O Brasil e a corrupção

O Brasil e a corrupção

Marcelo Rubens Paiva

21 de novembro de 2014 | 21h16

corruption

 

O Brasil está diante de um enigma: não se faz obra sem caixinha?

A relação cidadão e Estado quase sempre passa pela corrupção.

Ou o Estado é grande demais, ou o cidadão pequeno demais.

Provavelmente os 2.

Tal desequilíbrio de forças gera a caixinha.

Como escreveu ontem Veríssimo no ESTADÃO, a primeira palavra em português dita por um índio a Cabral, que explicava o que veio fazer numa terra tão distante e que já tinha dono, foi, com a mão estendida: “Molha”.

A frase do ano coube ao advogado de defesa do lobista Fernando Baiano.

Disse nessa quarta-feira, Mario Oliveira Filho, diante de de jornalistas perplexos pela sinceridade: “O empresário, se porventura faz alguma composição ilícita com político para pagar alguma coisa, se ele não fizer isso não tem obra. Pode pegar qualquer empreiterinha e prefeitura do interior do país. Se não fizer acerto, não coloca um paralelepípedo no chão.”

Hoje ele não quis comentar o comentário.

Sim, todos sabem.

E até quando o Brasil aguentará tamanha fraude, que já dura mais de 500 anos?

O empresário e autor, intelectual, RICARDO SEMLER, empresário, sócio da Semco Partners, professor visitante da Harvard e MIT, tucano assumido, escreveu hoje na FOLHA um tratado sobre o tema, que pode servir de exemplo a outros empresários e a nós.

Algo de que poucos discordarão:

“Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito. Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.”

SEMLER vai além. Diz que o fenômeno não para na Petrobras, que há outras estatais com esqueletos parecidos no armário, e que a corrupção também passa pela empresa privada:

“O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras. A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas.”

Por fim, dá uma dura geral, com a qual concordo:

“Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor? Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido. O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.”

Vamos fazer história e mudar de vez.

Vamos começar hoje: aumentar o tamanho e a importância do cidadão.