o passado

o passado

Marcelo Rubens Paiva

03 de agosto de 2009 | 13h46

Não consegui “entrar” na trama do filme À DERIVA, de Heitor Dhalia. Irritava um pouco aquela família de gente tão… problemática. Chata?

Enquanto pré-adolescentes em férias descobrem os dilemas da sedução amorosa e do sexo, testemunha a tragédia que acontecia nos casamentos de seus pais, a dissolução da paixão, a traição e até o descontrole- há um assassinato passional na casa vizinha, certamente inspirado no caso de Ângela Diniz, ex-pantera assassinada por DOCA STREET.

O amor é trágico, descobria a molecada.

Todo tempo, alguém dizia: “Precisamos conversar”. Isso é uma tremenda falha do roteiro. A frase era dita diversas vezes durante o filme. “Vamos conversar?” Ora, fala logo o que tem a dizer. “Preciso conversar com você.” Diz! Conta. Perde-se o timing, anuciando um enunciado.

Mas o filme é bonito. A história, bem amarrada. Não causa aquela comoção de NINA ou CHEIRO DO RALO.

Meu problema com o longa foi que ele me remeteu a lembranças que não se apagam. Pois eu passava as férias naquela região, BÚZIOS, durante a infância e adolescência, usava aquelas roupas, já que o filme é de época [anos 70], aqueles shorts e camisetas, desejava as meninas com aquele tipo de biquíni [figurio impecável de Alexandre Herchcovich].

Conheci BÚZIOS na década de 60, quando morava no Rio. A elite se acomodava em CABO FRIO, quilômetros antes. Os aventureiros encaravam a tortuosa estrada de terra e areia até a península em que não chove quase nunca.

O amigo do meu pai, FRANÇOISE MOUREAU, cujo grande feito foi ter ido com o irmão, ALAN, de carro, nos anos 40, um calhambeque FORD, do Brasil até os Estados Unidos, era um naturalista, que comprou um canto do morro da praia de MANGUINHOS.

Espalhou alguns casebres pela montanha. Não tinha luz elétrica, os carros não chegavam, nada de telefone, TV, os banheiros eram improvisados, e a ducha, um bambu de água natural corrente.

E eu passava 3 meses de férias largado, com uma criançada numerosa, pra cima e pra baixo.

Cruzávamos o morro por uma trilha e dávamos na praia de TARTARUGA deserta. No fim da tarde, ajudávamos os pescadores a puxar redes de pesca em MANGUINHOS, num arrastão coletivo; o prêmio, peixes frescos.

À noite, cercados pela fogueira, contavam-se histórias. E tínhamos que nos virar na escuridão, para encontrar o caminho de cada casebre, ou com lampiões a querosene. O grande programa era ir ao único restaurante de BÚZIOS, uma pizzaria de um alemão, se não me engano, chamada MARX, em palafitas sobre o mar calmo da vila.

Aconteceu comigo o mesmo que no filme, em que garotinhas disputam um moleque. Fiquei com LÚCIA, quem considero a minha primeira namorada. Mas como ela tinha dúvidas, nos seus 13 ou 14 anos, me enrolou, acabei vencendo a timidez e dando em cima da irmã, ELIZA, que parecia gostar de mim, mas com quem não rolava. ELA ERA MAIS NOVA.

As duas eram lindas. Irresistíveis. Línhamos revistas de histórias em quadrinhos juntos. Um dia, atacados por uma cobra, me senti um herói, ao matá-la a pauladas. Ganhei um beijo de ELIZA pelo feito, enfim.

BÚZIOS me remete às minhas primeiras experiências sexuais. Havia bailinhos cujo maior propósito era a pegação. Com o tempo, virei surfista, e as garotas se acumulavam na areia para nos ver descer aquele mar de ondas velozes e traiçoeiras.

Me dei mal, quando numa ressaca não fiquei em pé em nenhuma onda, apesar de na areia LÚCIA, outra LÚCIA, amiga da família, me vigiar, uma garota com peitos grandes, para quem eu tentava me esnobar. Mas que o mar dedou: eu era um péssimo surfista [paneleiro, como se dizia]. Saí do mar, e ninguém mais estava na areia. Voltei a pé sozinho, derrotado, carregando uma prancha maior do que eu.

Detalhe: entre os adolescentes, as garotas de peitos grandes são as mais disputadas. Cito ela em FELIZ ANO VELHO, e na peça baeada no livro seu personagem ganhou destaque: LÚCIA DE BÚZIOS.

BÚZIOS era uma sequência de praias desertas, estradas de areia, natureza viva. Uma das imagens mais macantes foi a de um golfino [ou boto] encalhado na areia, que não resistiu e morreu. Em horas, os locais apareceram e retalharam o bicho, para comerem a sua carne doce.

FRANÇOISE vendeu aquele pedaço de paraíso no final dos anos 70. Anos depois, fui sozinho para lá. Estava tudo abanonado. Entrei num dos casebres secretamente e dormi numa das caminhas de cimento eu que dormi e sonhei na adolescência. Havia uma casa de marimbondos bem em cima, no telhado. Achei que, se eu não os incomodasse, estaria tudo em paz entre nós.

Mas no meio da noite fui atacado. Recebi ferroadas por todo o corpo. Corri pelas trilhas, na escuridão, até receber guarita na casa do ex-caseiro.

Nunca mais voltei. Nem tenho coragem de ver no que BÚZIOS se transformou. Aquela montanha deve ser agora um condomínio. O passado é muitas vezes melhor do que a verdade. O passado dói? Deixe ele hibernar…

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