O maluco e o gigante

Marcelo Rubens Paiva

25 de agosto de 2009 | 17h23

Raulzito: 20 anos da sua morte.

Maluco Beleza. Maluco?

Foi um dos caras mais inteligentes e engajados da MPB. Correu paralelo aos movimentos da moda de sua época- bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, canções de protesto.

Conheci Raul Seixas no final dos anos 80 num hotel de quinta, em Copacabana. Um pulgueiro em que morava sozinho, recém-separado. Estava um caco.

Falava sem parar. Mas eram frases confusas, pensamentos desconexos. Estava viciado em éter. E, claro, cheirou na minha frente. Molhava um pano imundo, cheirava e falava. Até nisso, ele nadava contra a corrente, já que era a cocaína e heroína que passeavam pelas veias do rock brasileiro naquele tempo.

É um dos pais do rock brasileiro. Misturou baião, forró, música erudita com guitarras. Enfrentou a censura e a ditadura com esperteza: se dizia maluco, excêntrico, mas tinha muita metafísica em sua performance e, como todo filósofo, política. “Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez.”, disse.

Redefiniu o conceito de regionalismo: um baiano antenado, mais próximo de John Lennon do que de Dorival Caymmi. Não trocou os tambores pelos amplificadores. Na música MOSCA EM SUA SOPA, há uma levada de samba-de-roda.

Falou ao jovem e deu esperanças ao País oprimido. Há muita contestação política em todas as suas letras. “Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na sua loucura, acabará sábio”, disse.

No entanto, viveu o ostracismo dos gênios. Com a explosão do rock brasileiro nos anos 80, ficou excluído. Era o “chato”, “anacrônico” e “bêbado” que todos evitavam. Respeitavam, mas não o convidavam para as festas.

Como ocorreu com tantos outros, que só com morte recuperou a vida, como Tim Maia [excluído da Globo], Plínio Marcos [excluído da grande imprensa e até da TV Cultura], autênticos que não mediam palavras e não abriam mão de seus ideais: “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade”, falou.

Paralelamente, seu grande parceiro, Paulo Coelho, brigado com ele, iniciava a carreira de “grande escritor”.

Marcelo Nova e a banda Camisa de Vênus, baianos e de alma roqueira, o resgataram. Fizeram uma parceria não muito bem-sucedida. Enquanto Cazuza e Renato Russo se transformavam na voz de uma geração. E Lobão imprimia atitude e verdade no rock.

Ironicamente, seu último disco com Marcelo Nova, A PANELA DO DIABO, lançado um dia após sua morte [21 de agosto de 1989, aos 44 anos], vendeu 150 mil cópias e rendeu um disco de ouro póstumo- foi um dos discos de maior sucesso de Raulzito.

Mas sua vingança foi sutil. De repente, depois da sua morte, em algum show de rock, alguém da platéia gritou: “Toca Raul!” Ele, sim, é nosso representante. Hoje, imortalizado, virou um bordão de todos os shows. Quando o público está entediado ou incomodado com o adoçamento da rebeldia que vê num palco, grita: “Troca Raul!”

“A formiga é pequena, mas elas são um exército quando juntas”, escreveu. Pense em suas letras:

Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Raul exprimia as contradições dos movimentos sociais, especialmente da esquerda, que mudava a linha ideológica a cada 6 meses, enterrava ícones e ressuscitava outros, que contraditoriamente defendia a luta e a paz, contestava as guerras e o autoritarismo com protestos de ruas. Dizia: “Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito. Só há amor quando não existe nenhuma autoridade.”

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Era o pensamento reinante de uma geração perdida entre a luta armada e a alienação.

Se fazendo de bobo, e censurado eventualmente, encontrou formas de ironizar a ditadura e o incomodo que causava:

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou pra lhe abusar.
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono

Mesmo censurado, conseguia espaço e popularidade, inclusive entre as crianças, para passar um recado aos censores e à repressão, e dar esperança a aqueles que perdiam seus heróis assassinados:

E não adianta
Vir me dedetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar…

No mais, a poesia regia a sua alma [“eu sou os olhos do cego, e a cegueira da visão”]. Imagens incríveis, da sua mais marcante música, GITA, mexiam com a nossa imaginação, num diálogo com Deus, ou superego, ou pai, ou mundo, ou amor. Você a conhece de cor. Mas vale lembrar:

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar…
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou..
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição…
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada…
Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra “A” tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor…
Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo…
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão…
Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

Maluco?!

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O filme uruguaio GIGANTE, em cartaz, que ganhou o prêmio de melhor roteiro na última edição do Festival de Gramado, merece ser visto, especialmente por aqueles envolvidos com a indústria cinematográfica brasileira.

Baixíssimo orçamento- o filme só foi lançado graças ao apoio do indústria de cinema cubano, que fez a cópia em película da versão digital.

Roteiro brilhante- que economiza nas falas e consegue contar a história de Jara [Horacio Camandule], o alto, gordo e tímido segurança de um supermercado e de uma boate de heavy metal, de que é fã, que segue com os olhos Julia (Leonor Svarcas), faxineira recém-contratada, e pelas câmeras de vigilância, e se apaixona por ela.

Elenco afinadíssimo- nem todos são atores profissionais, que esbanjam sutileza e humor.

Camadulle, de 1,93m, é conhecido no Uruguai por suas “stand up comedies”, e se apresenta em restaurantes e bares de Montevidéu, Uruguai [país que produz dez filmes por ano e cujos lançamentos surpreendem].

A trama- como um sujeito comum, sem charme, infantilizado [joga videogame com o sobrinho], conseguiria conhecer e se aproximar de uma paixão.

Apesar de fã de Motorhead, Metallica e bandas que cultuam o demônio, o cara é do bem. Ingênuo, seu melhor amigo é o sobrinho anos mais novo. Só parte pra violência quando é acuado. Delicado, presenteia a paixão com flores- um cacto.

O filme também ganhou o Urso de Prata em Berlim.

Chama atenção a economia de diálogos. Se cinema é mais imagem que fala, nós, do Brasil, talvez impregnados pela teledramaturgia, ou sob a influência da estética do cinema novo, discursivo e político, ainda não conseguimos nos livrar dos extensos blablablás em nossos roteiros.

Há exceções, como Céu de Suely, Aspirinas e Urubus. E não que o cinema de diálogo seja inferior. No entanto, se a imagem fala por mil palavras, que tal economizá-las.

E, sim, dá pra fazer obra-prima sem grana. Que toca o coração do público. Faz rir e, sobretudo, faz pensar.

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