O inferno é a comida

O inferno é a comida

Marcelo Rubens Paiva

15 Dezembro 2014 | 11h11

Retro_Breakfast

Você se lembra da dieta do brasileiro médio? Toda errada.

O que comíamos com gosto no café da manhã, almoço, lanche e jantar, foram para o paredão, influenciados que estamos por nosso novo confidente, o nutricionista real (com registro ou amigo do amigo) e digital (o popular e gratuito Dr. Google).

Aquele inocente café com leite (média) e pão com manteiga das manhãs, com um suco de laranja para arrematar, hoje são condenados. Manteiga tem muito colesterol e é proibida para intolerância à lactose. Pão francês tem tem farinha branca e  glúten. Leite quem bebe é bezerro. Suco tem frutose. Uma laranja apenas dá. E devemos chupá-la, não desprezar fibras.

No almoço, o arroz (carboidrato) com feijão (banido por nutricionistas), acompanhado pelo filé (é alcatra?), ovo (colesterol puro!), batata frita (fritura pura!), couve e salada se tornaram uma aberração. Batata, dizem, só tem um efeito no corpo humano: engordar. Até o óleo da salada está diante do pelotão de fuzilamento. Arroz branco? Evite. As sobremesas tradicionais, abacate com açúcar, manga… Condenadas.

Doces caseiros, brigadeiro, quindim, arroz doce, bolinho de chuva, bolinho de fubá. Fora!

Até cenoura e beterraba são barradas: têm açúcar.

Lanche: suco ou refresco com bolacha de água e sal, cuja charada, “vende mais porque é fresquinha ou é fresquinha porque vende mais?”, não conseguíamos desvendar. Banidos. Muita frutose, muita gordura trans.

Groselha na fruta, ninguém ousa. Nem a vitaminada Milani, cujo fabricante, o italiano Celeste Milani, vendeu seu negócio que começou na Mooca em 1955 por R$ 1,00. Devia R$ 25 milhões. Perdeu o lugar na dispensa.

Jantar uma massa, uma sopa (de letrinhas ou minestrone) com pãozinho ou uma pizza com refrigerante é uma heresia.

Não se come carboidrato à noite.

Não se come nada à noite. Não se come.

E viu quanto tem de açúcar e sal num refrigerante?

Cerveja? Tem glúten.

Uisquinho? Glúten.

O ditado “mangia che te fa bene”, que nossas avós de origem italiana nos ensinaram como uma mantra ao redor da mesa, tornou-se uma reza caduca.

E se hoje nos horrorizamos com representações de banquetes em bacanais romanos, em que se comia com a mão, daqui a séculos vão olhar fotos de uma “famiglia” numa feira, comendo pastel de carne com caldo de cana, e se perguntar:

Eram os neandertais?