O homem idiota

O homem idiota

Marcelo Rubens Paiva

15 de março de 2009 | 14h46

Queria pedir desculpas às mulheres pelo idiota que picou uma, colocou os pedaços numa mala, foi preso, condenado, solto duas décadas depois e, em liberdade, picou outra. Riu para as câmeras e foi glamourizado.

Queria pedir desculpas pelo promotor imbecil que matou a mulher grávida, pois acreditava que ela estava esperando um filho do amante, o que foi negado pelo exame de DNA pós-mortem. E está foragido, covarde.

Nos desculpem pelo jornalista e chefe infeliz que, depois de alavancar a carreira da garota e levar um fora, deu dois tiros à queima-roupa na recém-contratada e ex-namorada.

Sem o contar o pai estúpido que, depois de bater na filha, decidiu cortar as redes de proteção, jogar o corpo pela janela e ainda forjar um assalto.

Também nos desculpem pelo cretino que foi o primeiro homem da vida de uma adolescente do ABC, levou o pé e, inconformado, manteve ela e a melhor amiga reféns por cinco dias, até enfiar, numa sexta-feira chuvosa, uma bala na amiga e duas na garota que amava, uma na cabeça e outra no abdômen, depois da polícia invadir.

Incluam o monstro que estuprou a enteada de 9 anos e a engravidou. E o imbecil que prendeu a filha num porão por mais de duas décadas, com quem teve 7 filhos. Aqueles que cortam o clitóris das mulheres da aldeia, para elas não sentirem prazer. Ou os que apedrejam em praça pública as ditas adúlteras. E que obrigam as mulheres a se esconderem em burcas e as proíbem de sair sem seus maridos.

Nos perdoem por aqueles que criminalizam o aborto.

Desculpem-nos pelo cretino que bateu na mulher com um extintor, jogou-a fora do carro, sequestrou a filha e um bimotor, sem nunca ter pilotado um avião de verdade, sobrevoou a cidade perigosamente, inclusive o prédio em que moravam, até cair no estacionamento de um shopping, arriscando levar mais gente com ele.

Perdão pelo ciúme doentio, pela incapacidade de aceitar a perda, pela covardia e narcisismo, por aqueles que não sabem ouvir “não”, pelo onipotente que acredita ser dono de alguém, pela inabilidade de alguns homens de enxergar as vontades da mulher, inclusive o desejo de partir e romper. Nem todos são como eles idiotas.

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