Ninguém confia em ninguém

Ninguém confia em ninguém

Marcelo Rubens Paiva

13 de março de 2019 | 12h03

Detalhes da investigação de quase um ano do caso Marielle-Anderson revelam uma faceta triste do brasileiro: ninguém confia em ninguém.

Na cronologia do caso, a desconfiança entre as próprias autoridades é evidente. Depois da morte em 14 de março de 2018, começou a disputa entre PM, Polícia Civil, Polícia Federal do Rio e de Brasília e o Ministério Público de Brasília e do Rio, envolvendo Gaeco, DH e Draco.

As milícias, poder paralelo que ocupa mais de 80 comunidades cariocas, foram apontadas como as principais suspeitas. Especialmente porque a vereadora do PSOL, metralhada por uma HK MP5 9 milímetros, as denunciava.

Seus membros foram homenageados em eventos oficiais do Legislativo por ninguém menos que o filho do atual presidente, Flávio, que empregava seus parentes. Em que há deputados e vereadores suspeitos de terem sido financiados por elas, elevando o domínio territorial ao eleitoral.

O delegado Giniton Lages, da DH (Delegacia de Homicídios), foi incumbido de elucidar o caso de duplo homicídio, inquérito 901-00385/2018.

Suspeitou-se de policiais do 41º Batalhão, em Acari, chamado dias antes por Marielle de “Batalhão da Morte”.

Estranhou-se o comportamento de PMs do 4º Batalhão de São Cristóvão, que mandaram possíveis testemunhas se afastarem do local, assim que chegaram na cena do crime em 14 de março.

Um dia depois, reuniram-se o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, o general do Exército Walter Souza Braga Netto, interventor do Estado, e o procurador-geral de Justiça no Rio, José Eduardo Gussem.

Por não confiarem nas autoridades locais, pretendiam federalizar a investigação. Anunciou-se a apuração paralela do Ministério Público Federal (MPF) de Brasília.

O Superior Tribunal de Justiça pediu o envolvimento também da Polícia Federal e do MPF do Rio.

Na Superintendência da PF do Rio, três delegados federais, Hélio Khristian Cunha de Almeida, denunciado duas vezes por extorsão, Lorenzo Martins Pompílio da Hora e Felício Laterça apresentaram o sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira como testemunha surpresa, que acusava o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando de Curicica, miliciano já preso.

Tudo mentira, afirmou Giniton.

Curicica prestou um depoimento sigiloso à procuradora Caroline Maciel, em Mossoró, para onde foi transferido. Surgiu o nome Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel de milicianos que cobram até R$ 1 milhão por encomenda.

Ele disse que a Polícia Civil, incluindo a cúpula, não investigava o Escritório do Crime, porque recebia propinas do jogo do bicho. Raquel Dodge foi informada.

O major Ronald Paulo Alves Pereira foi apontado como um dos líderes do Escritório do Crime, junto com o ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega. Ambos foram homenageados na Assembleia Legislativa do Rio com menções honrosas pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Num texto primoroso de Alan de Abreu, jornalista autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, para a nova edição da revista piauí, conhece-se a cronologia do abafa: o procurador-geral Gussem pediu que o Conselho Nacional do Ministério Público suspendesse a apuração dos federais.

Dodge afastou os procuradores federais, mas manteve os estaduais.

Curicica continuou acusando: “O que tenho a dizer, ninguém gostaria de ouvir: existe no Rio hoje um batalhão de assassinos agindo por dinheiro, a maioria oriunda da contravenção. A DH e o chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, sabem quem são, mas recebem dinheiro de contraventores para não tocar ou direcionar as investigações, criando assim uma rede de proteção para que a contravenção mate quem quiser. Diga, nos últimos anos, qual caso de homicídio teve como alvo de investigação algum contraventor?”

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou novamente a abertura de inquérito na Polícia Federal.

Era agora a PF de Brasília (sete delegados) apurando a Polícia Civil, longe, claro, da Superintendência da PF carioca, a dos três policiais que apresentaram a falsa testemunha.

O MP estadual do Rio trocou o promotor do caso, Freitas Filho.

O procurador-geral nomeou a promotora Letícia Emile Alqueres Petriz, que, surpresa, afastou-se da DH e pediu ajuda ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), grupo do próprio MP.

A promotora Simone Sibilio do Nascimento, ex-PM e delegada, passou a auxiliar Letícia.

Em janeiro de 2019, elas recorreram à Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas), não à DH, para cumprir mandados de prisão.

Por fim, chegaram nos suspeitos o ex-sargento Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz.

Lessa é próximo da família Bolsonaro; vizinho a um terreno do presidente na Barra da Tijuca. O Jornal Valor diz que sua filha namorou um filho de Bolsonaro, informação passada pelo delegado Giniton Lages.

Imediatamente, apareceu o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, declarando que a Polícia Federal não vai admitir “tentativas de obstrução” às investigações relacionadas ao assassinato de Marielle e Anderson.

Qual PF, a da Superintendência carioca ou a de Brasília?

Alguém questionou? Por que anunciar o que deveria ser óbvio?

Por que correram para informar que foi “um crime de ódio” por motivo “torpe”.

Não se fala em encomenda?

E por que o governador carioca, Witzel, afastou o delegado do caso, Giniton, alegando acúmulo de funções?

Como confiar em alguém?

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