O aprimoramento da democracia

Marcelo Rubens Paiva

06 de março de 2019 | 10h25

O movimento Coletes Amarelos começou por conta do aumento de impostos dobre o diesel.

Porém, a pauta de reivindicações baseada na perda do poder de compra dos mais pobres se ampliou: demissão imediata do presidente Emmanuel Macron, mudança do regime político e democracia direta, com Referendos de Iniciativa do Cidadão (RIC).

O discurso de ódio contra a política desconectada da realidade, o xingamento desmedido e inédito numa sociedade que prioriza e curte o debate, a violência nas ruas de pequenos grupos que se aproveitaram dos protestos, o ativismo de cidadãos sem vínculo político ou “associativo”, surpreenderam a população.

No entanto, 66% dos franceses defendiam o movimento. Em novembro de 2018, 42% apoiavam, 24% tinham simpatia.

Tudo começou com o vídeo da hipnoterapeuta Jacline Mouraud, que viralizou no Youtube.

Criticou Macron com seu didatismo e voz calma pela carga alta de impostos e queda do poder de compra e salário: “Para aonde vai a França?!”

Jacline atravessou a fronteira da rede social, foi a debates na televisão, deu entrevistas e suspeita-se de que é candidata a algum cargo no próximo pleito.

O presidente é considerado arrogante, amigo da elite, banqueiros, e errou feio ao declarar com seu pensamento liberal que quem “quiser trabalho é só atravessar a rua”.

Nas ruas, o movimento começou em 17 de novembro e não foi organizado por nenhum partido político, associação, sindicado.

Milhares de pessoas nas redes sociais organizando protestos em amarelo te lembra alguma coisa?

Sim.

Porém, o viés ideológico é difícil de detectar. Não é contra a esquerda.

O antigo partido Front National (FN), de extrema-direita, atual RN (Rassemblement National), que defende endurecer contra imigrantes, apoia o movimento, assim como o grupo de esquerda-radical, La France Insoumise (LFI).

Por não ter liderança, há todo tipo de reivindicação.

Outra liderança é o caminhoneiro Éric Drouet. Como Priscillia Ludosky, empreendedora.

Um dos mais ativos é Maxime Nicolle, que usa o Facebook: um típico agitador e distribuidor de fake news detonando a imigração, que espalhou que o Pacto Global Pela Imigração conspira para acabar com a soberania nacional (versão francesa de Cabo Daciolo).

Os estudantes, ativos em maio de 68, juntaram-se ao movimento, mas não com a mesma mobilização de 51 anos atrás.

Os protestos aos sábados ocupam as rotatórias das grandes cidades e travam o trânsito. Depois, marcham juntos.

Macron respondeu com um grande debate nacional, do qual os franceses podem participar e dar a opinião, em encontros transmitidos pela televisão.

Na pesquisa de 25 de fevereiro de 2019, 55% querem o fim do movimento, que já passa dos três meses.

Dificilmente Macron sai do poder, cuja popularidade aumentou depois do início das manifestações. No entanto, é bem provável que envie ao Congresso um projeto lei que torne possível os referendos, RICs.

E o que sair dos debates, promete, resultará numa proposta de reforma do Estado.

Há semelhanças entre a experiência dos amarelos daqui e de lá: ambos questionam o sistema político em vigência.

Mas tem diferenças fundamentais.

Alguns dos daqui tinham a ilusão de que a retirada da presidenta, ou da esquerda, era suficiente. Outros, que a democracia precisava de intervenção militar.

Lá, preferem aprimorá-la.

(colaboração do mestre francês em ciência política, Patrick Trazzi)

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