O território livre dos youtuberdoidos

O território livre dos youtuberdoidos

Marcelo Rubens Paiva

04 Julho 2018 | 09h15

Se teu filho passou a te xingar com uma quantidade surpreendente de palavrões, sim, ele deixou de ver Peppa Pig, que se referia ao pai como “papai levado”, e está com os olhos presos pelo YouTube.

O barato dos youtuberloucos é pontuar frases com palavrão, gritar, exagerar, fazer caretas, contestar autoridades, para arrebanhar claques e cliques.

E faturar.

O escândalo em torno de Júlio Cocielo, o digital influencer popular de posts racistas (quem tem mais de 20 anos nunca ouviu falar), acende um alerta.

Ele tem 7,4 milhões de seguidores no Twitter, 11 milhões no Insta e 16 milhões no YouTube e nenhum controle, autocrítica, superego.

É um absoluto sem-noção que não segue um código de ética.

Para nos associarmos no seleto clube dos profissionais de um meio de comunicação, precisávamos de um diploma universitário e cursos profissionalizantes.

Em rádios, jornais, revistas e televisões, editores e subs nos editam, nos aconselham, cortam nossas asas, nos educam.

Nossas palavras passam por revisões.

As empresas com passado têm donos, acionistas, diretores e nome a zelar.

Uma hierarquia rígida estabelece limites do que pode ser publicado: manuais de redação foram escritos; gramáticos contratados circulam nos corredores das redações.

Leitores atentos denunciam, escrevem cartas, e-mails, posts, e somos obrigados a responder.

Algumas empresas têm ombudsman e SACs.

Nas TVs, palavrões davam multas.

Por vezes, somos processados.

Estamos constantemente em julgamento, respondendo pelos nossos erros, em reuniões de pauta, com chefias, almoços, com advogados e nos tribunais.

O YouTube veio para arrebentar a cadeia de comando e liberar geral.

Viva a liberdade de expressão dos influencerirresponsáveis.

Viva tudo! Pode tudo?

Não à toa, ele agride também os próprios meios de comunicação:

Cocielo tinha patrocínio do Itaú, Coca-Cola, Submarino, Adidas e do governo brasileiro, Embratur, para promover o turismo no Brasil.

E uma coleção de grosserias postadas desde 2010, que depõe contra as marcas que já o patrocinaram, como McDonald’s, Foster, Gillette, Tic-Tac e outras.

Grosserias que estão sendo apagadas, mas foram salvas por alguns usuários (veja abaixo).

Cocielo está entre as personalidades da rede que mais influenciam os jovens, como Flavia Calina, Felipe Castanhari e Felipe Neto.

Perdeu patrocínios em 1 de julho, quando repercutiu um dos seus comentários racistas, contra o jogador francês Mbappé.

Segundo Meio & Mensagem, as empresas que o patrocinaram se defendem:

O site Submarino repudia veementemente qualquer manifestação racista e tomará as providências necessárias.

Para a Coca-Cola, o respeito à diversidade é um dos principais valores da companhia, em campanhas que celebram as diferenças e promovem a união: “Manifestações preconceituosas não são toleradas. Repudiamos qualquer forma de racismo, machismo, misoginia ou homofobia.”

O Itaú repudia toda e qualquer forma de discriminação e preconceito: “Esperamos que o respeito à diversidade sempre prevaleça.”

Adidas repudia toda e qualquer tipo de discriminação e decidiu suspender a parceria com Júlio Cocielo”.

McDonald´s disse que já realizou ações com Cocielo, mas que a relação já não existe.

Os posts do influenciador são abomináveis e vêm de longa data. Prepare o estômago:

A pergunta é como nenhum patrocinador se ateve a eles, financiando práticas de discursos preconceituosos.

Como o YouTube ou o Twitter deixam isso rolar? E o Ministério Público, sempre atento ao que rola nas TVs? Como conviver com liberdade e ética?

Poucos defendem o (traumático) controle dos meios de comunicação.

Mas até onde vai tamanha indecência?

Em nota, ele se defende: