o que seria de nós sem as promessas?

o que seria de nós sem as promessas?

Marcelo Rubens Paiva

02 de agosto de 2013 | 12h14

 

Os egípcios observaram a repetição dos fenômenos naturais, o ciclo da Lua e do Sol, e inventaram um calendário, não apenas para a agricultura -determinar as datas para o plantio e a colheita.

Inventaram também para as egípcias saberem o dia ideal para cortar os cabelos, lerem o horóscopo às manhãs e, sobretudo, fazerem previsões nas festas de Réveillon que embalavam as margens do Rio Nilo e, para os VIPs, as pirâmides.

Pensando nisso, imagino qual teria sido o desejo de Cleópatra no Réveillon de 42 a.C., antes de pular as sete ondas na orla de Alexandria?

“Eu, filha de Ptolomeu XII, prometo parar de dar em cima desse gostoso do Marco Antônio. Os romanos só me dão dor de cabeça.”

Claro que Marco Antônio, no Réveillon do ano anterior, depois de se deitar com três romanas e quatro legionários bem gatos, prometeu:

“Neste ano, vou ao Egito descobrir por que César voltava de lá sorridente e falante.”

Milhares de anos antes, a previsão do Faraó Quéops, vestido de branco, fumando charuto e molhando os pés no Nilo, todos conhecem: “Prometo, depois da meia-noite, começar a maior pirâmide de todas, custe o que custar.”

Promessas nunca serão 100% satisfeitas.

Quer provas?

Na Grécia Antiga, seres mitológicos também tinham as suas promessas de ano novo.

Hércules: “Começarei a fazer os 12 trabalhos, nada de preguiça. Preciso apenas acordar mais cedo.”

Prometeu Acorrentado: “Ano que vem, juro que vou arrebentar estas correntes. Não aquento mais estes pássaros me bicando a barriga.”

Sísifo: “Deu meia-noite. Prometo levantar esta pedra até o topo e arrumar um calço nela, para ela não rolar novamente.”

Helena de Tróia: “Vou cuidar da pele, malhar bastante, deixar o cabelo crescer, ficar bem gata. Quero ser a mais bela de todas. É a chance de um troiano me tirar do tédio que é o meu casamento…”

Não se preocupe em pagar um micão e prometer aquilo que você não pode cumprir.

Na história da humanidade, a maioria das promessas não se concretiza.

Ora, vai dizer que você não sabia que o Paul McCartney jurou tratar melhor aquela japonesinha mala e calada, que não saía do lado do John, pelo bem do rock inglês, e que Mick Jagger prometeu andar sempre com um envelope de camisinhas no bolso?

Muitas promessas não se realizam. Mas o que seria de nós sem elas?

Promessa não necessariamente deve ser cumprida.

Deve sim ser prometida.

 

[trechos desse texto foram publicadas na recém-falecida Revista Gloss]

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