o nosso próprio tempo

o nosso próprio tempo

Marcelo Rubens Paiva

13 de março de 2013 | 16h51

 

Como dizia um amigo: “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo…”

Meu colega de colégio Marcelo Coelho e Caco Galhardo lançaram no final do ano passado pela CosacNaify e SESC o livro CINE BIJOU.

Coelho- como eu e muitos das muitas escolas progressitas- frequentava não só o Cine Clube da FGV como o Bijou, pulgueiro da Praça Roosevelt, hoje o Teatro Studio 184.

 

 

Passavam filmes europeus, de arte, em 16mm, censurados, proibidos para menores de 18 anos, e os bilheteiros não pediam carteirinha.

Víamos Pasolini, Fellini, Antonioni, filmes por vezes incompreensíveis para moleques de 14 a 17 anos, que tinham mulheres peladas e nos levavam à loucura, a um debate sem fim, sobre o significado disso e daquilo.

Alguns filmes brasileiros censurados, como IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA, do grande Jorge Bodansky, também passavam, e assisti-los era tenso, pois a qualquer momento a sala poderia sofrer um ataque da extrema-direita [CCC] ou da própria repressão política.

Ditadura, amigo.

Quem não viveu não tem ideia do que significava assistir a algo “subversivo” como LARANJA MECÂNICA, BALÉ DE BOLSHOI, PLINIO MARCOS, GODARD [especialmente JE VOU SALUT, MARIE], ou ler o relatório da CÚRIA de São Paulo sobre a fome no Brasil, que teve mais livros censurados que muitas editoras de literatura pornô-erótica.

O livro CINE BIJOU é um “resgate deste ícone da região central da cidade”.

“O autor nos apresenta, por meio de um texto memorialista, de cunho assumidamente autobiográfico, suas experiências no cinema, único onde conseguia assistir a filmes proibidos para menores de 18 anos – embora muitas vezes ele mesmo não entendesse nada do que se passava na tela. À censura etária somavam-se ainda as proibições que atingiam também os adultos, em tempos de ditadura militar. As ilustrações de Caco Galhardo passam como um filme diante do leitor. Caco voltou aos grandes clássicos da época e, inspirado em cartazes como os de LARANJA MECÂNICA, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO, BLOW UP, MEU TIO – valendo-se ainda de sua habilidade e experiência com o cartum –, criou micronarrativas em quadros cinematográficos.”

CACO trabalhou com referências fotográficas de época para desenhar lugares e pessoas.

Baixe aqui o libreto virtual Cine Bijou, um guia com curiosidades e dicas sobre a praça Roosevelt e o Cine Bijou:

Neste sábado, exibe o documentário 1964 – UM GOLPE CONTRA O BRASIL, produção do Núcleo de Preservação da Memória Política e da TVT – Televisão dos Trabalhadores.

A sessão de estreia acontece às 15 horas, na antiga Sala Sérgio Cardoso do Cine Bijou. Inscrições exclusivamente pelo e-mail contato@nucleomemoria.org.br.

Lugares limitados à lotação da sala, 80 poltronas. Serão distribuídas senhas a pessoas que não tiverem se inscrito, para o caso de até o horário programado para a exibição a lotação não tiver sido completada por quem tiver feito inscrição prévia. Não será permitida a entrada após o início da sessão, em respeito ao público presente pontualmente

O jornalista e professor Milton Bellintani, do Núcleo Memória, quem criou o ciclo de cinema que prevê uma sessão mensal no Teatro Studio 184 sempre aos sábados às 15 horas, com pipoca e debates com os realizadores, professores e especialistas depois da sessão.

Os próximos filmes:

Em abril, em data a ser programada até o início da próxima semana, será exibido o filme VERDADES VERDADERAS – A VIDA DE ESTELA, sobre a trajetória da líder da organização Abuelas de la Plaza de Mayo, Estela de Carlotto.

Em maio, o documentário EL DERECHO DE VIVIR EN PAZ, sobre a vida do cantor chileno Victor Jara, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet em 1973 – com debate após a sessão tendo a presença da diretora e jornalista Carmen Luz Parot.

O documentário 1964 – UM GOLPE CONTRA O BRASIL, de Alipio Freire, oferece uma reflexão coletiva de personagens que participaram da luta política naquele período sobre os motivos que levaram ao golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart em 31 de março/1º de abril de 1964, destacando a aliança entre as elites econômicas não nacionalistas e o governo dos Estados Unidos para a viabilização da ditadura civil-militar que se instalou no país.

A narrativa do filme é feita por meio de depoimentos de personagens que viveram aquele período como militantes da causa democrática e também por estudiosos da época. Almino Affonso, ministro do Trabalho do governo Jango e um primeiros parlamentares cassados pela ditadura; Aldo Arantes, presidente da UNE – União Nacional dos Estudantes; Rafael Martinelli, líder ferroviário e dirigente do CGT – Comando Geral dos Trabalhadores; Maria Victoria Benevides, socióloga; Waldemar Rossi, militante sindical; João Pedro Stedile, da Coordenação Nacional do MST – Movimento dos Trabalhadores sem Terra; Reinaldo Murano, médico; Maria Auxiliadora Arantes (Dodora), psicanalista; José Ibrahim, líder da greve de Osasco em 1968; Rose Nogueira, jornalista; e José Luiz Del Roio, radialista e ex-senador na Itália.

“Todos eles tiveram um papel importante no cenário de luta do pré e do pós 1964. Em seus depoimentos, compõem um discurso polifônico com pontos de vista políticos que ajudam a explicar, passados quase 50 anos, quem deu o golpe, com que objetivos e que consequências isso teve para a nossa história contemporânea”, diz Alipio Freire, diretor do documentário.

Veja seu teaser:

 

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