O kassabismo

O kassabismo

Marcelo Rubens Paiva

14 de agosto de 2009 | 12h30

O kassabismo é uma doutrina ideológica muito popular em São Paulo. Fundada em cima dos preceitos de que uma cidade deve ser limpa e respeitar o sono dos seus cidadãos, desenvolveu-se através de teorias que garantem que, se baixar a fiscalização, os problemas se resolvem.

Como todo desenvolvimento prático de uma teoria, o kassabismo necessita de um aparelho repressivo bem organizado, as sub-prefeituras, dividido em grupos táticos, Fiscais do PSIU, Guarda Municipal, que usam de todos os instrumentos para que se cumpram as leis.

Caso tais ações não resultem em resultados efetivos, uma tática mais eficiente é empregada: lacram-se os ambientes dolosos com placas de concreto, os “kassabinhos”.

Alguns feitos do kassabismo são notáveis, como o fechamento de bingos, postos clandestinos e lojas de contrabando, combate a pirataria e puteiros, e o encerramento das atividades de baladas de jovens arruaceiros.

No entanto, o kassabismo está apenas começando. Há muito ainda a ser feito. E para contribuir para o seu desenvolvimento, faço uma lista de sugestões do que falta ser proibido:

1. A chapinha, que gerou um verdadeiro holocausto da minoria cacheada.
2. Shows começarem depois da 1h.
3. Bandanas.
4. Camisas para dentro das calças.
5. Cuecas aparecerem em cinturas masculinas.
6. Celulares em elevadores.
7. Sabiás que cantam antes do sol nascer.
8. Buzinas em motos.
9. Seguranças se despedirem com: “Bom descanso”.
10. Assaltarem a Soninha.
11. Portas giratórias travarem.
12. Leitores que xingam blogueiros.
13. Proibir a proibição de cinzeiros nas calçadas.
14. O trânsito.

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Eu não ia tocar mais no assunto GAMBIARRA, festa que ocorre aos domingos num hotel fechado, no centro de São Paulo. Mas um leitor postou um comentário, exigindo a minha retratação, quanto à repressão que ocorreu no último domingo, criou polêmica e foi o assunto da semana [leia post abaixo para saber dos detalhes]

Reproduzo aqui o texto do(a) leitor(a) ANDREA, que coincide com a nota oficial da prefeitura.

Sobre as acusações infundadas que vocês fazem sobre a ação, este texto esclarece o quão equivocados, ao questionar identificações e mandatos, vocês estavam. Uma operação de fiscalização não precisa disso. Informem-se sobre o assunto, para não falarem levianidades. E, se ainda assim, vocês se sentem injustiçados, sugiro passar na prefeitura e colher informações sobre como proceder de maneira a regularizar os casos em que vocês estão sendo falhos, para que a festa continue, sem problemas: A subprefeitura da Sé enviou uma nota, onde explica que a blitz foi gerada por denúncias dos próprios frequentadores, que reclamaram ao Contru “sobre excesso de lotação e dificuldade para transitar pelo espaço em eventos realizados anteriormente.” Sobre o alvará de funcionamento, a nota explica que o documento “autoriza a realização de eventos, em apenas uma das áreas do local, de 328,69 m², para uma capacidade de 510 pessoas.” Os organizadores da Gambiarra, alegam, no entanto, que a festa nunca tinha sido anteriormente notificada pela Prefeitura. Ainda de acordo com a assessoria da subprefeitura da Sé, o Hotel Cambridge não foi interditado, “fato que caberia ao Contru em razão da capacidade superior a 500 pessoas, se a casa continuasse a funcionar com excesso de lotação.” A subprefeitura conclui a nota dizendo que “não há diferenciação no tratamento entre os estabelecimentos” e que “no mesmo fim de semana, mais de 70 estabelecimentos foram fiscalizados em ações da subprefeitura Sé, algumas delas em conjunto com o Psiu.” Confira abaixo a nota na íntegra: Nota à imprensa Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Coordenação das Subprefeituras Com relação à ação fiscal ocorrida na madrugada desta segunda-feira no Hotel Cambridge (Avenida 9 de Julho, 216), onde ocorria o evento denominado “Gambiarra”, a Subprefeitura Sé esclarece que, a pedido do Contru, foi até o local após receber diversas denúncias, feitas por freqüentadores, sobre excesso de lotação e dificuldade para transitar pelo espaço em eventos realizados anteriormente. A ação teria de acontecer necessariamente no momento da festa para constatar se de fato havia a irregularidade denunciada. Após solicitação pelos agentes da Prefeitura – feita primeiramente do lado externo e depois, com condução pelo proprietário, no escritório da casa, para evitar confusão na entrada -, o responsável pelo estabelecimento apresentou o alvará nº 2009/21195/00, expedido pelo Contru, com validade de 25/05/2009 a 13/10/2009. Este documento autoriza a realização de eventos, em apenas uma das áreas do local, de 328,69 m², para uma capacidade de 510 pessoas. O próprio responsável informou que, naquele momento, a casa contava com a presença de aproximadamente 950 pessoas, o que já caracterizava desrespeito ao estabelecido pelo documento apresentado. Solicitou-se, então, a contagem precisa dos clientes, que foram orientados a deixar a casa. A checagem apontou a presença de 1.693 pessoas, mais de três vezes a capacidade máxima permitida. Não houve interdição do local – fato que caberia ao Contru em razão da capacidade superior a 500 pessoas, se a casa continuasse a funcionar com excesso de lotação. O alvará que a casa possui é claro sobre a permissão para evento em um ambiente que comporte e ofereça segurança a, no máximo, 510 pessoas. Os outros dois ambientes possuem apenas licença de funcionamento para a atividade de exposição de obra de arte e não estão autorizados a realizar eventos como festas. Na prática, constatou-se o uso dos três ambientes interligados. A Prefeitura cumpriu a lei ao realizar fiscalização após recebimento de denúncias. Se houvesse algum incidente no local durante a realização dos eventos aos domingos, a casa não teria condições de proporcionar segurança a todos os presentes. Também não há diferenciação no tratamento entre os estabelecimentos. Tanto que, no mesmo fim de semana, mais de 70 estabelecimentos foram fiscalizados em ações da Subprefeitura Sé, algumas delas em conjunto com o PSIU. Secretaria das Subprefeituras e Subprefeitura Sé.

