O amor sem metáforas

O amor sem metáforas

Marcelo Rubens Paiva

15 Julho 2015 | 12h43

serenata1

 

Mulheres procuram homens, que procuram mulheres, que procuram outras mulheres.

Tantos se procuram.

Muitos, pela vida toda.

Alguns, em bares, festas e afins.

Agora, pelos aplicativos.

No passado recente, anunciavam em classificados de revistas e jornais.

O amor ideal podia estar escondido em anúncios que continham perfil resumido e exigências.

E clichês.

Procura-se a cara metade. A alma gêmea. A face da outra moeda. Procuro alguém sem vícios. Existe alguém sem vícios?

Alguns tinham as especificações de um consumidor exigente: “Procuro homem, entre 37 e 43 anos, moreno, 80 quilos, altura 1,80 m, olhos castanhos claros, que não beba, fume, que goste de viajar, saiba inglês, espanhol, tenha estabilidade financeira, more perto do metrô, prefira vinho tinto ao branco, sem filhos, para viver um grande amor”.

Os anúncios tinham códigos.

Não diziam “nada de negros ou mulatos”, mas “quero alguém de ascendência europeia”.

Não diziam “quero uma transa casual”, mas “estou aberta a aventuras”.

Ninguém era um canhão, por isso encalhei, mas “loira, olhos verdes, boca carnuda, seios grandes, bumbum avantajado”.

Ninguém era “gordinho, fora de forma, desculpe aí, exagerei neste inverno”, mas “meus amigos vivem dizendo que sou gostoso”.

Hoje, Tinder e outros aplicativos acabaram com as metáforas, as entrelinhas, a ilusão.

As fotos mostram logo: sou assim, like or not?

Match?

Bora lá?

Quer saber mais: são 5 fotos ao todo, mais acesso ao meu perfil do Face, com currículo, descrições, desejos, sonhos, gostos e até minha agenda de amigos.

Tem que mostrar o corpo todo, para evitar mal-entendidos.

Foto em praia é bem-vinda.

O relógio corre, as opções são milhares, que podem aumentar, se o usuário aumentar seu raio de ação.

O amor não necessita mais de metáforas, nem de serenatas ou poesia.

O sexo então…