o anti darwinismo cultural

o anti darwinismo cultural

Marcelo Rubens Paiva

13 Julho 2012 | 12h47

Falem bem ou mal, uma coisa se deve destacar: E AÍ, COMEU? é um filme que pensou no mercado, fez estratégias de lançamento [estreou em shopping populares], calculou a data, priorizou o cinema em bairros mais populares, pensa sem medo de ser feliz em atingir milhões, comemora os números.

E com a grana ganha a CASÉ FILMES, do nosso incansável produtor, já está pronto para outros filmes.

Foi assim com MUITA CALMA NESSA HORA, depois com CILADA.COM e agora com E AÍ, COMEU?

A grana de um alavanca a produção do próximo.

Até NO RETROVISOR, outro roteiro baseado em outra peça minha, entrou na fila.

Foi assim que BABENCO organizou sua carreira [LÚCIO FLÁVIO, PIXOTE, BEIJO DA MULHER ARANHA…].  E conta divertido que o pessoal da antiga EMBRAFIME tomava um susto quando ele ia a Brasília devolver o dinheiro “emprestado” pela estatal.

Tudo isso causa ojeriza em parte do mercado, que acha que devemos pegar a grana do imposto alheio, porque o Estado NOS DEVE isso [deve nos sustentar, intelectuais iluminados com o dom divido e bons contatos, que temos muito a dizer, coisas incríveis para mostrar e ensinar], para lançar obras que estão pagas antes da abertura da bilheteria.

Confesso que em 30 anos de carreira me acontecem os 2 fenômenos: viver da bilheteria ou do patrocinador/apoiador.

Sim, atiro a primeira pedra: fiz obras que sem a grana do fisco não saía do papel.

Sou 1 dos pretensiosos que se beneficiam da fraqueza do dinheiro público e do Estado ausente e sugam as tetas da isenção.

E fico doente ao pensar se é justo o que faço com o miserável povo brasileiro, pegar dinheiro da sua escola pra montar peças de teatro sobre minhas neuroses pessoais. Só eu tenho essas crises?

Juro que preferia que existisse apenas a a primeira opção: vivermos da bilheteria.

Impossível.

O artista brasileiro se acomodou. O público passou a ser a última preocupação. “Ah, tem o público? Tinha pensado em fazer um espetáculo sem ele, utilizando a plateia vazia numa cena.”

É a síndrome da Vertigem que mata pouco a pouco o bom teatro e cinema comerciais.

O bom contato na diretoria de marketing cultural de uma empresa pública ou estatal é a prioridade. Ele nos dará a grana para mostrarmos nosso talento. Nosso aliado. Que pena, mas dou mais valor a suas opiniões do que às do público. Está certo isso?

Vivemos no Brasil do anti darwinismo cultural. Não sobrevivem os melhores, os predadores competentes e mais adaptados ao ambiente, mas os com bons contatos e conhecedores da burocracia de edital.

Curiosamente, a peça E AÍ, COMEU? de 1999, não tinha patrocínio. Entrou em cartaz graças a uma grana emprestada em banco.

Era assim que se fazia teatro. FELIZ ANO VELHO, peça de 1983, também foi com grana emprestada.

Tais peças ficaram anos em cartaz, viajaram o Brasil e foram pro exterior. Sem patrocínio. A grana da bilheteria nos sustentava. Grana que pegávamos aos domingos, in cash, e saímos para jantar, pagando com notas de dez. Nem restaurantes nos davam permutas.

O mesmo aconteceu com a peça NO RETROVISOR. Estreamos sem patrocínio. Sabíamos que a obra era boa e sobreviveria sem subsídio. Mas por pouco tempo. Logo precisamos de cias aéreas para circular. De uma grana aqui e ali. Só a bilheteria não pagava mais as despesas.

Hoje, muitas peças têm mais patrocinadores e apoiadores do que gente na plateia.

Sim, o Estado, as grandes corporações, os bancos DEVEM patrocinar cultura num País que quer crescer, educar, já que a falência acadêmica e nas escolas é epidêmica.

Minha dúvida é se subsidiar, ou melhor, financiar TODO MERCADO CULTURAL não o afasta do público [o produtor indireto e maior interessado].

