O mundo sem Love Story

O mundo sem Love Story

Marcelo Rubens Paiva

13 de novembro de 2015 | 13h06

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Filme Love Story não seria possível hoje.

“Love means never having to say you’re sorry”.

A frase é citada duas vezes. Foi traduzida por: “Amar é jamais ter que pedir perdão”.

Eu tinha 11 anos quando o filme foi lançado em 1970 nos EUA e veio para cá logo depois.

Vi no Drive-In da Lagoa, Rio de Janeiro, em que iam todos os amigos, o programa mais popular dos fins de semana carioca, e minha irmã mais velha, já com namorado, colocava eu e minhas irmãs no teto do carro, para ela namorar em paz, já que meu pai só a deixava sair se levasse os irmãos.

Passei a infância brincando de Love Story com minhas irmãs.

Depois de trocas de socos, sustos, perseguições pela casa, dizia ironicamente: “Amar é jamais ter que pedir perdão”.

Frase que na verdade deveria ser, se a tradução fosse literal: Amar significa nunca precisar dizer que se sente arrependido.

Ou culpado?

Em português, curiosamente, não existe uma tradução exata para o you’re sorry.

Love Story reprisa no Canal Cult.

É um filme lindo.

Graças ao genial roteirista Erich Segal, que estranhamente nunca emplacou outro grande roteiro.

Se tem uma hora e meia, a gente começa a chorar aos 40 minutos de filme, no começo do “segundo ato”, e não para mais.

Oliver Barrett IV (Ryan O’Neal), estudante bilionário de Harvard, que não sabe o que quer da vida, e tem uma relação tensa com o pai a quem chama de “senhor”, na verdade é um chato.

É Jeniffer Cavalleri (Ali Mac Graw), estudante pobre de música, de uma família ítalo-americana católica, quem carrega o filme (e a relação) nas costas.

Se conhecem na biblioteca.

Ela quem diz para ele, depois de um ataque do mimado: “Love means never having to say you’re sorry”.

O que ele diz para o pai na última frase do filme.

Ela é irônica, chama o namorado de “esnobe”, responde às crises existenciais do namorado com sarcasmo, é linda de morrer.

A relação (rico e pobre) não é aceita pela família dele. O pai o deserda, ele não tem como pagar as mensalidades da iniversidade mais cara dos EUA, ela vai trabalhar numa escola de crianças para sustenta-lo.

O amor dos dois é completo. É perfeito. É lindo. É possível?

Você já sabe o final. Ela tem 25 anos quando fica doente. Desabamos.

Love Story hoje em dia não seria feito.

Falta aquele toque de descrença nas relações dos novos tempos.

Faltaria a sacanagem, a intolerância. A ideia de que ninguém é perfeito, de que “casamento é assim mesmo”, “mulher é doida”, “homem é tudo igual”…

A utopia se extinguiu. O paraíso não existe.

Vivemos tempos do Tinder, da fugacidade do amor, do anti-herói, da busca do selfie perfeito, da autopromoção.

Faltaria Zygmunt Bauman no LS de hoje.

Hoje, um jovem não largaria a família bilionária, ostentaria.

Roubaria o carro mais caro da coleção do pai e sairia por aí a mil.

Uma garota não sacrificaria sua carreira em prol do namorado rico com problemas edipianos, mandaria relaxar com Rivotril 2,5 mg em gotas.

Falta sacanagem, dose de realidade, amigos e amigas dando conselhos errados.

Acabou o amor pleno.

Pena.

Sem contar que é um baita filme, é uma baita história, de um baita caso de amor. Que, como foi interrompido precocemente, não sabemos se o desamor chegaria futuramente.

Resta a nós um registro quase antropológico de como se via o amor, antes da era das ilusões perdidas.

E assisti-lo com lencinho na mão. Tem até a versão integral no Youtube. Dá pra assistir do celular.

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