O preço

O preço

Marcelo Rubens Paiva

31 de março de 2009 | 12h47

Fui ao show do Radiohead na Chácara do Jockey. Paguei 200 pratas, assim que começou a vender pela internet. Convidei o amigo Paulo Ricardo, que também tinha comprado. Ficaríamos na Pista. Imaginei que eu precisaria da mãozinha de um amigo.

Nos conhecemos na USP há 25 anos. Ele fazia jornalismo, eu, radio & tv, na ECA. Fui seu calouro. Descobrimos que morávamos na mesma quadra, na Al. Eugênio de Lima. Não preciso dizer que nos tornamos unha e carne. De dia, as aulas. De noite, as ruas.

Batíamos ponto do Napalm, Carbono 14, Rose Bom Bom, Madame Satã, nossas segundas casas. De onde saiu a cena underground paulistana, que virou uma família. Nos reuníamos na casa-estúdio do fotógrafo Rui Mendes, no Bixiga, ou na do diretor de arte Michel Spitalli, na Japurá- vizinho de Dinho Ouro Preto. O que gerou uma mesa de pôquer famosa.

Paulo foi um irmão e meu motorista, enfermeiro, me subiu escadas, me levou para o Rio. Eu tinha uma namorada carioca, que morava no Jardim Botânico, num predinho sem elevador. Eu dormia lá, quando ia ao Rio. Se Neguinho, então meu enfermeiro, não pudesse ir, era o Paulo quem ia. Me subia dois andares de escada no colo. Ou melhor, nas costas. Adquirimos uma técnica: eu me agarrava no seu ombro, e ele me levava, como um estivador.


Paulo, na janela do apê do Jardim Botânico

Ontem, no show que deu no Tom Jazz, ele lembrou que o RPM fechou com a CBS numa dessas viagens em que ele foi convocado a me choferar.

O espanhol Tomas Munhoz, comunista e presidente da CBS, depois SONY, me chamou para uma reunião na sede da empresa, na Praia do Flamengo, já que queria gravar as músicas que eu compora e citava em Feliz Ano Velho. Era 1984. Recusei, ciente de que eu não tinha talento para tanto, e apontei para o amigo-enfermeiro: “Esse aqui tem uma banda”.

Paulo deixou o cassete demo do primeiro disco do RPM e depois virou o maior vendedor de discos da história do rock brasileiro (5 milhões).
No entanto, nunca deixou de ser meu amigo-motorista-enfermeiro.

No dia do show do Radiohead, descobri casualmente que tinha uma entrada exclusiva para PNEs (Pessoas com Necessidades Especiais), termo oficial, politicamente correto, para designar os deficientes. Estacionamos o carro na área exclusiva. Paulo me empurrou pelo chão de grama e areia. Nos indicaram o lugar para cadeirantes, um palco elevado, com rampa, na lateral da pista, em que cada cadeirante poderia levar 1 acompanhante.

Durante o show, ele, com um boné enfiado, foi comprar cerveja, me ajudou a subir a rampa, manobrou outras cadeiras de rodas, para encaixar os atrasados. Até uma jornalista de um site de notícias reconhecê-lo. Perguntou o que ele fazia ali. Ele disse que estava ali para me ajudar. Adiantou?

Saiu uma nota afirmando que Paulo Ricardo usufruiu do lugar reservado para deficientes. A nota adquiriu proporções de fofoca: virou notícia no TV Fama, sites, até na MTV. É o preço…


Neguinho na mesma janela

O amigo-enfermeiro com a então namorada Luciana, em Ubatuba

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