O diferente

O diferente

Marcelo Rubens Paiva

07 de maio de 2009 | 13h37

O filme começa com um longo plano sequência numa praia sem fim. Trazem um sujeito amarrado e vendado. Deitam na areia. Ao fundo, há uma imagem não nítida. Parece uma criança brincando. Ela aos poucos se aproxima. Revela-se que é um anão. Ele vê o sujeito, corre em direção dele e brinca ao redor, cutuca-o, provoca. O sujeito se desespera, se contorce.

Ele tem nanofobia. É um caso comum. Conheço duas pessoas que tem.

Assim começa FILMEFOBIA, documentário fictício que causa repulsa na maior parte do público, mas que nos leva a refletir sobre os limites do medo, a linguagem do cinema, o processo de criação e a onda atual dos realities que humilham as pessoas, exploram até não poderem mais os recursos disponíveis, para causar impacto.

FILMEFOBIA é um filme intrigante, horripilante. Fui desaconselhado pelo bilheteiro do cinema a assisti-lo. Vi o público sair da sessão anterior reclamando. Ouvi a frase: “Que filme xarope!” Pensei: oba, vou gostar.

Não sei se é a idade, mas ultimamente tenho gostado apenas de filmes xaropes, músicas xaropes, peças e livros xaropes, esdrúxulos, incoerentes, exagerados, sem pé nem cabeça. Me atraem agora as baladas esquisitas, as mulheres de nariz grande, pernas finas e tatuadas, cabelos malucos e roupas que não combinam.

Tem um momento da vida que cansa a plasticidade estética do mundo. Na arte, depois de assistir a milhares de obras, queremos o surpreendente e inesperado. Já conhecemos todos os truques da boa condução, do roteiro encaminhado, da representação previsível. Queremos cores berrantes, não combinantes. Queremos a tela fora de foco. Será que estou maluco?

A harmonia enjoa. No meu Ipod só tocam Herp Albery & Tijuana Brass, Man Man, Nelson Ned e Antônio Marcos [dramáticos…], Paul Anka, Skatalities…

No cinema, pulo a comediazinha romântica e encaro FILMEFOBIA, filme que se perde no meio, esquece a que veio, corrompe o cinema, abusa da apelação [chega a mostrar o aflitivo tratamento no olho de Jean-Claude Bernardet, que atua no filme como o diretor].

Exibe as contradições do documentário, que quer humilhar as pessoas [todas autorizaram a experiência] e mistura atores com fóbicos de verdade: aracnofobia, fobia de avião, de ralo, de pênis, de cobras, de agulhas [essa eu também tenho], de sangue, de pombos.

O mais surpreendente é um sujeito num armário com fobia de botões. Além de arrancar a dentes todos os botões da roupa, é atacado por eles. Como somos loucos todos! Eu me encaixo. O que o mundo contemporâneo tem feito conosco?

Um cineasta que acompanho maravilhado e vejo diversas vezes seus filmes é o diretor, roteirista e produtor russo Alexander Sokurov.

Fez uma trilogia sobre os personagens que marcaram um século, ditadores e seres supremos: Molloch, sobre Hitler, Taurus, sobre Lênin, e O Sol, sobre o Hiroito. Anunciou que faria um filme sobre Mao. Nada ainda.

Em Mulloch, traça o retrato de um Hitler misterioso, sombreado, sexualmente perturbado, no seu castelo nas montanhas da Bavária, reproduzindo sintomas da sua loucura. Taurus tinha um Lenin debilitado (teve esclerose), confinado numa dasha, paranóico.

Sem contar ARCA RUSSA, filme de um plano só, que se passa no MUSEU HERMITAGE e conta a história da Rússia em série.

Agora, ele volta a retratar o russo comum, ALEXANDRA, uma avó que visita o neto capitão num acampamento do Exército da Rússia em Grozny, durante a ocupação da Tchetchênia.

É um filme de guerra sem tiros. Ao contrário, mostra carinho entre os soldados, meninos quase crianças, e a solidariedade até entre inimigos; ela visita as mães e avós dos soldados combatentes, que a ajudam a fazer compras, não cobram e ainda a ensinam o atalho para voltar ao acampamento.

Me parece que a Rússia sente falta da velha Mãe Rússia.

Soldados abandonados num calor incomum lutam por algo que nem sabem ao certo. Uma avó lhes dá carinho, conversa, compra cigarros e reclama que a vida sem ninguém não faz sentido.

É um contraponto ao individualismo que contamina os dias atuais. É uma forma de ressaltar que sem utopia e coletivismo, estamos perdidos.

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