As influências do diretor

As influências do diretor

Marcelo Rubens Paiva

28 de abril de 2009 | 12h02

Tenho que enviar às quartas minha coluna para o Caderno 2, que é publicada sábado sim, sábado não. Terça é o dia em que me fecho, para prepará-la. Às vezes, o tema já está na cabeça há dias. Às vezes, vem na hora.

Luis Fernando Veríssimo me disse, uma vez, que costuma escrever em cima do prazo. Já me aconteceu. Quando morreu o Renato Russo, tive que escrever um texto para a Ilustrada, em que trabalhei 13 anos, antes de vir para o Estadão, em 50 minutos. Chorando, pois soubera da morte do amigo naquele instante.

A ginástica jornalística é uma grande escola para os escritores. Aprende-se a ser conciso, rápido, direto, objetivo. Aprende-se que um texto de 3 páginas pode ser resumido em 2 parágrafos. Aprende-se que é preciso ter algo a dizer. Não que seja sinônimo de boa literatura. Textos imprecisos, longos ou digressivos podem ser lindos.

Na última terça, me deu um branco. Me sentei no computador e fiquei horas olhando a tela sem saber sobre o que escrever. O cronômetro corria. Na quarta, eu não tinha nada. Apenas um prazo para enviar a coluna. Não me vinha nada. Então, decidi escrever sobre como foi dirigir A NOITE MAIS FRIA DO ANO, como você já deve ter percebido aqui, minha nova obsessão.

Foi um texto pessoal, sem censura.

Passeando pela Praça Roosevelt no fim de semana, em que se reúne gente de teatro, vieram me cumprimentar. Pediram para eu postar aqui. Os pães-duros e duros que não compram o jornal. Tudo bem, vai…

A peça termina nesse fim de semana no SESC PAULISTA. Iremos para VITÓRIA 7 e 8 de maio, no Teatro Universitário. Depois, Suzano, na Grande São Paulo, para reestrearmos no ESPAÇO PARLAPATÕES em 9 de junho, para uma temporada de 2 meses.

Herr Direktor

Ela trocou tabefes com o marido e se refugiou na casa do ex, que é louco por ela até hoje. Relembram sua história. Lamentam o presente. Discutem se o amor acaba. Quando o ex vai para a cozinha, ela fica na sala, sentada no sofá, olhado pelo espelhinho as marcas no rosto.
Toca o celular dela no fundo da bolsa. Pode ser o marido desesperado, arrependido ou furioso.
“Não olha para a bolsa. Levanta, vai até a estante, toma uma bebida. Quando parar de tocar, você olha para a bolsa”, eu disse para a atriz Paula Cohen num dos primeiros ensaios de A Noite Mais Fria o Ano.
Não havia planejado aquilo. Assistindo-a, me veio a marca. Claro. A personagem quer evitar aquele celular, quer cortar, pelo menos naquela noite fria, em que revive uma paixão que não se apaga, o contato com o marido atual. Quer adiar a decisão: voltará para casa, perdoará?
Eu dirigia, depois de acompanhar ensaios de muitos textos meus, dirigidos por outros, sem intervir, palpitando pouco, respeitando suas decisões. Agora, eu era o controlador de voo. E toda vez que vejo a personagem aflita, no palco do Sesc Paulista, evitar a bolsa com o celular tocando, penso orgulhoso: sua primeira marca.
Os ensaios duraram três meses. Nas primeiras semanas, lemos o texto numa mesa da sala de estar do apartamento da produtora. Até aí, nenhum mistério; como autor, participei de muitas leituras, regi a dinâmica, expus os conflitos de cada personagem, dei dicas sobre suas intenções.
Então, fomos para uma sala de ensaios da Funarte. Chamei Fernanda D’Umbra para me assistir. Ela ajudou a marcar as primeiras cenas, passou tarefas, cobrou empenho. Mas não pode continuar.
Diante de mim, o novato, quatro atores experientes- dois deles autores-diretores, Mário Bortolotto e Hugo Possolo, premiados, escolado. Alguns já com o texto decorado, outros com ele na mão, esperavam minha regência. Pânico. Será que sou um diretor marronzinho, aquele que indica “entra pela esquerda, vira à direita, em frente, sai”? Por onde começar?
Eu tinha já pensado em algumas soluções. Coreografado nas insônias alguns momentos. Porém, a missão é levantar o espetáculo.
Uma vez, Andréa Beltrão me disse que seu método para construção de personagem é observar anonimamente pessoas nas ruas. Passei dias no metrô, sequestrando manias.


