o referendo

o referendo

Marcelo Rubens Paiva

19 Abril 2011 | 17h57

Bárbara.

Atriz. Encostou seu Uno Mille e pediu pro namorado esperar com o motor ligado. Ia só trocar de roupa. 20h25. Daria tempo. Descer a Cardeal. Novo Sesc Pinheiros. Ela, eufórica, novo namorado, que milagrosamente também gosta de teatro. Os Sete Afluentes do Rio Ota. Ela já assistira. Ele não. Tudo bem, cinco horas de espetáculo. Mas é tão lindo, lindo, lindo, ela veria várias vezes. Como se conheceram? No Frans da Pompéia. Ela lia a Bravo, ele chegou e perguntou as horas. Coincidência, era ator também. De escolas diferentes. Ela, EAD, da USP, mais técnica, mais cerebral, ele, Indac, mais prática, mais fazer teatral. Outra coincidência, ambos ensaiavam peça criação coletiva, como Rio Ota. Ela entrou correndo em casa, apertou o botão da secretária eletrônica e, enquanto trocava de roupa, um arrepio: a noite anterior, de como ele a beijou na coxia, do amasso no proscênio à frente de todos, correndo pelos corredores do teatro, até se deitarem na cabine de luz e som e, em silêncio e no escuro, sem ninguém dar conta… Será que estou apaixonada? Garota, garota, olha bem! Olhou-se no espelho, virou de lado, olhou as pernas, as costas. Preciso cortar dois dedos. Colocou um vestido bem florido. Nem prestara a atenção nos recados da secretária. Voltou feliz correndo pro carro. Entrou e deu um beijão nele, que nem retribuiu. Tá ruim o vestido? Então, percebeu dois caras no banco de trás. Confusa. Pediram carona, são seus amigos, o que estão fazendo, vão ao teatro também? “Vai, toca esta merda!” Ela se lembra bem, foi a primeira frase dita, vai, toca esta merda! O namorado pedia com o olhar que ela obedecesse. Ela, a tremer. Colocou o cinto, engatou a primeira e tocou a merda. Só depois se lembrou de abaixar o freio de mão. O cara virou sua bolsa, olhou o conteúdo e reclamou que também não tinha nada, só um celular velho, duas notas de dez e dois ingressos do Sesc. “Você também não usa cartão?” O cara perguntou e encostou um cano gelado na sua nuca. O novo namorado também não carrega cartão? Ela teve uma reação surpreendente. Sorriu. Mais uma coincidência. Os caronas comentaram o azar de pegar um casal de coitados que não tem onde cair morto. E aí ela temeu: não ter cartão vai dar no pior? Culpou-se por ter demorado diante do espelho, e por não ter cartão e por ter sorrido. Rodaram pelo bairro, enquanto um deles ligava do celular dela para os pais dele, para negociar um resgate. Mas ninguém atendia. Até acabar a bateria. “Mas que porcaria vocês fazem?” Somos atores, ela disse. “E atores não são famosos, ricos?” Somos atores de teatro, não dá dinheiro. “E porque não fazem TV?” Porque gostamos de teatro, ela respondeu. “Por isso é dura”, o outro comentou. Mas faço o que gosto, ela retrucou e agora queria sumir dali, vontade de chorar. Não acreditava que discutia suas escolhas com dois monstros. Respirou e atuou, como uma dedicada stanislavskiana, recolhendo informações: personagem controlada. Rodaram por horas, cruzaram com o carro da Rota em silêncio, o que os fez milagrosamente desistirem. Mandaram encostar o Fiat e sumiram pela noite, enquanto o casal contava até cem. Bárbara vai votar SIM no referendo de amanhã, apesar de tremer toda a vez que chega em casa de carro. Ela não quer armas para se proteger, mas para evitar ser assaltada. E nunca mais colocou aquele vestido. Ah, sim, o namoro não durou muito. O cara não tinha tanto a ver.

Helô.

O celular toca. Que saco! Que namorado ciumento. Por que liga de hora em hora? Ele diz que é preocupação. É nada, é controle, é inseguro, moleque, que droga, por que se meter com esses caras, sua burra? São os piores, sai fora! Tanto homem. Ela joga o celular no banco de trás, desce do Classe A e nem entra na locadora, perdeu a vontade de assistir a um DVD. Vou dar o pé, vai ser difícil, o cara vai chorar, vai me infernizar, mas namorado ciumento não dá pé! Ele é legal. Mas não dá. O cara tem que se tratar. É isso, vou ligar e marcar uma conversa. Ela volta pro carro. Nem deu tempo de fechar a porta, um cara enfia a mão, um soco doído no olho, que absurdo, que violência, e nem deu pra reclamar, ela recebe outro murro, desta vez no nariz, de um segundo cara, que a enforca com o antebraço e a puxa para o banco de trás. “Cala a boca, sua puta, se não você morre!” São as últimas palavras de que ela lembra. Desmaiou. Não sabe quanto tempo passou. Recobrou deitada no banco de trás. O carro estava parado. Tinham arrancado a sua roupa. Um deles, em cima dela, estuprava-a. Ela se fingiu de morta. Não sentia nada. Só falta de ar. E vontade de morrer. Queria desmaiar de novo, mas não conseguia.  “Gostosa…”, dizia o cara. Outros dois estavam fora do carro. Fumavam. Era um breu. Um matagal. “Ela acordou. Está fingindo!”, disse o cara. O terceiro pulou em cima dela, deu uns tabefes e enfiou o cano do revólver na sua boca. “Acorda, nenê! Como uma vagabunda como você não tem celular?” Então, pediram telefones da família, e ela não se lembrava, sempre foi ruim em números, deu branco, os números estavam na memória do celular. E apanhou mais. Ela disse que jogara o celular atrás. Mas eles não encontravam. Colocaram-na pra fora do carro. Seguraram em seu cabelo, entraram no carro e rodaram, começaram a puxá-la pelo cabelo. Quando ela caía, eles paravam, mandavam levantar e repetiam. De repente, seu celular começou a tocar. Quem segurava seu cabelo se assustou, apontou para trás: “Ele está aí!” Foi a chance. Livre, ela se jogou no barranco e começou a correr. Ainda ouviu dois tiros. Não olhou para trás. Parou de correr quando amanheceu. Não recuperou o carro. Casou-se com o namorado ciumento. Sente-se protegida. Helô vai votar NÃO à proibição ao comércio de armas. E se reencontrar alguns dos desgraçados que a torturaram, vai esvaziar o revólver que comprou no rosto do cara. Sem dó.

Ambas são histórias verdadeiras contadas por amigas, vividas por elas.

Logo depois do referendo de 2005, que agora é contestado.