O Tinder partidário

O Tinder partidário

Marcelo Rubens Paiva

20 de julho de 2017 | 11h36

comitê eleitoral campanha de 1962 – rubens paiva à direita

 

Eu estava ontem de babá, sozinho com dois bebês em casa, um de 3 e ½ outro de 1 ano, quando a repórter do Estadão, Elisa Clavery, me ligou de surpresa para me entrevistar sobre a aliança PSB e DEM.

Eu tinha acabado de tuitar, lamentando que esta aliança desonra Antonio Candido, fundador do partido socialista, e meu pai, filiado a ele.

Os moleques aproveitarem os 20 minutos de distração e sumiram do meu campo de visão.

Escracharam.

Um pegou um presente para outra criança mais velha, um lego, abriu, espalhou pela casa, e passou a tarde intrigado, sem conseguir montar uma haste.

O outro foi pra cozinha, pegou um saco de paçoca em pó, abriu e começou a comer e a espalhar pela casa. Hoje ele ainda cheira amendoim.

Mesmo atrapalhado, me senti modestamente lúcido, dei uma entrevista boa.

Eu não imaginava que estava inteirado na conjuntura atual, tão difícil de explicar.

Passei a manhã pensando em postar algo.

Mas decidi citar trechos dessa entrevista que não foi gravada e está incrivelmente fiel ao que eu disse, palavra por palavra.

Ou fui bem pausado, ou a repórter tem o dom de estenografia rara de se ver, especialmente entre nós, jornalistas, que rotineiramente interpretamos e reescrevemos falas de fontes e entrevistados; já gravei fitas inaudíveis que tive de resgatar na memória o que o entrevistado disse; já fiz entrevistas em que esqueci de apertar o play e novamente tive que recorrer à memória.

Destaco alguns trechos:

“Eu acho que o Temer vai conseguir ser salvo. Abriu o caixa descaradamente, ética zero, moral zero. As ruas estão surpreendentemente quietas, o que demonstra uma desilusão completa. As pessoas estão tão absortas pela desilusão política, tão tontas, que nem às ruas elas vão protestar. Preferem ver a crise política de Game of Thrones e de House of Cards do que a do seu País. É uma desilusão com a esquerda, com a direita e com os políticos tradicionais.”

“Hoje em dia, pula-se o muro partidário com uma facilidade muito grande. Poderia ter um aplicativo, estilo o Tinder, para você encontrar o partido perfeito. A cada encontro, você está num partido diferente. A reforma partidária precisa olhar para essa infidelidade, coibir as traições, as mudanças de partido. O caso da (senadora do PMDB) Marta Suplicy é gritante, por exemplo. O DNA dela é do PT. Ela diz que vai para o PMDB para fugir da corrupção, se aliando justamente a uma ala podre do PMDB e da política nacional. Quem votou nela não votou como a candidata do PMDB ligada ao (presidente Michel) Temer, votou com uma mulher com história no PT, cujo marido (o senador Eduardo Suplicy) foi um dos primeiros políticos a se filiar ao PT, com uma história linda como senador.”

“É a história sendo vilipendiada. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) nos anos 1940 era uma fonte de aglutinação de escritores e intelectuais para combater o Getúlio (Vargas, ex-presidente da República). Com as denúncias das atrocidades do (ditador da União Soviética Josef) Stálin e com a corrente de esquerda que não concordava com as teses do partido comunista, do partido único, fundaram o PSB, o Partido Socialista Brasileiro. Era o que hoje em dia a gente chama de “terceira via”. Foi um partido que o Antonio Cândido, um desses intelectuais que estava combatendo Getúlio, fundou com outros intelectuais e seduziu grande parte da juventude de esquerda, depois da ditadura de Getúlio. Entre eles, estava meu pai, que não era comunista, mas era uma pessoa de esquerda, admirava até a União Soviética, mas não concordava 100% com o regime comunista.”

“Se você pensar naquela época, muitos escritores eram comunistas do Partido Comunista: Oswald Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade. Muita gente, inclusive, escrevia nos jornais e nas revistas literárias ligadas a partidos comunistas. O PSB era uma frente paralela a isso, que tem uma grande importância na história política e nunca foi um partido muito grande. Tem uma relevância exatamente por aglutinar uma esquerda não comunista, mas socialista.”

“Hoje em dia, com essa despolitização dos partidos, essa ‘desideologização’ das ideias políticas, fica ridículo, fica estranho, ver o PSB se aliar ao DEM, que é um partido identificado com ideias conservadores, grandes latifundiários, que é um partido de direita. Tudo para ganhar uns votos a mais, uns minutos de comerciais.”

“Tempos em que (o deputado federal Paulo) Maluf e (o senador Fernando) Collor se aliaram ao PT, ao Lula. São abominações políticas que quem conhece a fundação do PT fica horrorizado. Muita gente, inclusive, passou a viver o momento de desilusão completa. Esse troca-troca começou com o jargão hipócrita da governabilidade. De repente, governabilidade virou tudo, qualquer coisa. Misturar doce e azedo. Tanto o Jânio Quadros, quanto João Goulart e Collor saíram (da Presidência) exatamente por falta de governabilidade, falta de sustentação no Congresso. Então passou a valer tudo.”

“Isso está ocorrendo não no mundo todo, no Brasil. Essa ‘desideologização’ dos partidos e da política. Na Espanha, a oposição continua em uma situação bem clara. As pessoas falam do (Emmanuel) Macron (presidente da França), mas ele tem uma ideologia clara, não é exatamente socialista, nem de direita, é de centrão. Em Portugal, a esquerda está no poder. No mundo todo, é muito clara a divisão. (Essa despreocupação ideológica) Tem muito a ver com as cotas televisivas, a despolitização da sociedade, muito pouco esclarecida ideologicamente. Você faz partido para ganhar tempo na TV, para ganhar fundo partidário, para ganhar dinheiro da JBS, da Odebrecht e de outras.”

 

A completa está aqui:

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,fica-ridiculo-ver-o-psb-se-aliar-ao-dem-diz-marcelo-rubens-paiva,70001896382