O homem da casa

O homem da casa

Marcelo Rubens Paiva

05 de maio de 2009 | 18h19

O pai viajava muito. Envolvido em política, tinha reuniões em outros estados. Chegou a ficar ausente meses, exilado. E, mesmo quando estava na cidade, quase não parava em casa.
Seu filho nasceu para ser o único homem de uma casa com muitas mulheres. Desde pequeno, fascinava o diverso mundo feminino, rico em detalhes. Sua rotina era invadida por perfumes, nuances, delicadezas e mimos.
A família acordava com o mesmo toque do despertador. Estudavam de manhã. Ele se vestia num minuto. E, como se estivesse na coxia de uma ópera, sentava-se no canto do corredor, para assistir ao corre-corre das quatro irmãs, matriculadas num colégio religioso.
Enquanto o que bastava para ele era um short, uma camiseta com o logo da escola, um par de tênis e uma bola, elas tinham de lidar com um vestido de brim pesado, com torçal, laço e faixa. Uma ajudava a outra a guarnecer e amarrar a cintura.
Usavam meias, roupas de baixo, sem contar a maquiagem, o encaixe de grampos, brincos, pulseiras e anéis, além de adornos com nomes estranhos, como piranha e tiara.
Havia trombadas no corredor. Brigas. Mãos disputavam peças do figurino. Empurra-empurra. Paninhos com água morna e limão limpavam manchas. As quatro transformavam aquela casa numa trincheira sob bombardeio. Ele não perdia um detalhe deste mundo complexo e perturbador.

Às tardes, elas passavam horas no telefone, com pinças, esmaltes e escovas de cabelo, diante de espelhos. Cada uma examinava com cuidado cada centímetro do próprio corpo.
Enquanto ele nem cuidara do joelho ralado na escola, elas pintavam as unhas dos pés e das mãos, raspavam as pernas com a gilete do pai ausente, usavam cremes, pós e batom. Mulheres olham para o mundo através dos espelhos, descobriu.
Secavam o cabelo com um barulhento instrumento- de que ele foi proibido de chegar perto, já que o usou como se fosse um revólver, numa brincadeira de rua.
Enquanto ele apenas chacoalhava a cabeça ao sair do banho, como um cão vira-lata saindo do mar, elas enrolavam com destreza uma toalha na cabeça, antes de usarem o secador. Lembravam as figuras egípcias que ele tinha no livro de História. Uma vez, ele tentou enlaçar a cabeça com uma toalha. Sem sucesso. Só as mulheres conseguem, concluiu.
Dividia o banheiro com as irmãs. A sós, passou esmalte nos dedos. Cheirou cremes. Atacou as formigas da pia com uma pinça em cada mão. E torturou o gato da família: colocou presilhas nas suas orelhas, elásticos no rabo e lixou as suas garras.
Na lixeira, intrigavam os pacotinhos embrulhados por papel higiênico. Ele abriu alguns deles e observou maravilhado o sangue escondido, proibido. Ele sabia que elas não estavam doentes, nem raladas, sim, porque crianças fazem questão de mostrar a todos os ferimentos conquistados.
Ninguém nunca explicou o significado daquele sangue secreto. Ele tinha consciência de que era parte do misterioso mundo feminino.

Lembra-se com exatidão de uma cena que nunca teve coragem de contar. É um segredo muito bem trancado, que o intimida.
Devia ter uns oito anos. Viu pendurados no banheiro da sua mãe uma calcinha e um sutiã. Seus dedos percorreram o tecido delicado. Examinou a intricada armação de alças, presilhas, elásticos e um fecho. Que sofisticada obra de engenharia é o sutiã, pensou. Fez dele um estilingue. Riu. Olhou-se no espelho.
Depois de se certificar de que a porta estava trancada, experimentou por cima da roupa.
Vestiu o sutiã. Percebeu o quanto é inoperante o seu fecho. Sentiu as alças apertarem os ombros, o tecido segurar algo que faltava, a armação dificultar os movimentos dos braços. Depois, vestiu a calcinha. Reparou como o tecido era mais delicado do que o das suas cuecas ásperas, que não tinham rendados.
Olhou-se de novo no espelho e riu. Parecia um palhaço. Fez uma careta.
Qual o significado desse gesto? Vestiu-se para experimentar o que a pessoa que ele mais amava sentia. Viu-se no espelho, para admirar as roupas que tinham a honra de protegê-la.

O pai ficou com receio de o filho ser influenciado e virar um “frouxo”, como se dizia. Tirou-o da escola alternativa do bairro, em que estudavam os filhos dos amigos, e o colocou numa escola pública na Praça da República, centro da cidade; um choque.
O queridinho das mulheres da casa de repente era um anônimo uniformizado, cercado por duas mil crianças que usavam o mesmo terno azul, desconfortável e antiquado. Chorou no primeiro dia. Desesperou-se no segundo. Encontrou uma saída no terceiro: um refúgio que só aumentou a sua admiração pelas mulheres.
Sua avó paterna, animada, carioca de nascimento, morava em frente, na Avenida São Luis. Ele fugiu da escola. Pediu para um pedestre ajudar a atravessar a Ipiranga, e passou a manhã dançando Roberto Carlos com a velhinha de cabelo azul. Pediu para ela pintar o cabelo dele também de azul.
Conheceu os penduricalhos de outra geração, como cintas-ligas e anágua. Brincou com jóias pesadas. Dançou em sapatos altos. Cobriu-se com um casaco de peles e fingiu ser um animal selvagem, atacando a governanta da casa.
A visita virou rotina. Bebia vinho do porto com ela. Dormia no seu colo, que cheirava talco, até a hora de voltar para casa, depois da “aula”.
O pai morreu, quando ele tinha onze anos. Antes, portanto, de saber que, até hoje, quando o filho vê uma mulher diante do espelho, nua, com pinças, cremes, examinando as imperfeições da pele, o dia está ganho. O mundo pára de girar, para ele observar o intricado e belo universo feminino.

Sou eu este garoto.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.