O limite e o medo da ficção

O limite e o medo da ficção

Marcelo Rubens Paiva

22 Maio 2018 | 12h26

 

Alertas no início da segunda temporada de 13 Reasons Why levantam questões sobre os limites da arte.

Imagine no começo de Apoclypse Now o ator Martin Sheen avisar que se trata de um filme de ficção que aborda os extremos da loucura (e violência) humana.

E recomendar aos sensíveis ao tema que se retirem do cinema.

Ou Jack Nicholson informar no começo de O Iluminado que, se teu pai anda tenso, estressado, em crise profissional, e vocês forem viajar para um lugar isolado, melhor não ver o filme.

É o que acontece na nova temporada de 13 Reasons Why (Netflix).

No primeiro episódio, os atores da série que aborda bullying numa high school americana, que resulta num suicídio e numa tentativa de, que mexe com toda comunidade, informam que um site está à disposição para quem quiser conversar sobre abusos, estupro e depressão.

Os atores Dylan Minnete, que faz Clay, Katherine Landford, que faz a vítima de abuso e suicida, Hanna, Justin Pretince, que faz o acusado de estupro, Bryce, e Alisha Boe, que faz outra vítima de abuso sexual, Jessica, fazem questão de afirmar que “fazem” o personagem tal.

Didaticamente e pausadamente, explicam que é uma série de ficção, que aborda questões difíceis do mundo real, como uso de drogas, abuso sexual e suicídio.

Esperam que com o programa eles estimulem conversas.

Mas se um espectador está passando por algum desses problemas, talvez não seja uma série apropriada para ele(a).

Ou melhor seria assistir ao lado de um adulto confiável.

Estimulam os que ficaram tocados a conversar com pessoas de confiança.

Aconselham a ligar para um serviço de auxílio da região ou acessar o site 13ReasonsWhy.info.

O mesmo alerta é feito no final de cada episódio.

O que se justifica, pois na solidão do mundo contemporâneo, muitos adolescentes ficaram tocados com a série e poderiam repetir a onda de suicídio em massa, como no caso do livro de Goethe, O Sofrimentos do Jovem Wherter.

 

 

A história de amor entre um jovem que amava uma garota, Charlotte, que foi prometida em casamento para outro, e originou na morte do protagonista, é considerado o abre alas do romantismo e abalou a juventude alemã do século 18.

No site 13ReasonsWhy.info, aparece em letras garrafais: SE VOCÊ PRECISA DE AJUDA, FALE COM ALGUÉM.

Os americanos são orientados a ligar para National Suicide Prevention Lifeline (1-800-273-8255) ou acess//ar http://www.suicidepreventionlifeline.org.

Se estiver no pico de uma crise, aconselham a digitar REASON para o número 741741.

Uma aba indica serviços de apoio de praticamente todos os países, da Espanha à Arábia Saudita.

Aos brasileiros, indica o telefone 188 do nosso conhecido CVV (Centro de Valorização da Vida), ou pelo site cvv.org.br.

Todo cuidado se deve à polêmica levantada na estreia da série em 2017.

Pelas redes sociais, críticos e psiquiatras questionaram se ela não poderia funcionar como um gatilho para quem sofre de depressão ou tem tendências suicidas.

Ao jornal O Globo de março de 2017, Carmita Abdo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), disse: “Não é uma opinião pessoal, e sim um fato: a veiculação ou divulgação de um suicídio pode inspirar pessoas que pensam no assunto. Se, por um lado, estamos nos solidarizando pela Hannah e mostrando os riscos que ela pode sofrer dentro de situações cotidianas, por outro estamos, talvez sem saber, dando munição para muitos indivíduos que sofrem de desequilíbrio mental. Uma saída para a ficção é falar sobre o suicídio como algo que se pode combater, em vez de se afirmar somente que é um evento horrível.”

Por precaução, a produção arregaçou as mangas.