nas livrarias

nas livrarias

Marcelo Rubens Paiva

07 de maio de 2011 | 14h47

Seleção feita pela professora Regina Zilberman, da UFRGS.

Com esta foto estilo Joy Division de Flávio Colker.

Ideia da nossa editora que não para, Isa Pessoa [EDITORA OBJETIVA].

Que bolou esta coleção, PARA LER NA ESCOLA, que faz um enorme sucesso nas escolas.

Já saiu as coletâneas de João Cabral, João Ubaldo, Cony e Loyola Brandão.

E, claro, do Veríssimo, cuja edição vendeu mais que 1,5 milhão e, como eu já disse aqui, surpreendentemente se transformou no seu livro mais vendido.

O meu abre com uma crônica de 2005.

Reproduzida abaixo.

ps> A segunda parte da crônica é meu bônus, não está publicana.

Desculpe, morri

“Boa-noite, é… Marcelo?”

“Quem é?”

“É você?”

“Quem está falando?”

“Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu… “

“Quer falar com quem?”

“Com você mesmo, Cariri.”

“Cariri?”

“Não era o teu apelido em Santos?”

“Como você sabe?”

“Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?”

“Olha, o que você quer?”

“Sou estudante de jornalismo e estou fazendo um trabalho.”

“Como você descolou o meu telefone?”

“Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão… Como vão as coisas?”

“Indo.”

“O seu Corinthians, hein?”

“Meu e de muito gente.”

“E a Ana?”

“Ana?”

“A do livro.”

“Que livro?”

“Como ‘que livro’? O seu livro!”

“Qual deles?”

“Tem mais que um?”

“Tem alguns.”

“Caramba! Estou falando do primeiro. Tinha a Ana, que namorava você na época da ditadura.”

“Ah. Não se chamava Ana. Nunca mais vi.”

“Puxa, mas vocês eram tão…”

“Ligados? Mas isso faz tempo, era ditadura ainda. Éramos adolescentes.”

“E a galera toda”

“Qual?”

“A do livro?”

“Sei lá. Faz 25 anos isso.”

“A Bianca, a Gorda?”

“Cara, estes nomes são inventados. Cada um foi para o seu lado. O mundo gira, a caravana passa.”

“Que caravana?”

“Deixa pra lá.”

“Pô, você é doidão, mesmo. Quanto tempo você levou pra escrever?”

“O quê?”

“Como o quê? O Feliz Ano Passado?”

“Ah… Levei um ano.”

“Pô, e você ficou uma fera com aquela enfermeira. Meu, rolei de rir naquela parte. Marcelão, que figura. A gente tem que se conhecer, cara, temos muitas coisas em comum.”

“Sério?”

“Com certeza, pô, posso falar? Este livro marcou uma época, tá ligado? Tipo assim, marcou uma geração, certo?”

“Ouvi dizer.”

“Então, como vão as coisas?”

“Indo.”

“Pô, conta mais.”

“É que estou jantando.”

“Ah… Olha só. Eu preciso te entrevistar, cara. Pro meu trabalho de TCC, tá ligado? Trabalho de Conclusão de Curso.”

“Tô ligado.”

“Aí, vamos marcar?”

“Cara, não fica chateado, mas é a quinta pessoa que liga nessa semana pedindo, e não vai dar. Fim de ano, é sempre assim, um monte de estudantes liga, e tenho minha rotina, eu trabalho muito, não é pessoal, vê se me entende.”

“Ah, não vai dizer que vai regular?”

“Cara, é muita gente, não dá pra atender todos…”

“São só umas 25 perguntinhas.”

“Só?”

“Sobre a sua carreira, seus livros, as influências, a ditadura, o seu pai, tortura, desaparecidos, esses lances, a condição dos deficientes, os jovens no mundo de hoje, a diferença entre os jovens da sua época e os de agora, fala do Renato Russo, você era amigo dele, não era? Será só imaginação, me amarro, cara, será que vamos conseguir vencer, será que é tudo isso em vão, você conheceu o Cazuza? Como era, tipo assim, o ambiente naquela época das passeatas dos estudantes? Nós vimos o filme do Cazuza e debatemos na escola a aids e os anos 80, cara, aí, você fala da importância dos livros para os jovens, de como fazer os jovens lerem mais, compara a geração cara-pintada com a da antiglobalização, Fórum Social, falta bandeiras, certo? O Protocolo de Kioto tá aí! Viu os furacões? Os americanos têm que assinar, tá ligado? Pô, deu na seca aqui da Amazônia. Posso mandar as perguntas por e-mail, a gente fala dessa crise aí do PT, você tá acompanhando, não tá? Você ainda é curte política? Mó decepção…”

“Cara, não vai dar.”

“Pô, Cariri, você me pareceu um cara legal pelos seus livros.”

“Olha, quando eu estudava, fiz um trabalho enorme sobre lógica aristotélica. Aí, liguei pra Grécia, pra falar com o Aristóteles? Não. Tive que me virar.”

“Que que tem a ver, cara?! Tu é doidão mesmo, aí, ó! Tu fala grego, maluco?!”

“Fiz um trabalho sobre Kafka na escola. Nunca pensei em ligar pra casa dele em Praga.”

“Por que não?”

“Porque ele morreu em 1924! O Machado de Assis também morreu. Ninguém na escola ligaria pra casa dele na hora do almoço ou jantar pra perguntar se Capitu era fiel ou não!”

“Calma aí, meu. Nem tinha telefone naquela época.”

“Olha, vai à sua biblioteca ou use a internet. Não precisa entrevistar o autor para fazer trabalhos. Descobre você.”

“Quer dizer que depois da fama tu ficou convencido. Desculpe aí, cara, foi mal. Nunca mais leio um livro seu. Aí, ó, sabe quem morreu pra você? Eu. Tá se achando, Cariri?!”

*

Minha mãe, na adolescência, de uniforme do Sion, costumava esbarrar com alguns modernistas, especialmente Oswald de Andrade, na Leiteria Americana, café amargamente falido em frente ao Teatro Municipal. Ela me contou, quando me viu lendo Memórias Sentimentais de João Miramar. Perguntei se ela não falou com ele, não pediu autógrafo, não perguntou coisas. Ela disse que jamais atrapalharia a refeição de um pensador. Sua educação me privou de herdar um autógrafo ilustre.

Madrugada, Leblon, Rio de Janeiro. Um fã vê o arredio escritor Rubem Fonseca, de Feliz Ano Novo, passar com um boné enterrado na cabeça, em uma de suas caminhadas “anônimas”. Aproxima-se e pergunta se ele é Rubem Fonseca. O escritor responde: “Depende.”

O dramaturgo e diretor de redação da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, lembra um episódio que ocorreu em 1977 na USP, quando ele era estudante ainda. Durante um congresso da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), venceu a timidez e abordou o autor de Dois Perdidos Numa Noite Suja, perguntando: “Plínio Marcos?” Ele respondeu: “O tempo todo.” O próprio Otavio costuma dar uma reposta inusitada, quando perguntamos “Como vai?” Ele diz: “Sobrevivendo.”

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