western bem-sucedido: você está de boa no rancho no Texas com sua família (Kyle queria no fundo ser cowboy), vêm uns caras sujos e malvados, invadem suas pastagens, botam o terror, queimam sua cidade e somem; você se junta aos melhores, leva sua espingarda debaixo do braço e parte pra vingança; em momentos em que o cerco aperta, a cavalaria salva os heróis solitários. Alguns bons companheiros ficaram pelo caminho. Mas nossas esposas cuidaram do rancho, da família, se sacrificaram também por nós nos bastidores da luta.

Tudo bem, elas se sacrificaram.

Mas podiam lavar a louça com menos desperdício.