O alienado

O alienado

Marcelo Rubens Paiva

12 de novembro de 2009 | 12h20

Uma pequena nota na última página do caderno Metrópole, todo dedicado ao apagão, do ESTADÃO de hoje, passa desapercebida, mas tem tanto a dizer…

RIO – MUITOS BOATOS E POUCAS OCORRÊNCIAS, DIZ A POLÍCIA

“Apesar dos boatos, o Rio de Janeiro não registrou nenhuma ocorrência grave durante o apagão.”

A nota nega que tenham ocorrido arrastões.

Destoa do tom da imprensa no dia anterior, que anunciou violência, caos, desespero, pânico. Por que então não se faz um balanço do que realmente aconteceu?

Quando escrevi ontem aqui que vi a cidade calma, uma leitora, Helena, me chamou de romântico:

Nossa, que legal né…? o caos não te atingiu, nenhum assalto, nenhum pânico, nem aparelhos domésticos queimados, nem dormiu no terminal de ônibus pq era o único lugar iluminado e não tinha transporta.. nada! nadinha! Rodinhas na rua, gente cantando a luz de velas, café em família… que lindo sua visão do caos.. Puxa… eita mundinho bão sem portera, né?

E repetiu:

que legal, né? não viu assalto, gente dormindo em terminal de ônibus, preso em elevador, vendo o Zé Mayer na tv… nada disso aconteceu, né? Só gente confraternizando na rua, a luz de velas e café da manha em familia. Isso seria pura alienação ou o sempre outro jeito de contar a história do escritor. Puxa…

Pensei com minha barba branca: será que sou assim romântico e tenho uma visão platônica da vida? Por que nada me assusta?

Rodei a cidade durante o apagão. Às 23h e à 1h30. Me surpreendeu a ordem. Até brinquei com a minha editora Isa: “Garanto que a bandidagem deve estar também morrendo de medo e, como nós, só pensa em chegar em casa o mais rápido possível.”

A pequena nota me confirmou. Sim, pessoas ficaram presas no elevador, ou, pior, no metrô. Não tinha transporte. Talvez alguém tenha sido assaltado. Mas nada comparado ao alarme propagado por aqueles viciados na adrenalina do CAOS.

Afinal, a luz acabou por 4 horas. Na minha infância, no Rio de Janeiro, a luz acabava dia sim, dia não.

Me lembrei do dia em que o PCC parou a cidade. Uma amiga, ROSANA, estava aos berros no telefone comigo: “Explodiram Congonhas!” Fonte? O marido dela. Enquanto berrava, eu via pela janela os aviões sobrevoando a USP, a zona oeste, o bairro em “procedimento de pouso”, cena que me é familiar há anos. Esses caras vão pousar na Marginal, pensei.

Aliás, nesta noite, saí pela cidade deserta para jantar com a ROBERTINHA. Só encontrei um restaurante aberto, o GERO. Jantei tranquilamente. O BONI estava lá. Soube que o Mário Bortolotto também rodava a cidade com a Fernanda D’Umbra, com fome. Parece que encontraram algo no centro. Se eu soubesse, ia jantar com eles e andar pelas ruas…

Durante o apagão, ouvi 3 explicações, todas de “fontes seguras”

1. Atentado terrorista contra a visita do premier de Israel. Uma bomba em Itaipu. A fonte era um Promotor da justiça. Logo de cara, neguei o boato: Mas o presidente do Irã vem agora. De quem seria a bomba, dos israelenses ou dos antissemitas?

2. Para pressionar o Brasil, devido ao preço que paga pela energia, o Paraguai desligou Itaipu. Pera lá, contestei. É Furnas que controla a barragem, não o Paraguai.

3. A culpa é dos hackers.

Se tivesse um palmeirense na roda, diria que é da arbitragem.

Eu que dormi todo torto no sofá da minha irmã, com a cachorra dela me lambendo, imaginei que as 4 horas de blecaute renderão 4 meses de debates na imprensa, acusações, lulistas versus oposição, gráficos, especialistas, técnicos. Que tédio…

Uma repórter afoita, ao ouvir um técnico do Ministério de Minas e Energia explicar que era melhor o sistema desligar tudo do que acontecer como no blecaute de Nova York, que demorou 3 dias para a luz voltar e explodiu algumas retransmissoras, interrompeu: “Mas Nova York é uma cidade! O Brasil é um país”. Ouviu a resposta, que até eu sabia. “O blecaute de Nova York atingiu toda a Costa Leste, com mais consumidores do que o Brasil.”

Repórteres despreparados atropelam informações, confundem o telespectador, agenciam o terror e o caos. Alimentam a histeria.

Desliguei a TV ontem quando começou o Jornal Nacional. Meu amigo Maurício, que me visitava, ficou indignado. “Pô, hoje vai ser quente o JN”. Falei: “Cara, vamos beber um uísque, a gente volta a ligar a TV no jogo do Palmeiras, para checar se a arbitragem está sim do nosso lado.

É, cara leitora Helena. Seus comentários me fizeram pensar. Não sou um alienado. Sou um jornalista cético, que conhece um pouco do fazer notícia e não aguenta mais a histeria coletiva e, sim, procura ter uma visão romântica da vida… Prefiro a literatura ao teleprompter.

E dessa vez a arbitragem errou para o Palmeiras, você viu?

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