nobel brasileiro

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Marcelo Rubens Paiva

01 de agosto de 2011 | 11h57

 

 

Quando o longa argentino O Segredo dos Seus Olhos ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 2010, escrevi aqui um post idiota que los hermanos conquistaram dois Oscars (A História Oficial, em 1985) e um Nobel (Pérez Esquivel), mas que nós, brasileiros, faturamos mais Grammy e Copas do Mundo.

Comentário de um invejoso que não aceita como um país de um PIB cinco vezes menor consegue premiações de maior visibilidade.

Fui prontamente corrigido por um leitor.

Na verdade, além de Esquivel, eles ganharam mais quatro:

1. Bernardo Houssay, Nobel de Medicina por seus trabalhos sobre as causas da diabete.

2. Luis Leloir, Nobel de Química por pesquisar a fabricação de hidratos de carbono.

3. César Milstein, Nobel de Medicina pela elaboração artificial de anticorpos.

4. Saavedra Lamas, Nobel da Paz ao mediar a Guerra do Chaço.

Além disso, 3 escritores de países vizinhos, Pablo Neruda, Garcia Marquez e Vargas Llosa, ganharam Nobel de Literatura.

João Cabral de Melo Neto foi um candidato forte. Assim como Carlos Dummond.

Guimarães Rosa, coitado, foi pessimamente traduzido; tirando a edição alemã. Se o leram, leram mal.

Oswald e Mário de Andrade mereciam reconhecimento.

Como os fundadores da poesia concreta, os irmão Campos e Décio Pignatari. Herméticos demais?

E quem garante que os versos de Vinícius e Jobim, músicas que mais recolhem direitos autorais do mundo, não são comparáveis aos de um épico narrativo?

A barreira da língua era uma desculpa muito utilizada, até Saramago ganhar o seu.

Mas não se mede a inteligência de um povo pelos prêmios conquistados. Nosso autor mais popular, Paulo Coelho, não tem o perfil de um Prêmio Nobel. Muito exotérico, palatável e comercial para a Academia Sueca.

Chico Buarque poderia ganhar um. Por seus belos olhos e por ser o coroa mais enxuto da humanidade. Mas nem ele sabe se na sua carteira de trabalho vem preenchido “escritor” ou “músico”.

No país de Carmem Miranda e balangandãs, tivemos algumas pérolas garimpadas do fundo do poço, como Carlos Gomes e Villa-Lobos.

Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha são dois arquitetos reconhecidos e aclamados. O segundo ganhou o Prêmio Pritzker, criado pela Fundação Hyatt, considerado o Nobel da Arquitetura.

Sebastião Salgado é um artista renomado.

Como foram Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Lasar Segal e, atualmente, Romero Brito e Vitor Meireles.

Hélio Oiticica e Flávio de Carvalho eram dois provocadores que não conseguiram penetração na lógica viking.

Mas o que estou escrevendo?

Não existe Nobel de Artes Plásticas.

Como não existe de Mulher Mais Bonita, Piloto de Fórmula 1 Mais Carismático. O Nobel de Melhor Boleiro, bem, os argentinos contestariam, mas seria nosso sem sombra de dúvidas.

A cirurgia plástica sempre foi considerada uma prática fútil, apesar de o maior legado de Ivo Pitangui ter sido a cirurgia reparadora e de queimaduras.

Santos Dumont teve sua invenção contestada por dois irmãos que consertavam bicicletas e saíram voando graças a uma catapulta. Mas parece que, enquanto o “nosso” avião subiu alguns centímetros, o dos gringos deu rasantes, piruetas, voou em círculo, deixando Paris atônita.

Até hoje é controversa a paternidade da aviação.

Os irmãos Villas-Bôas, com imperdível exposição no SESC-POMPÉIA, organizada pela produtora O2, inovaram, ousaram, reescreveram a antropologia, mereciam crédito.

Ou Mãe Menininha.

