não temos nada a dizer?

não temos nada a dizer?

Marcelo Rubens Paiva

02 de setembro de 2012 | 13h42

 

Hoje tem NEWSROOM, série da HBO que procura entender a ruptura do sistema político americano, sua polarização, a ascensão do Tea Party, os tentáculos do conservadorismo, a crise da mídia e seu papel, a busca pelo jornalismo ideal, sem papas na língua mas com responsabilidade.

Usa fatos reais para pontuar seus episódios e rediscutir o país.

Amanhã tem VEEP, comédia que explora os ridículos do Poder, as tramoias da Casa Branca, através de um grupo que cerca a vice-presidente e não tem relevância alguma, anseia apenas a morte do presidente, que nem aparece na série e nem lhe dá atenção.

Usa as grandes questões ambientais de hoje para provocar o telespectador.

Todas entraram no lugar de MADMEN, série ambientada na maré alta dos anos 1960, que aborda debates como racismo, emancipação feminina, lealdade no trabalho, ética capitalista, solidão, mostrando que avançaram pouco em décadas, que muita coisa mudou, mas parece que muitos dos nossos pais e avós estão ainda entre nós.

Usa o debate dos direitos civis para rasgar o contrato social americano e mostrar que os conflitos estão adormecidos e merecem vigilância.

Vi na série HOMELAND o debate sobre intolerância, fundamentalismo religioso, dúvidas quanto a doutrina que se aprende, a possibilidade de um branco, fuzileiro americano, ver o mundo com outros olhos, aprender na prática e passar a respeitar o inimigo e seus preceitos religiosos.

O papel da Igreja e os conflitos entre o que é dito e ensinado e o que se quer doutrinar estão na essência da série OS BORGIAS.

O nascimento da democracia, suas contradições, as imposições a fogo e ferro do conceito de liberdade estavam na série JOHN ADAMS.

Ter algo a dizer é fundamental para o sucesso e eternização de uma obra.

Os caras sabem fazer isso há décadas e cada vez aprimoram.

Tento ver as séries brasileiras da HBO. MANDRAKE, FILHOS DO CARNAVAL, ALICE, PREAMAR, FDP. Tento ver e gostar. Torcer por elas.

Há muita vontade de acertar, talento por trás das câmeras, elencos sensacionais, belas fotografias, trilhas; o que temos de melhor.

Parece tudo aristotelicamente correto. As cenas têm ligas, começo, meio e fim, são bem amarradas.

Porém…

O que querem dizer?

Queremos apenas entreter?

Ou não temos nada a dizer?

E pensar que a TV brasileira começou muito bem, com DIAS GOMES, VIANINHA, BRAULIO PEDROSO, CASSIANO GABUS MENDES… Comunistas de carteirinha.

Tá faltando um pouco de CPC na TV brasileira.

Ou continuaremos com uma leitura superficial de Macunaíma e, ai que preguiça, refletiremos apenas as mazelas do nosso caráter?

Tudo bem, o desencanto com a política do telespectador brasileiro e dos agentes culturais é enorme.

Então por isso mesmo vamos falar dela.

O CINEMA NOVO fez isso, Meirelles com CIDADE DE DEUS fez isso, Padilha e seus dois TROPA DE ELITE, idem, Jorge Amado em toda sua obra, idem, assim como MACHADO, LIMA BARRETO, OSWALD e MARIO DE ANDRADE…

O filme brasileiro mais premiado, O PAGADOR DE PROMESSA, também.

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