O bom cinema brasileiro

O bom cinema brasileiro

Marcelo Rubens Paiva

20 de setembro de 2017 | 12h34

 

Setembro tem sido um mês generoso para o cinema brasileiro.

Polícia Federal – A Lei é para Todos?

A bilheteria está bem abaixo do que se esperava; maniqueísmo (partidarismo) no cinema nunca deu certo.

Tem o simpático e muito bem produzido, porém um pouo americanizado, Lino – Uma Aventura de Sete Vidas.

Mas dois filmes dão mostras de como a qualidade do cinema nacional atingiu o degrau que se espera de uma indústria que lança 140 produções/ano: Como Nossos Pais e Bingo – O rei das Manhãs.

Ambos da mesma produtora, Gullane, escritos pelo mesmo roteirista, Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças, Elis).

Laís Bodansky, idealizadora e diretora de Como Nossos Pais, escreveu com ele.

Ambos têm trilhas deslumbrantes, dos meus parceiros de aberturas Rio 2016, Antônio Pinto e Beto Villares.

Ambos têm a mão de Oscar Nominees da trupe de Cidade de Deus, Pinto e Daniel Rezende.

Rezende, montador dos melhores filmes brasileiros, de Tropa de Elite 1, 2 a Cidade de Deus, até Árvore da Vida, está prontinho como diretor.

Ambos têm uma dupla de protagonistas espetacular.

Maria Ribeiro e Paulinho Vilhena (incluindo o surpreendente mentor Jorge Mautner e a maravilhosa Clarisse Abujamra) fazem de Como Nossos Pais um filme grandioso.

Vladimir Brichta e Leandra Leal (com Emanuelle Araújo arrasando como Gretchen) dão show em Bingo.

Brichta, que surgiu em A Máquina, inesquecível peça de João Falcão, com Wagner Moura, Lázaro Ramos, há muito merecia um papel que o levasse ao pódio dos grandes nomes da sua geração.

São filmes contemporâneos, com direção intensa, caprichada, de timing perfeito (cinema é timing, já diz minha amiga estudiosa Anna Muylaert, de Que Horas Ela Volta?).

Bingo é mais popular.

Os efeitos, os voos da câmera, o “corta para o musical” são espetaculares.

Sua dramaturgia por vezes segue um ritmo televisivo; um paradoxo, já que critica justamente o padrão obsessivo de escravizar a audiência e criar com um olho no Ibope.

Tem vilão. Filme não precisa ter vilão. Filme não deve ter vilão. Chega de cinema com vilão!

Aliás, os vilões são protagonistas agora. Ou melhor, as contradições e loucuras de um protagonista, do herói, é o fio-condutor das tramas atuais.

Outra. O conflito universalizado entre pai & filho, a atriz esquecida, o ator injustiçado, em Bingo, pega no grande público. Mas são conflitos batidos?

Como Nosso Pais é de uma inteligência surpreendente.

Se um grande conflito aparece nos dez ou 20 minutos de filme, segundo os manuais, Laís começa seu filme com o conflito principal nos primeiros minutos.

Pontos de virada vão se sucedendo, 15 minutos, 30 minutos, meio do filme.

Surpresas emergem. A trama muda de rumo.

O que parece uma história simples, se revela de uma complexidade vertical.

E Maria Ribeiro… Sou suspeito. Uma atriz que não representa apenas, reinterpreta, reescreve, co-dirige, tem um furacão dentro de si, vive a história como se fosse dela!

Já a dirigi para o teatro. E a cada ensaio meu amor por ela crescia.

Vá vê-los.

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