O livro mais importante da literatura recente

O livro mais importante da literatura recente

Marcelo Rubens Paiva

19 Março 2018 | 11h39

Foto: MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

 

Geovani Martins fala de O Sol na Cabeça hoje em São Paulo.

Já deve ter chegado nos seus ouvidos que é o livro do ano, fenômeno literário, vendido para vários países…

Também você deve ter ouvido falar que se trata de relatos de um escritor que mora numa comunidade da Gávea  e transcreve, em 13 contos, o dia a dia do enfrentamento entre cidadãos comuns, traficantes e polícia, numa cidade refém da violência.

É um pouco de tudo isso e muito mais.

Eu diria que O Sol na Cabeça é o livro mais importante da literatura recente.

Ah, Macerlão, você está tocado pelos últimos acontecimentos, pela morte de Marielle, a intervenção no Rio de Janeiro.

É condescendente com a “literatura de favela”. Autor genial é Dostoiévski, Kafka, Guimarães, Campos de Carvalho, Rubem Fonseca, Foster Wallace…

Esqueça o papo de, ó, o autor ousou, arriscou uma narrativa numa linguagem cheia de gírias e palavras inventadas, que remete a Joyce, Faulkner, e.e.cummings.

Aliás, toda narrativa, qualquer que seja, é por princípio experimental, já que antes dela era o papel (ou a tela) em branco: o nada.

O Sol na Cabeça é fundamental para, sim, entender os acontecimentos recentes. Mudará seu jeito de pensar, sua visão do todo.

Mas se você ficar apenas no primeiro conto, Rolézim, terá uma visão deturpada do conjunto.

O conto é o relato na linguagem do morro de uma ida à praia, vigiada pela polícia, em que pode acontecer de tudo, de arrastão a assaltos menores, em que a tensão social está no limite, e o dia de lazer sob um calor de maçarico pode ter a paz a qualquer momento rompida.

Martins não é bobo. Participou de oficinas e feiras literárias, publicou em revistas, esteve duas vezes na Flip, leu os livros certos.

Rolezim é evidentemente inspirado em Grande Sertão. Lê-se no mesmo ritmo frenético.

Brotam os “rolé”, “tava osso”, “papo reto”, “memeia”, “apertei no talento”, “os menó”, “os comédia”, “xisnovar”.

Polícia é “cana”, “cu azul”, “os verme”.

Mesmo é “mermo”.

Brotam as expressões: “Calote pra nós é lixo, tu tá ligado, o desenrolo é forte”.

Os personagens são Vitim, Poca Telha, apelidos que sugerem como foram dados.

Papel de lanchonete para enrolar baseado é “sedanapo”; o autor ainda elucubra que ficaram todos exigentes, lembrando que antes se fumava um baseado até com papel de pão, mas agora tem que ter vestimenta, “smoking”.

E é então que o talento começa a florescer no segundo conto, Espiral.

Sai a linguagem de morro. O racismo que sofre o morador da favela desemboca numa trama tensa. Aqui, Martins certamente se inspirou em Crime e Castigo, romance que mudou a literatura para sempre, ou Memórias do Subsolo.

Um sujeito comum decide aterrorizar uma vítima escolhida ao acaso. Cansado do olhar atravessado dos moradores do Leblon, passa a segui-los, numa ameaça invisível. Até elaborar um plano.

Martins fala de algo sobre o qual nunca percebemos.

Morar numa favela da zona sul não é privilégio, comparada às da norte e oeste. Talvez seja pior, pois o abismo social é ampliado no maior grau de desigualdade: o metro quadrado mais caro da cidade é vizinho a uma comunidade do morro.

O racismo está no final da ladeira.

A História do Periquito e do Macaco relata a vingança elaborada por Periquito, o melhor atirador da gangue, contra Macaco, policial maldoso que tem humilhado os maconheiros da comunidade.

As invasões, os pipocos, as guerras de facções e as tréguas são parte da rotina.

UPPs só funcionaram nos primeiros dias. Depois, voltou tudo ao normal.

Quer entender o Brasil? Aí está uma chance de praticar o que Nicolau Sevcenko, o maior crítico literário da minha geração, defendeu: literatura é a versão dos vencidos.

O bate-papo com Geovani Martins será mediado por Antônio Prata

É hoje, segunda-feira, 19 de Março, 19h, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura.

PS> Se você tem mobilidade reduzida, ligue ante, pois desde sábado elevador que leva ao teatro está quebrado.