O banho

O banho

Marcelo Rubens Paiva

24 de agosto de 2009 | 12h20

Renata andava radiante. Em seu primeiro casamento. Amava e amava acima de tudo.

Sua casa era sua casinha. Passava mais tempo nela do que ele. E arrumava os livros e CDs. Trocou a capa do sofá, reconfigurou o computador, separou roupas novas, doou as velhas, acendia incenso todas as tardes, fazia a feira, flores e frutas [cores e cheiros], pendurou quadros, um porta-retratos com fotos dele e amigos, dela e amigos, trocou a cortina do banheiro, ficou amiga dos porteiros, dos vizinhos, íntima do padeiro, arrumou o fogão, comprou uma geladeira nova, uma adega, trocou luminárias e o sorriso: todas as noites, ela o esperava ansiosa e apaixonada.

Ele era mais velho, no terceiro casamento, trabalhava muito, até à madrugada, não ligava para flores e frutas, mal ligava o computador, não entendia de cozinha, de amigos, de luminárias, de cheiros, de cortes. Tocava a vida alucinadamente, cheio de planos, projetos, propostas. E andava radiante: tinha Renata com ele, linda, lindinha, feliz, apoiando, aliada, torcendo, amada.

Mas no amor não há lógica. O amor não se explica, não é previsível, não é fácil, nem transparente, não se conhece. Surpreende, é reescrito todos os dias, tem atalhos e abismos, vem com o medo, com ternura, com receio e tonturas.

Renata dormia certa noite quando ele chegou tarde, como sempre. Renata acordou sorrindo, como sempre. Ofereceu um chá, como sempre. Ele não a beijou, como antes. Nem sorriu, como sempre sorria.

Entrou no banheiro e tomou um banho, como nunca. Renata sentiu uma tesoura cortando a linha da rotina. Ele nunca tomou banho antes de se deitar, nunca entrou no banheiro assim que chegou, nunca deixou de me beijar. Por que quer se lavar? De que sujeira quer se livrar?

Encostou-o na parede. Fez as perguntas de praxe, utilizando armas que só as mulheres conhecem: “Não gagueje, está escrito na sua testa. Por que você não olha nos meus olhos?”.

Ele se distanciou dos fatos, afirmou que seu banho era apenas um banho, e Renata, a mulher da sua vida.

Tudo mudou. Ela abriu os olhos. Seus sentidos se apuraram. Desconfiou de cada gesto, palavra, olhar, história, hábito. Foi à luta, defender o seu: descobrir a verdade.

Ela xeretou sua agenda, ligou para aqueles números dispersos e sem nome, inventou desculpas, investigou onde ele trabalhava, com quem e como. Procurou cheiros forasteiros, faturas de cartão. Até encontrar o que queria. Ele tinha outra. Com quem passava às madrugadas.

Renata pirou. Largou o que estava fazendo, saiu andando pela cidade e só parou quando se perguntou por quê. E repetia sem parar: É injusto, é injusto. Não voltou mais. Nunca mais. Nem olhou para trás.

E só voltou a sorrir quando se lembrou: Quem mandou tomar um banho na hora errada?

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