o pensador de rodin sumiu

o pensador de rodin sumiu

Marcelo Rubens Paiva

07 de abril de 2013 | 21h35

 

Salamê minguê

 

É mais ou menos assim que funciona o mundo digital do qual você é escravo: um impulso elétrico encontra dois caminhos, faz “uni duni” velozmente, dispensa o “te” e segue. O processo se repete, se repete, se repete. Linguagem binária não aceita “salamê mingue”. Segue. Zero ou um, sim ou não, aceito ou rejeito, nada de talvez, indecisão, pensamento dialético, “sorvete colorê”. Aqueles que pensam muito, perdem o bonde da história, ou melhor, a conexão. O escolhido não foi você.

O GPS registra nossos espaços com tanta determinação, que não tem mais discussão: é em frente, direita ou esquerda. Heil GPS! Sites de buscas, mapas fotografados, Google Earth, a cidade registrada por cima, por baixo, em que podemos passear com mouse, dar um zoom, formam os aplicativos que não deixam dúvidas. Nossos tataranetos poderão ver onde e como moramos, por aonde circulamos, as casas em que fomos e foram gerados, rirem de pedestres tropeçando, bêbados golfando, gente em quintais e lajes fotografadas por satélites invasivos e invisíveis, que não respeitam a privacidade das sombras.

O Google Maps me ignorou. Estava na Ponte Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo, mais conhecida como Ponte Cidade Jardim. Vi na direção contrária o carro com a câmera no teto. Até acenei. Queria me eternizar. Acabei de checar. Não estou na foto.

Como também sumiu meu amigo O Pensador.

Sumiu?

A Universidade de Stanford se gaba por ter 200 de esculturas de Rodin espalhadas pelo campus. Estão lá O Pensador e Burghers de Calais. Originais. Era um clichê O Pensador pensar entre as duas bibliotecas, Mayer e Green. Durante o ano em que vivi ali, o encontrava todos os dias. Pensava, pensava, pensava, enquanto turistas o observavam. O que tanto pensava?

A estátua causava um frisson em todos os calouros e visitantes. Afinal, era dos poucos originais do escultor, assim, ao relento como nós. Muitos almoçavam nos bancos para ter a companhia de alguém (algo) tão ilustre. Mas, depois de um tempo, ganhava a relevância de um hidrante ou poste a ser desviado por ciclistas, cadeirantes, pedestres, já que ficava no meio de uma ladeira.

No final minha da bolsa, passei a registrar cada visão, paisagem e prédios de arquitetura espanhola, que sofreram danos no terremoto de Loma Prieta de 17 de outubro de 1989 (7,1 na escala Richter), com saudade antecipada. Numa tarde ensolarada cheirando a feno seco de começo de verão, decidi pela primeira vez parar e ouvir o que dizia a guia turística a uma dezena de pessoas em férias diante do The Thinker.

Depois de expor obviedades como por que a estátua estava diante da biblioteca e de costas para ela, perguntou se reparamos em algo estranho. Ninguém reparou. Nunca reparei, nas centenas de vezes que passei por ali sob sol, chuva, de dia, de noite, bêbado, com pressa, distraído ou atento. Era apenas a figura mitológica impressionista, de bronze, enorme, pensando com a mão no queixo, rejeitada pela escola de Belas Artes de Paris, parte da obra Os Portões do Inferno, inspirada em Dante, que também está em Stanford. Indica paz, reflexão, refletindo infinitamente, persistente, alimenta centenas de interpretações, o longo caminho a ser percorrido pelo homem, que pensar talvez não seja apenas um processo, mas a essência, penso, logo existo, não?

“Tá apoiado no joelho errado”, ousou a menininha de uns seis anos.

A monitora apontou para ela, exultante. Poucos talvez ninguém respondera àquela pergunta que tantas vezes fizera, já que estavam mais interessados em fotografar do que reviver tempos de escola em que professores assustam com perguntas repentinas que atravessam a sala como flechas e furam a testa dos distraídos. “Repete, queridinha, por favor.”

Nada. Timidez. Se escondeu atrás dos pais, como se tivesse feito uma travessura num ambiente clerical. “Sim, ele está apoiado no joelho errado. Numa posição extremamente desconfortável. Estão vendo?”, a monitora apontou. Examinamos os cotovelos e joelhos da estátua. Estranho. A mão no queixo, OK. O braço dobrado, OK. Mas o cotovelo direito não está apoiado no joelho direito, como seria o natural, mas no joelho esquerdo!

Automaticamente, todos do grupo se entortaram, alguns se agacharam e tentaram imitar a posição. É preciso hiperestender o deltoide, relaxar o tríceps. O Pensador está naquela posição há mais de 130 anos! Suas costas devem estar em frangalhos. A dor na nuca, o supra-espinhal forçando o manguito rotador…

“A posição é relaxada?”, perguntou a monitora.

“Não”, respondemos unânimes.

“Não?”, repetiu.

Como coreografados e numa classe do primário, fizemos o não com a cabeça, incrédulos por nunca termos notado algo tão revelador.

“E o que o artista quis dizer?”

O quê? Ninguém aguentava mais aquele interrogatório. O suspense fazia parte do show. Era a peripécia de Aristóteles, que antecede a revelação. Experiente, manteve o timing perfeito. Que manteve em todas as visitas monitoradas que fez. Sabia já como reagiriam à novidade. Talvez aquela garotinha fosse parte da performance, do complô!

Congelou a expressão como uma caricatura. Enquanto a de Rodin, sóbria, a monitora tinha o rosto esquisito, como O Grito, de Minch. Quando enfim sorriu, respirou fundo e anunciou, o ponto de virada, como se ela mesma tivesse descoberto, o que o artista quis dizer:

“Pensar requer esforço, raciocinar é um desgaste também físico, pode trazer sofrimento, dor, que a humanidade passou por muitos traumas para chegar aonde estamos, que filósofos se contradisseram, um movimento artístico negou o anterior, que guerras foram travadas, para haver paz, justiça, que…”

A essa altura, com raiva de ter passado por aquela escultura obstáculo tantas vezes, examinei o dorso, o quadril, as costelas à mostra, o braço esquerdo apoiado naturalmente, e o direito completamente tencionado. Pensei se O Pensador tinha consciência do começo, meio e fim e, portanto, do tempo. Pensar, só pensar, leva à ação?

Deixa pra lá.

O Pensador de Rodin não sumiu.

A escultura de uma tonelada, instalada ao ar livre em 1988, foi removida para um ambiente fechado, o Cantor Arts Center.

Descobri casualmente nessa semana aqui no Sumaré, passeando pelo campus pelo Google Maps e me surpreendendo com o vazio entre as bibliotecas.

Foi pensar sem ser incomodado.

Será que assim chega a uma conclusão?

 

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