Uma coisa me surpreende com o filme E AÍ, COMEU?

O público aumenta.

Estava acostumado com aquele cinema brasileiro que pede aos amigos para indicarem, que xingam exibidores e distribuidores que o tiram em poucas semanas, para colocar uma superprodução gringa, podre, vendida, fruto da nossa dominação.

Mas recebo relatórios e converso com bilheteiros quando vou ver outros filmes e noto que E AÍ, COMEU? está em cartaz.

Um deles me disse, envergonhado: “Eu estava ao lado da gerente e não podia rir muito, mas é aquele filme que fala de coisas que a gente só diz entre amigos. Eles nos dedam…”

Ri deste último comentário, pois era um dos slogans pensados na pré-produção, que acabou na gaveta.

Muitos adolescentes veem o filme. Não era assim com a peça.

O colunista do GLOBO, Matheus Souza, defendeu o filme.

Para o colunista, chega a ser irresponsável desaconselhar o público a assistir ao longa.

Escreveu:

O filme é repleto de méritos que me fizeram defendê-lo em discussões de bar ao longo do final de semana. Alguns dos pontos que levantei entre um chope e outro:

1 – Há um esforço claro para se fazer um bom filme. Isso já é de se aplaudir quando o assunto é a comédia nacional no cinema. A estética não é televisiva, assim como o timing das piadas. Não se trata de um episódio alongado de série, nem de um filme-família com gags físicas super batidas. Entre erros e acertos, “E aí, comeu?” se arrisca apesar de ser um produto com objetivos comerciais, o que é louvável. Afinal, é de se admirar a possibilidade de um filme tão focado em diálogos resultar em boa bilheteria.

2 – Amigos falando besteira enquanto tomam chopes em um boteco é um tema tão brasileiro quanto os índios de “Xingu”, as favelas de “Tropa de Elite” e o futebol de “Heleno”. E o mais original, tendo em vista a cinematografia recente do país. Já estava mais do que na hora de abordar esse universo, em uma sacada semelhante à da trupe de Judd Apatow retratando o universo masculino americano.

3 – O roteiro é de um dos melhores escritores brasileiros vivos, o incrível Marcelo Rubens Paiva. Enquanto 70% da produção cinematográfica brasileira sofre com diálogos irreais e mal escritos, aqui a naturalidade é o diferencial.

4 – O filme tem pelo menos três momentos brilhantes. Murilo Benício e Seu Jorge roubam a cena e fazem valer o ingresso.

5 – Podem acusar que as personagens femininas são pouco elaboradas mas, mesmo assim, são muito bem defendidas pelas atrizes que as representam. Dira Paes é do tipo que poderia ler um texto de “Malhação” e te convencer que é de Shakespeare.

6 – Todo tipo de evolução é válida e deve ser reconhecida. “E aí, comeu?” é significativamente melhor que “Cilada.com”. Em tudo. Aliás, é bem diferente. Se você detesta o filme anterior da trupe do Mazzeo, não necessariamente irá desgostar desse, largue o preconceito de lado. Até porque o próprio Bruno, ao se desgrudar das neuroses excessivas que o tornaram famoso, acaba interpretando o mais simpático e engraçado do trio principal. A cena dele na casa de sua pretendente menor de idade e seu monólogo sobre o motivo pelo qual mulheres casadas arrumam casos extraconjugais me arrancaram risadas sinceras.

7 – Para concluir, vale ressaltar que criar campanhas contra o filme e criticá-lo de modo grosseiro não vai fazer com que no lugar dele sejam produzidos longas autorais de boa qualidade que passarão assim a receber mais atenção. O circuito brasileiro não é um conto de fadas. Se esse filme naufragar nas bilheterias a conclusão dos produtores será: “não vale a pena apostar em comédias fora do molde televisivo” ou “não vale a pena fazer comédias adultas, vamos investir apenas no que toda a família pode entender” ou ainda “bons diálogos

Não preciso dizer que até a família paga pau pra mim, o incrível, depois de ler isso.

Moral aqui em casa tá alto.

Vá ver e depois me conta.