O Pensador no quintal

O Pensador no quintal

Marcelo Rubens Paiva

09 de novembro de 2009 | 17h23

“Faculdade serve para ir para o bar e fumar maconha, e nem isso eu fazia!”, twittou o humorista, apresentador do CQC e o mais novo polemista dos corredores da cultura brasileira, Danilo Gentili.

Talvez o dito não sirva para estudantes de medicina, engenharia, economia, que passam horas debruçados sobre livros que precisam de malas com rodinhas para serem carregados até as aulas. Mas para os que frequentam a área de humanas…

Pode ser que um baseado forte até ajude a entender os labirintos do pensamento metafísico, da Semiótica ou o estilo literário de Guimarães Rosa, ajude a criar peças publicitárias inovadoras, ou até, talvez, a entender a Teoria Geral da Relatividade de Einstein e a misteriosa Mecânica Quântica. O problema é se esquecer de tudo depois.

Trata-se de um ambiente com encontros rotineiros de garotos e garotas com os hormônios e a libido explodindo e se trombando, negando o que se esperam deles e os princípios dos pais. Bebem para adormecer os instintos?

Há um agravante na hipótese levantada pelo humorista. Parte da elite brasileira estuda em universidades gratuitas; um dos paradoxos do nosso sistema educacional. E é normal um relativo desdém contra tudo que é de graça.

Quem já teve a oportunidade de estudar numa universidade americana, sabe que lá a dinâmica é outra, já que o ensino fundamental é gratuito e dependendo do condado em que se mora, de alto nível, mas as universidades, até as estaduais, são pagas.

Os pais que pretendem ver os filhos com diploma economizam a vida toda, investem. É da cultura local planejar o futuro do filho desde quando ele nasce.

Os moleques chegam nas boas universidades com o lápis nos dentes, gastam cada minuto dos anos dourados mergulhados no campus, nas bibliotecas, estudando, pesquisando. Estão conscientes do sacrifício familiar e da oportunidade cedida. Poucos perdem tempo em barzinhos e fumando maconha.

Há uma cota grande de bolsistas exigida por lei. Bons alunos e especialmente esportistas são monitorados e convidados pelas universidades quando ainda estão no colégio. Há cotas para negros, deficientes, latinos, de acordo com a lei da ação afirmativa.

E residentes do Estado das universidades públicas pagam bem menos. Na Universidade da Califórnia, universidade estadual de Berkeley, por exemplo, uma das dez mais do país, de onde saiu a equipe que construiu a Bomba Atômica e inventou a internet, o aluno comum paga uma anuidade comparada às grandes universidades, mas os moradores locais pagam dez vezes menos.

Muitos acreditam que o modelo deve ser seguido no Brasil, que o Estado deve priorizar os estudos fundamentais.

Grande parte dos que estudam na USP, Unicamp, Unesp ou nas Federais poderia pagar uma anuidade, vem de boas escolas, consegue notas altas no vestibular. E deixaria para o dinheiro público o compromisso de dar as mesmas oportunidades nas escolas e colégios. É um debate sem fim.

Estudei um ano numa universidade americana, Stanford. A contracultura já era. California dream idem. Quem fosse pego fumando maconha no campus era preso. Cinco anos vendo o insistente sol da Califórnia nascer quadrado.

Fui informado por isso por um segurança de bicicleta, que correu para me alertar, quando eu acendia um, num gramado isolado, no primeiro dia, encostado numa árvore com o amigo Bogdan, escritor de livros de mistério, bestseller na Romênia, na primeira semana de aulas.

Quando meus colegas, vindo de todas as partes, souberam disso, dispensaram seus estoques na privada da minha casa, já que fui o primeiro a dar um jantarzinho de boas-vindas e a anunciar a novidade.

Entrei no clima. Parei de fumar. Li em média quatro livros por semana, gastei a vista na biblioteca da universidade, vi todos os clássicos na videoteca, junto com um colega iugoslavo cinéfilo, que estabeleceu a programação num caderno, me fez assistir aos filmes pela ordem cronológica e agendava sessões privês.

O bar mais perto ficava a milhas de distância. Outra lei proibia barzinhos no raio de 5 milhas.

A sorte é que havia outra droga para ser consumida, a de morar num parque cheio de esculturas originais de Auguste Rodin. São mais de 200, em bronze, espalhadas pelos jardins do campus, que podem ser visitadas 24 horas por dia. Entre elas, O Pensador, que ficava praticamente no quintal de casa, em frente à biblioteca.

E toda a vez que passava por ela, eu a cumprimentava. Imóvel há anos. Não lhe preocupavam os casos midiáticos, o julgamento de OJ, a bomba de Oklahoma, o 11 de Setembro. Continuava com o cotovelo apoiado no joelho esquerdo, pensando. Muitas vezes sem ser notado. Eventualmente, fotografado. Sob chuva, sol, calor, fog.

Testemunhou intacto o terremoto de 1989, que desabou alguns prédios do campus e da cidade de San Francisco. Não sofreu um arranhou, nem mudou a sua expressão… pensativa- que adjetivo fácil de atribuir.
Conversei com ele mentalmente sobre algumas questões fundamentais. Troquei ideias. Às vezes, ignorei, como fazem os americanos, quando não estão a fim de papo.

Certa vez, uma guia turística dava explicações, que era uma homenagem a Dante e representava o poeta diante dos Portais do Inferno. Estava nua (não a guia), como nu é o pensamento.
Fazia perguntas ao seu grupo, motivando-os. Pediu uma explicação para o fato de o cotovelo direito da estátua estar apoiado no joelho esquerdo, posição desconfortável que é o charme da obra. O que queria dizer o artista?

Eu nunca tinha reparado nisso. Imitei a postura. Realmente, a tendência é apoiarmos o cotovelo no joelho correspondente, não cruzá-lo. Meu Deus, o que queria dizer? Por que nos deixou o legado da postura incorreta?
Veio a explicação. Segundo a guia, pensar era doloroso, um esforço, não um descanso. Acreditei nela. Gostei da explicação. E toda vez que eu cruzei com a escultura depois desse dia, perguntei: “Tá confortável?”

Abriu na semana passada no Masp uma exposição de Rodin. Além da peça em bronze As Três Sombras, que pesa mais de uma tonelada e pela primeira vez saiu dos jardins do museu Rodin de Paris, há 193 imagens raras do artista.

Meu Pensador não veio. Visitei-o há quatro anos. Está lá, torto, imóvel. Não dá a menor bola para o que acontece no mundo. Não se cansa de pensar. No que tanto pensa? Será que chegará a alguma conclusão? Será que um dia se levantará e dirá “cansei, vou dar um rolê”?

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