Mas se apoiaram em cultos reservados ao inconsciente coletivo que não se enquadram na alta cultura do racionalismo anglo-saxão.

Talvez o Nobel não tenha importância alguma.

Nem reflita o nosso índice de educação, que deixa a desejar- a USP foi colocada na faixa do 400º lugar num ranking de melhores universidades do planeta.

Ou nós, brasileiros, que somos incompreendidos pela investigação racional dominante.

Do Oscar, chegamos perto. Glauber Rocha era muito inovador.

Aliás, ele sempre desprezou o cinema norte-americano.

Apesar de convidado para dirigir em Hollywood, preferiu passar uma temporada em Cuba e filmar na África (O Leão de Sete Cabeças).

Cidade de Deus, com quatro indicações, perdeu para mais um drama sobre o holocausto.

E Babenco chutou na trave. Seria interessante ele ganhar, e termos de disputar a nacionalidade do mérito com nossos vizinhos, onde o cineasta nasceu.

Tudo bem, podem nos desprezar.

Mas o Prêmio de Melhor Acarajé, Tutu de Feijão, Peixe na Telha, Arroz Tropeiro, Buchada de Bode, Tacacá são nossos.

Biscoito Globo ganharia fácil a categoria doce e salgado.

E o pastel de feira não tem concorrência na gastronomia mundial.

 

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O neurocientista brasileiro Michel Nicolelis arregimenta torcida para ganhar um Nobel.

Seus trabalhos lembram pesquisas do auge da Guerra Fria: mover objetos com o poder da mente. Não se trata de mais um Uri Geller a entortar talheres.

Ele recebe verbas da agência militar americana DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency).

Em 2008, conseguiu que o cérebro de um macaco na Universidade de Duke movesse as pernas de um robô em Kyoto via internet.

Para Nicolelis, entramos numa era em que as mentes serão conectadas a computadores.

E tem proferido que o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014 seja dado por um tetraplégico, uma jogada de marketing que demonstraria ao mundo que o Brasil “é capaz de grandes e inesperadas coisas no campo da ciência”.

Seu ousado projeto Walk Again (Voltar a Andar) desenvolve um “exoesqueleto” movido por motores hidráulicos e sinais do cérebro.

O problema é saber se um tetraplégico prefere andar neste traje robótico ou numa famigerada cadeira de rodas.

No passado, a medicina costumava enfiar paralisados em estruturas metálicas, as chamadas botas ortopédicas, com dobras e fechos, para que deficientes pudessem “voltar a andar”.

Acontece que o trambolho feria as juntas do corpo e era difícil de “vestir”.

No mais, as muletas deslocavam os ombros. Nenhum paraplégico queria andar naquilo. Preferiam uma compacta, ágil e universal cadeira de rodas.

O mesmo pode ocorrer com o traje robótico.

Ou ele virá com uma equipe para, todas as manhãs, acoplá-lo no corpo do tetraplégico?

O projeto Walk Again serve aos olhos de quem não aceita a diferença e deseja reabilitar o deficiente sem considerar a praticidade.

Belo marketing.

Mas pouco funcional.

 

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Detalhe do projeto WALK AGAIN: quanto custará ao deficiente o traje?

O grande inventor DEAN KAMEN se dedicou anos a um projeto que parecia ser a solução definitiva para a mobilidade dos cadeirantes.

Depois de inventar aquela geringonça, THE THING, ou SEGWAY, que seguranças da FAAP e policiais usam, ele criou para a Johnson & Johnson uma cadeira de rodas, I-BOT, que sobe escadas.

O problema que ela custava de 30 a 40 mil dólares.

Custava, pois pararam de fabricá-la, já que havia pouca procura, deixando o mercado perplexo.

Não conheço 1 deficiente que não queria tê-la.

Mas só conheço 1 que tinha grana para comprá-la, PEDRO MOREIRA SALLES, do ITAÚ-UNIBANCO.

Não basta ter boas ideias.

É preciso pen$ar no mercado.

 

 

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