Lhasa de Sela

Dan e Carol se conhecem numa aula de ioga. A atriz já fez ioga. Facilitou. Depois, dançam Lhasa De Sela. Lucy, a amiga que indicou a música, sempre me disse que, se eu a usasse, teria que ser numa peça boa. Será que essa é boa suficiente? Aliás, a única marca que eu tinha era o casal dançando Lhasa. Me lembrei de Pina Bausch e Felipe Hirsh, em que dois casais dançam, em Som e Fúria, Cesaria Évora. Está aí: dirigir é buscar referências. Ou chupar?

Dançavam Lhasa rindo. Não. É a primeira dança de vocês. É a música das suas vidas. Dancem sérios. Sem tirar o olho do outro. Porque está nascendo um amor diferente entre vocês. Daqueles que nunca terminam.
Então, a personagem Carol diz: “Sabe que gosto do seu humor, do seu cheiro, do seu jeito de lavar as mãos, abrir um vinho, me tocar. Me beija.” Beijam-se. Ela continua: “Sabe que gosto do jeito que me olha. Me come!”
Sugeri, na semana da estreia; “Tire ‘sabe que gosto do jeito que me olha’ e vai do ‘me beija’ pra ‘me come’.” Era o diretor negando o autor. Eu mesmo cortando a minha peça, me enxugando. Porque, agora, só raciocinava o diretor. Eu dormia e acordava diretor, num mergulho fascinado, dopado por um soro que gotejava minuto a minuto.
A peça se ergue. Hugo, como Dan, diz algo para Carol e sai andando. A marca me incomodava. Afinal, ele está na sala do seu apê. Parei o ensaio, disse no seu ouvido. “Para onde você está indo?”
“Vim dar um rolê pelo apê”, respondeu o ator-palhaço. Rimos. “Não. Você se senta. Não sai andando pelo apê”, pedi.
A intimidade com o texto facilitava. Testemunhar décadas do fazer teatral ajudava. Toda a minha vida no e com o teatro regurgitou.


Me veio Zé Celso dirigindo meu amigo Otavio Muller num Beckett, pontuando cada fala, criando imagens para o jogo teatral. Lembrei de José Lewgoy, me contando pouco antes de morrer, que Glauber dirigiu Terra em Transe ao lado dos atores, na orelha deles, exigindo o controle de músculos, indicando cada expressão. Lembrei de um ensaio em que vi de Gerald Thomas dirigir Bete Coelho, pedindo para ela entrar mancando. No dia da estreia, virei para o Hugo e disse: “Entra mancando.” O personagem cresceu como um trem chegando na estação.
O personagem Renato (Alex Gruli) aponta a arma para Caio (Bortolotto), que gritava: “Me mata, cara. Se você tem amor por você mesmo, me mata. Vai! É fácil!” Do nada, sugeri para não gritar, e sim falar com toda a tristeza que vive. Alguém que quer morrer sofre.
Renato fica atrás de Mário, sentado num banco de praia. Sente ódio. Pedi: “Faz uma massagem nele.” Anos de massagens recebidas favoreceram a composição. Ao ter a arma apontada contra sua cabeça, Renato se apavora. “Chora, grita”, pedi. Diferentemente do outro, Renato quer viver.
“Eu estava com saudades de você”, diz Carol, aliviada por poder desabafar com o ex. “Vai até ele engatinhando. Todo homem sonha em ver a mulher que foi embora engatinhar e dizer que estava com saudades”, pedi. Agora, era eu, o homem já abandonado, que se vingava através de uma marca. Para isso serve o teatro?

Ao final, Dan sente raiva. “Joga o banco contra a parede”, determinei. Alguém comentou que quebraria o banco. “Se quebrar, melhor”, respondi. E me veio a última cena de No Retrovisor, minha peça dirigida por Mauro Mendonça Filho, em que os personagens destruíam o cenário num acesso de fúria, desespero e anarquia, obrigando os remendos com fita crepe para a próxima sessão. O banco não quebrou ainda.
Jogo com o elenco. Caio dança uma música que toca no radinho do quiosque. “Quando danço, veem me acudir, acham que estou sendo atacado por vespas. Sou muito travado, não tenho ritmo”, diz. Pedi para o Bortolotto escolher a música da sua dança. Escolheu um Dr. Hook que marcou a sua adolescência. Dança com alma.
Se é boa a peça, Lucy? Não tenho ideia. Bom foi fazê-la. É bom fazer algo em que se acredita e desopila.

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