O que você quer ser quando crescer?

O que você quer ser quando crescer?

Marcelo Rubens Paiva

17 de agosto de 2015 | 11h38

108354997

Recebi um e-mail da escola do meu filho: seu primeiro “boletim”, relatório de sete páginas sobre alguém que não tem nem quatro palmos de altura.

Como o veem, como ele se comporta diante de outros, é legal, fofo, extrovertido, animado?

Ele é querido, solidário, justo?

Já se reconhecem algumas habilidades que apontem um futuro promissor?

O primeiro dia de aula:

“Quando o convidamos para brincar perto do baú, não se importou em se afastar da mamãe e continuou bem animado… Depois de tantas brincadeiras, fomos para a sala tomar lanche. Quando o ajudamos a sentar no banquinho, ele achou engraçado e começou a bater as mãos na mesa fazendo barulho e contagiando os amigos, que passaram a imitá-lo. Ao oferecermos os alimentos, comeu muito bem o que trouxe e ainda experimentou alimentos das outras crianças.”

Vejo liderança: capitão de um time de futebol, presidente de um banco, diretor de redação de um jornal. Espero não ser empreiteiro ou petroleiro, carreiras criminais de risco alto.

“Joaquim é um grande explorador do parque! No início, engatinhava e agora anda pelo espaço, observa as mais variadas situações que acontecem ao seu redor e, quando algo o interessa, para, olha, às vezes sorri e continua a andar.”

Seu dom Indiana Jones foi revelado. Nada de jornais. Poderá trabalhar no History ou Discovery Channel.

“Ama subir e descer a rampa, sendo que às vezes segura no vidro da lateral e fica olhando os amigos no calçadão e dando gritinhos para chamar a atenção deles. Quando aparecemos do outro lado e brincamos, dizendo ‘Vou te pegar, Joaquim!’, ele cai na risada e desce a rampa correndo bem rápido. É muito engraçado!”

Será um presidente da República?

“Quando montamos trilhas com pneus, tábuas, bancos, túneis e brinquedões de espuma, seguramos sua mão e ele vai fazendo o percurso, mas ao chegar ao túnel, fica um tempão entrando e saindo e às vezes deita lá dentro. Então explicamos que as outras crianças querem passar e ele volta a engatinhar rapidinho e sai com a maior cara de sapeca!”

Volta a possibilidade de ser empreiteiro.

Enfim, uma boa notícia, que pode aproximá-lo do Grupo Corpo ou da titia Débora Colker.

“Os elásticos que amarramos entre as árvores têm chamado bastante sua atenção: ele observa, puxa, estica um pouco e solta em seguida, intrigado com a experiência. Os brinquedos fixos também são bastante procurados por ele. Algumas vezes aproxima-se de um dos balanços coletivos, segura e fica empurrando para frente e para trás. Ao perguntarmos se quer ir, balança a cabeça fazendo que sim e, depois que o ajudamos a sentar, segura firme na corda enquanto o embalamos e cantamos algumas músicas, como A Cobra Não Tem Pé, Formiguinha e Jacaré Passeando na Lagoa. Ele acompanha mexendo o corpo todo animado. Muito bonitinho!”

Volta o temor de que pode entrar para a política:

“Em seguida reunimos o grupo no túnel e, quando ele vê a turma do Integral, começa a fazer a maior farra, sobe no banco, pega os brinquedos e quer levar com ele. Explicamos que não podemos levar porque outras crianças estão usando e que precisa devolver, mas ele balança a cabeça fazendo que não e segue em frente.”

O momento vergonha: “Joaquim passou alguns dias virando o prato em cima da mesa e espalhando as frutas. Nas vezes em que isso aconteceu, conversávamos sério com ele, explicando que não dá para jogar o lanche, e ele nos olhava fazendo carinha de bravo. Então o ajudávamos a colocar tudo de volta no prato, e ele rapidamente deixou de jogar. O pequeno come muito bem e adora experimentar alimentos dos amigos.”

O momento da escolha do gênero artístico: “Sempre cantamos algumas músicas enquanto as crianças vão chegando, e é muito bonitinho ver como Joaquim já cantarola junto e acompanha as canções fazendo todos os gestos. Ao cantarmos Foguete, passa uma mão na outra e imita o foguete subindo; em O Elefante Queria Voar, bate a mão no bumbum, dando risada, e ao ouvir A Dona Aranha ou Caracol, mexe os dedinhos.” Será que adentrará no bizarro universo do axé- music? Alguém tem o telefone da titia Débora?

“Joaquim gosta muito de propostas corporais, nas quais se diverte e não para um só instante! Empurra os rolos de espuma, passa por túneis, sobe na escadinha de espuma e desce deslizando de barriga, se jogando no colchão, monta no jacaré e no camelo e bate os pés nas laterais como se estivesse cavalgando. Também adora mexer no armário do salão, onde sabe que ficam os instrumentos musicais e pega alguns, fazendo muita farra e chamando a atenção de todos.” Um apresentador de TV. Quando Faustão se aposenta?

“Ao montarmos uma casinha, pega um prato, uma colher e finge que está comendo. Quando perguntamos se está gostoso, balança a cabeça afirmando.” Não! O político já está em campanha!

“Sobe e desce do escorregador pequeno com autonomia, embora sempre fiquemos ao seu lado, porque de vez em quando ele fica em pé dançando, antes de escorregar. É uma figurinha!” Ufa, um palhaço. Alô Parlapatões.

“Gosta de pegar um copo que tem um líquido dentro e descobriu que, ao virá-lo, o líquido desaparece e ao desvirá-lo, ele reaparece. Joaquim fica intrigado com isso e passa um bom tempo mexendo no copinho, tentando entender como isso acontece. Muito bonitinho.” Ministro da Fazenda?

“Nas brincadeiras de escritório, gosta de apertar os teclados de computador, achando graça ao ouvir o som de seus dedinhos nas teclas. Também pega um telefone e balbucia, depois aperta os botões e volta a balbuciar, sendo que muitas vezes entrega o aparelho para o amigo que está ao seu lado e fica olhando: se a criança fala alguma coisa, ele dá risada, se fica quieta ou coloca o telefone na mesa, ele olha bravo e pega de volta.” Jornalista?!

“Temos que ficar sempre de olho para pegá-lo assim que acordar, caso contrário, ele tira as chupetas das crianças que ainda estão dormindo, pega os paninhos, balbucia como se estivesse chamando todos e dá risada. É muito sapeca!” Vai ser político. Estamos fritos.

Tendências: