O Argentino, o corintiano, o russo

O Argentino, o corintiano, o russo

Marcelo Rubens Paiva

30 de março de 2009 | 12h14

A primeira parte do filme CHE, O Argentino, de Steven Soderbergh, estreou neste fim de semana. Era a única sala lotada na última sessão de domingo do complexo de 9 cinemas. Por garotos que não sabem a diferença entre stalinismo e leninismo, cinéfilos e curiosos.

Che é uma figura que mobiliza ainda hoje. Suas contradições- o médico motoqueiro e aventureiro que participa de uma revolução em outro país, a doçura em conflito com a autoridade de quem liderou pelotões de fuzilamentos- seduz. A busca por uma utopia aparentemente impossível é um contraste aos ideais de hoje.

Abria-se mão de tudo, corriam risco de vida, embrenhavam-se numa mata fechada, insalubre, para lutar pelo conjunto, pelo que acreditavam ser o melhor para o indivíduo e pelo que supunham chamar-se liberdade.

Eu esperava ver um filme que celebrasse o mito, como o adolescente e piegas Diários de Motocicleta, especialmente depois de ler a crítica da Veja, “Só o mito, e nada do homem”. Não é bem assim…

Soberbergh fragiliza o personagem na primeira cena, em que o Comandante tem um ataque de asma numa incursão pela floresta. Pontua o treinamento na serra e as primeiras reuniões no México com Fidel com a visita aos Estados Unidos anos depois já como o todo poderoso ministro da economia de Cuba, em que dá entrevistas polêmicas e faz na ONU o famoso discurso anti-imperialista, em que defende o fuzilamento de adversários, afirmando que sua revolução era movida pela luta até a morte.

O filme é baseado no diário de Guevara e em fatos conhecidos da luta. Esta primeira parte termina quando ele está para entrar em Havana, em 2 de maio de 1959. Não mostra os acordos rompidos com os movimentos civis que apoiaram e financiaram a revolução.

Mostra a luta na mata e nas cidades. A doutrinação de novos guerrilheiros. A expulsão de “covardes” e o justiçamento de traidores.

Termina ironicamente com Che pedindo a uns guerrilheiros, que roubaram o carro de um capitalista, que devolvessem o veículo. Como se sabe, a revolução desapropriou quase tudo, mas deixou os carros para seus verdadeiros donos, que tratam deles até hoje como se fossem verdadeiras jóias herdadas.

Veremos se a segunda parte ilustra os fracassos do projeto revolucionário. Mas note bem um detalhe. Saiba que ali se inventou a guerra de guerrilha, o foquismo, os manuais. Tudo era inédito e inspirador. Não plantaram drogas nem sequestraram civis. Não criaram apenas uma revolução, mas um jeito de fazê-la. É um ótimo filme. Até então. Que fala de uma revolução vitoriosa.

Não é um documentário da direitista FOX. E é um filme escrito por um cubano exilado em Nova York.

Nesta semana, dia 1, tem uma cabine para a imprensa e uma coletiva do documentário FIEL, de que sou roteirista com Sérgio Groisman, dirigido por Andrea Pasquim, sobre a queda e a ressurreição do Corinthians. Quem narra é o torcedor, que fala desta paixão pelo time que é profunda e inexplicável. Não se luta por um ideal, mas pela vitória no esporte mais popular do mundo.

Segunda-feira, dia 6, haverá uma pré-estreia para convidados no Unibanco Arteplex. Dia 10/04, estará nos cinemas. É um filme feito com carinho e capricho. Eu sou suspeito, mas recomendo.

***

Morreu hoje Maurice Jarre, compositor da trilha de Doutor Jivado, épico de David Lean sobre a revolução russa, produzido em plena guerra fria, mas que não levantava questões morais, e ficou para a história do cinema como um dos maiores filmes de todos os tempos.

Jarre compôs o notório Tema de Lara e para outros filmes de Lean, como Lawrence da Arábia, diretor que faz falta e fazia cinema para eternizá-lo.

No meu último livro, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, eu o homenageio.

O primeiro filme de que me lembro: Doutor Jivago. Me fascinaram a paisagem das estepes nevadas e a música. Não entendi a trama, que se passa durante a Revolução Russa. Mas entendi muito bem o triângulo amoroso entre o médico Yuri, que tinha uma mulher morena, Tonya, e uma amante loira, Lara, uma mais gostosa que a outra (Geraldine Chaplin e Julie Christie). Corrigindo: a segunda era mais gostosa que a primeira, já que fazia a amante safada, enquanto a primeira representava a esposa contida e controladora, apaixonada e chata.
Duas mulheres a escolher, a maternal ou a carnal, a sábia ou a libidinosa. Dilema masculino eterno.

Entrevistei Geraldine Chaplin para um frila para uma revista de cinema. Nem lembrei de que ela tinha sido uma das musas da minha infância. Bebemos uísque num jantar no Jockey Club, em que se anunciou uma parceria cinematográfica.
A noite virou balada.
Ela, muito bêbada, dançou desajeitadamente e foi uma das últimas a sair.
Comum demais, para uma semideusa.
Por isso, jornalistas são céticos: vêem mitos sem máscaras, descobrem que imortais bebem, borram a maquiagem, dão em cima, vomitam, desabam em bancos de táxis e dormem sós. Como qualquer um.
Como sei?
Eu a coloquei no táxi, levei até o luxuoso hotel, pensei, até, em aceitar o convite e subir para a suíte, para um último drinque, “the last one”, como ela disse, enrolando a língua. Pensei em subir e ter uma noite com a atriz do filme que vi com mamãe na grande tela do Astor. Pensei em ser seu Yuri, médico poeta moscovita, levar minha Tonya nos braços, antes que os bolcheviques tomassem a cidade.
Mas ela estava tão bêbada. E eu era um jornalista que ainda não me aproveitava das fraquezas das fontes.
Nem para ficar com a musa da infância. Se bem que, se fosse a outra, Julie Christie, a loira gostosa, a amante Lara, a resolução teria sido a “the last one”.

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