O que seria uma nova política?

O que seria uma nova política?

Marcelo Rubens Paiva

21 Novembro 2016 | 11h01

cesar

 

Diminuir a política é uma nova política?

Italianos votarão em 4 de dezembro o referendo constitucional que pede o suprimento do bicameralismo, redução de parlamentares, redução do custo do funcionamento do Congresso e supressão da CNEL (Consiglio Nazionale dell’Economia e del Lavoro), que rege sobre economia e leis trabalhistas.

Numa cédula rosa, que brasileiros com dupla nacionalidade também receberam, e podem votar pelo correio, o plebiscito é claro, é sim ou não.

É parte da reforma Renzi-Boschi.

Uma das repúblicas mais velhas da história vota por uma renovação radical, tocada pelo PD, Partido Democrático, fusão de várias correntes de centro-esquerda, que pede a extinção do Senado, sim, aquele em que César foi esfaqueado.

No fim fascismo, o Partido Comunista Italiano passou a ser a segunda força no poder da Itália democrática.

Com o escândalo do envolvimento na operação Mãos Limpas (junto com seus adversários políticos, que rachavam a propina), e a queda do Muro de Berlim, ele se desfez e virou PD.

Está hoje no poder com o primeiro-ministro Matteo Renzi na missão de aprovar o programa ousado de reforma da previdência e leis trabalho.

Se o líder de um partido não suporta a renovação, não lidera um bom partido.

A alternância do poder, elemento fundamental de uma democracia, nem sempre é respeitada por quem está atuando em prol dela, graças a ela, para ela.

O Partido Socialista Operário Espanhol, fundado antes da guerra civil, atingiu seu ápice entre 1982 e 1996, sob o comando de Felipe González.

Foi juntamente no período da entrada do país na Comunidade Europeia, que não aceitava a reposição de quadros, nem abria mão do poder.

O partido foi acusado de colaborar com grupos separatistas, organizações terroristas, se embananou na gestão econômica (taxa de 22% de desemprego, recessão e inflação). Escândalos de corrupção vieram à tona. Foi derrotado pela oposição em 1996, o conservador PP.

A popularidade de Felipe González se desfez. Deixou o PSOE seguir seu caminho? Não. Só em 1997, no 34º Congresso do partido, foi demitido de surpresa. O partido passou um período na oposição, quando muitos achavam que seria extinto. Foi reconstruído e voltou ao poder em 2004, com José Luis Zapateiro.

Tem líderes que se apegam ao poder como cracas no corpo de uma Baleia-jubarte. Animais políticos peçonhentos não compreendem o revezamento, não se veem fora do topo da cadeia de comando, contaminando um projeto que precisa ser sempre revisto.

O mundo muda. Alguns líderes democráticos desconhecem o prazer do descanso. Sentem nostalgia de um poder monárquico.

Mas do que uma democracia mais precisa para se manter saudável é do movimento pendular ideológico. Como nas leis do mercado, a concorrência política é um caroço espinhoso necessário.

O PT, maior derrotado das últimas eleições, com muitos quadros na cadeia, um comportamento contrário a seus princípios e negando sua essência e estatutos da fundação, atolou na discórdia.

Alguns defendem a sua extinção. Outros, uma mudança radical. Diante de uma burocracia partidária engessada, com ex-presidente, ex-tesoureiros, ex-ministros, ex-senadores e até marqueteiros presos ou condenados, Tarso Genro defende a “refundação” do PT.

Vira e mexe, rola uma debandada. Nesta semana, foi o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, quem abandonou o barco. Pode aumentar. Cinco tendências querem a troca imediata do comando do partido. Fundaram a aliança Muda PT. Questionam que sucessivos adiamentos de eleições internas, abuso de poder, ausência de debates, filiações em massa duvidosas e a máquina partidária interferem no processo de renovação.

CNB (Construindo um Novo Brasil), grupo liderado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também defende a renovação, mas em diferente grau e nebulosa.

Lula não abre a mão de controlar o partido que fundou com o propósito de unificar uma nova esquerda.

O PT tem um dono, sempre teve, que indicou sua sucessora (para muitos, o maior erro que o partido cometeu) sem consultas, sem ouvir ninguém.

O PT é Lula, como o PCB era de outro Luís (com esse), o Carlos Prestes.

O partido fundado em 1922 chegou a ser a maior força de esquerda do continente. Tinha penetração no campo, no movimento operário e entre intelectuais (Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, até Ferreira Gullar, que chegou a viver na União Soviética).

Prestes foi convidado por Getúlio para fazer a Revolução de 30 e recusou. Fez uma em 1935 e perdeu. Participou da redemocratização em 1945 e da Constituinte com 17 deputados e um senador, Prestes.

A teimosia do seu líder causou a debandada. Rachou. Veio o PCdoB, fundado em 1962, partido que recentemente presidiu a Câmara (Aldo Rebelo) e hoje governa o Maranhão. Carlos Marighella fundou a ALN e, com a VPR, de ex-comunistas oficiais do Exército, mais o PCBR, do comunista histórico Apolônio de Carvalho, pegou em armas para combater a ditadura e fazer a revolução, divergindo da Executiva do Partidão.

Veio a redemocratização em 1985.

O PCB existe ainda e não tem representante no Congresso, relevância e nem sombra da força de mobilização do passado.

O Brasil não pode abrir mão de um forte partido de esquerda, para o bem-estar da democracia.

No entanto, não é Lula, para muitos, o responsável pela desestruturação da esquerda e caos ideológico em que vivemos, quem deve estar no comando de uma frente.

Sua interferência no processo de criação de uma grande aliança causa mais embaraços e divergências do que agrega.