A nota da prefeitura e o comentário levantam algumas questões:

1. Como se chegou ao número de 1.693 pessoas, se as portas foram abertas pela própria PM, que temia uma tragédia e liberou os participantes, que saíram em massa?

2. Se havia denúncias de superlotação, por que a fiscalização não chegou antes e controlou a entrada? Não seria a melhor forma de evitar “um incidente no local”? Ou aparecer de madrugada com 13 viaturas, lacrar portas, ordenar “ninguém entra e ninguém sai”, desligar o som, obrigar as centenas de pessoas a entrar em filas, para pagarem as suas comendas, é o jeito mais seguro de se fiscalizar?

3. É verdade que, de acordo com denúncias, um dos fiscais era frequentador da festa? E é verdade que, na semana anterior, ele se envolveu numa briga local? E saiu aos berros gritando: “Vou fechar esta po%$a”?

4. É verdade que a mesma equipe esteve na noite anterior na Praça Roosevelt e multou bares com mesas nas calçadas, bares que estão há 20 anos no local?

5. É verdade que no mesmo dia entraram às 2h no ESPAÇO PARLAPATÕES. O chefe fiscalizou o barulho com medições e a presença de fumantes e, como não encontrou nada irregular, ameaçou prender por “desacato à autoridade”, mandou abrir o teatro e o notificou por falta de acesso a cadeirantes, teatro em que não há uma barreira arquitetônica em suas instalações, onde dirigi uma peça e ia quase todas as noites, instalado no espaço para cadeiras de rodas, e de onde, na última quarta, dois cadeirantes, eu e o diretor Maurício Paroni, assistiram ao Curta na Praça instalados comodamente?

6. Aliás, se é para se far algo construtivo, por que não começaram ainda a reforma da PRAÇA ROOSEVELT? O dinheiro já foi há anos liberdado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Esvaziou-se a praça, que virou terra de ninguém e um puxadinho da cracolâncdia. Fecharam o estacionamento dela, o supermercado e até uma crechê.

7. Como andam os projetos que tentam transformar a região num polo de cultura, lazer, negócios, educação e turismo? E os planos de revitalização, como o Procentro, com financiamento de R$ 100,4 milhões do BID?

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Estréia hoje em todo país TEMPOS DE PAZ, filme baseado na obra de Bosco Brasil, NOVAS DIRETRIZES EM TEMPO DE PAZ, que nem é citado na divulgação [que anuncia “um filme de Daniel Filho”].

A obra teatral de Bosco é um marco na dramaturgia brasileira contemporânea. A peça, elogiada e de grande sucesso, começou pequena, com um jeito underground, e chegou ao mainstream, apresentando ao mercado uma nova dramaturgia brasileira, que já vinha sendo feita em locais alternativos.

Talvez seja a peça mais emblemática do renascimento dessa dramaturgia, a comovente história de um fugitivo de guerra que é barrado no porto de Santos.

Quem sabe não inspira todos nós, que precisamos de tempos de paz.

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Ontem, 3 NA MASSA fez um show inesquecível na Rua Augusta [STUDIO SP]com os baderneiros de plantão. Tocou até Barry White. Hoje tem EDDIE. Tocando EDDIE. O que rola de melhor nos palcos das noites paulistanas. Bora, juventude transviadas?

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Hoje tem festa da GAMBIARRA. Mas é na The Week. Comparecer é um ato de resistência. O kassabismo entrará em ação?


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Dias 1 de 2 de setembro, o GAZZIE A DIO, casa de shows da Vila Madalena, celeiro dos novos talentos da MPB, e em que “tudo” começou, comemora dez anos. Com 2 shows da banda cubana BUENA VISTA SOCIAL CLUB.

Presentão pra cidade. Os ingressos já estão disponíveis.

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“Marcelo, sei que você gosta de arte, mas eu gosto mesmo é de mulher”. Frase do meu amigo MARCELO COPPOLA, ainda sóbrio, ontem no Studio SP.

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