o livro mais aguardado do ano

o livro mais aguardado do ano

Marcelo Rubens Paiva

05 de julho de 2013 | 12h01

 

Caetano Galindo há anos guerreia para traduzir INFINITE JEST, o romance cultuado de David Foster Wallace.

É o livro mais aguardado do ano.

Para quem não aguenta esperar, a LIVRARIA CULTURA vende a edição portuguesa [da editora Quetzal]. De Portugal, pois.

E está em promoção [de R$ 111,60 foi para R$ 79,90].

Para quem é fã do cara, melhor se preparar fisicamente para a empreitada. Pesa.

Para quem prefere a de Galindo, como eu: está prometido para este ano pela Cia. das Letras.

Ele conta que já terminou um primeiro… tratamento [não é o termo utilizado pelos literatos; versão seria melhor].

Faz agora o trabalho de revisão, se afastando do original.

Não conheço um escritor&tradutor que não ame rever, rever e rever seus textos.

E que consiga dizer, categórico, está pronto!

Uma obra não acaba. Terminamos. Decidimos que está pronta. Com o cano do revólver do editor na têmpora. Com a conta bancária sangrando. Com estresse e tendinites. Com o saco na lua. Com outros trabalhos pipocando, seduzindo como o canto da sereia.

Galindo:

Essa tradução, que chegou até a página 981, na minha cabeça é meio que uma primeira etapa, trabalhosa, lenta e dolorosamente necessária. Uma etapa cujo objetivo é produzir um texto completo em português, que me permita agora trabalhar de verdade, naquilo que a gente convenciona chamar de revisão.

Essa revisão, pra mim, é feita idealmente sem maiores contatos com o original. (A primeira versão me possibilita justamente largar mão do original.) É nela que eu vou realmente me concentrar em empetecar o texto, afinar detalhes finos finais, acertar aquelas correspondências diagonais (termos repetidos, leitmotive, chaves espalhadas pelo texto [já falei disso aqui?]) que são às vezes centrais para os romances mais amarradinhos, uniformizar certas decisões (desde Mr. fulano vs. Sr. Fulano até tipo o nome de uma organização importante que eu posso ter traduzido de duas [três!] maneiras diferentes) e tal.

Quanto mais eu fui rigoroso na primeira passada, sem deixar grandes coisas em aberto (eu não costumo deixar de propor soluções na primeira versão), sem inventar distâncias demasiadas, mais eu posso, na segunda, me sentir à vontade para finalmente trabalhar sobre o texto como o texto final, em português, que eu quero entregar ao leitor (ao preparador/revisores/editor, na verdade).

É impossível ter a visão geral do livro na primeira passada, mesmo no caso de um livro que eu já li e reli, como esse. Traduzir é definitivamente a leitura mais funda de um livro e, na melhor das hipóteses, você só traduz um livro deste tamanho uma vez! Logo, aquela primeira passada de certa forma foi também uma primeira leitura.

O nome do livro, que em Portugal saiu INFINITA PIADA, não sei se já foi decidido.

Galindo escreveu:

“Até aqui eu estava traduzindo Infinite Jest. Agora é que eu vou começar a escrever Infinda Graça.”

INFINDA GRAÇA?

Sei não… Pomposo.

Sempre achei que INFINITE JEST deveria sair no Brasil INFINITE JEST.

INFINDA GRAÇA parece livro religioso.

Jest é algo sim como piada, onda, sarro. Graça, do latim “gratia”, tem o sentido duplo: uma gozação, mas também um gozo místico. Sem contar que lembra agradecimento em castelhano e italiano.

Galindo, que mantém uma coluna no site da editora contando, passo a passo, o processo da tradução, escreveu:

Infinite Jest é um romance estranho. Eu estava falando com um aluno ainda essa semana. É um livro que corre muitos riscos. E não só do jeito chique e cômodo de “correr riscos” que é comum às “vanguardas” que contam com aceitação automática das suas panelinhas. Risco MESMO.

De parecer feio.

De parecer velho.

De parecer bobo.

De parecer autoajuda. (Uiuiui)

De ser essas coisas todas ao mesmo tempo em que é novo, lindo, inteligentíssimo e profundo.

Infinite Jest é um livro que leva quase todo leitor que vai até o fim a reconhecer que aprendeu coisas ali, sobre a vida mesmo.

Coisas tipo filosóficas. Autoajúdicas…?

Ele lembra que um blog especialmente dedicado a WALLACE é mantido desde 1997: http://thehowlingfantods.com/dfw/

Blog que anuncia um crowdfunding para produção do filme OBLIVION, baseado na história de Wallace.

Contando os dias…

 

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