O menino commodity

O menino commodity

Marcelo Rubens Paiva

10 de fevereiro de 2019 | 11h58

Da minha janela, vi esses meninos jogarem.

No campo que revelou Zico, Júnior, Júlio César, Adriano, Luan, Paquetá, Vinícius Júnior: o lendário Estádio da Gávea, do Flamengo.

Morreram meninos apertados num contêiner, que tudo o que queriam era, como seus ídolos, quem sabe jogar no time principal, Seleção Brasileira, Milan, Real, fazer história.

Da minha janela, vi Ronaldinho Gaúcho ser ovacionado por 20 mil pessoas.

Ouvia da cama uma torcida fanática às manhãs de domingo torcer e empurrar: “Meengooo”.

Sempre fui acordado, no nosso apartamento no Selva de Pedra, Rio, pelos pais, amigos, torcedores desses meninos.

Os grandes jogariam à tarde no Maracanã. Os pequenos, na Gávea.

Faziam bonito, apesar da pouca idade. Jogavam como grandes.

Vi rivalidades, sangue nos olhos, técnica, inteligência, habilidade na pele de adolescentes.

O último foi um disputado Fla-Flu sub-17: Garotos do Ninho contra os Moleques de Xerém.

Que se sacrificam como poucas crianças, aguentam instalações precárias, passam frio, fome, são vítimas de assédio e abusos.

Que deixam de ser menino muito cedo.

Viram commodities.

Porque assim são tratados: naquelas arquibancadas, estão também olheiros, investidores, empresários fazendo contas, seduzindo pais, de olho num produto exportação Made in Brazil.

E por serem commodities, já ficam instalados num contêiner.

No contêiner em que iriam para o porto, seriam embarcados para Espanha, Itália, Inglaterra, China, Japão, Leste Europeu, Arábia, mercadoria de qualidade, prestígio e barata.

Nos Estados Unidos, um atleta só se profissionaliza se frequenta escolas, colégios e universidades. No circuito estudantil, se destacam.

Aqui, vão do contêiner para o campo, para o contêiner, à espera de uma boa oferta.

Aqui, são leiloados.

E se acontece no time de maior torcida, que recentemente equilibrou suas contas e é modelo de gestão, imagine no Brasil Profundo…

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