O caso e ocaso de Regina Duarte

Marcelo Rubens Paiva

08 de maio de 2020 | 11h01

O barraco de Regina Duarte ao vivo na CNN resume o caos do governo ...

Há uns anos, lá por 2005, fui vê-la no palco do Teatro Cultura Artística.

Era um monólogo, Coração Bazar. Eu pesquisava para encontrar uma atriz do seu perfil. E nunca tinha a visto no palco. Ela, que começou com meu mestre Antunes Filho.

Ela era o ícone da minha infância, quando eu e 100% víamos suas novelas, a “namoradinha do Brasil”, maior estrela e salário da TV brasileira sem concorrência de canais pagos, steamings, internet, celulares, redes sociais…

O Brasil parava para ver os melodramas dela. Foi mais que par romântico de Tarciso Meire, Francisco Cuoco, Antonio Fagundes.

Era a estrela dos mega sucessos Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Sétimo Sentido, em que fazia dois papeis, as irmãs gêmeas e opostas, Luana e Priscila, a boa e a má, numa linguagem maniqueísta.

Foi protagonista em Roque Santeiro e Rainha da Sucata. No fim da ditadura, revelou uma nova mulher, que lutava contra a sociedade patriarcal e conquistava seu espaço: a batalhadora Malu Mulher.

Regina era um patrimônio brasileiro, como a bandeira, a Seleção de 1970, o hino.

Veio a trilogia das Helenas em obras de Manoel Carlos, já mais madura.

E veio o ocaso.

Montou Coração Bazar, peça para que a própria escolheu textos de Drummond, Ferreira Gullar, Cecília Meirelles, Millôr, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, João Silvério Trevisan, Vinicius de Moraes, Ivan Ângelo, Paulo Leminsky, e da própria, algo confuso, atrapalhado, sem linha narrativa.

Podia exibir seu talento do drama ao cômico. Mas não tinha um eixo.

Mesmo assim, o espetáculo lotava e ganhou temporada popular em outro maior.

Ao final, as pessoas gritavam: “Volta, volta!”. Mas ela estava no palco nos agradecimentos, recebendo flores, não tinha saído. Foi então que saquei. Pediam nostalgicamente que voltasse à TV, às novelas, ao que consideravam bons tempos.

Regina Duarte representa a nostalgia bolsonarista.

Seu sucesso foi na ditadura. No seu tempo, não se contestava. A TV aberta era uma só e sólida. E a linguagem, clara: havia o bem e o mal. Nada de pensamento dialético.

Se ela chocou, como secretária da Cultura, ao cantar na CNN BRASIL a música ícone da ditadura, dizer nas entrelinhas que aquele tempo era bom, e desdenhar mortes sob tortura, “sempre houve tortura”, revelou, na verdade, uma melancólica saudade do tempo em que reinava.

Deu pena. Tem gente que envelhece mal.

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