não tá fácil pra ninguém

não tá fácil pra ninguém

Marcelo Rubens Paiva

25 de março de 2013 | 11h21

 

As mulheres descobrem cedo que nós, homens, somos bobos. O que não sabem é que nossa bobeira começa aos 14 de idade, quando, devido a um desequilíbrio hormonal e certamente seguindo todos os versículos da teoria da evolução, ficamos assombrados por uma ideia fixa, antes secundária: desvendar as mulheres.

Antes, as ignoramos.

A não ser aquela que joga um bolão, bate com as duas pernas, cobra lateral, escanteio, desarma, dá o sangue pelo time e carrinho sem ser expulsa.

Depois, passamos a observar o arredondamento das suas formas e o desenvolvimento da forma labiríntica do pensamento feminino, raciocínio peculiar dominado por tramas, ritos e códigos secretos.

Passamos então a sentir algo muito diferente.

Quer dizer, não nós, mas nosso corpo indomável, tomado por um desejo que muda a rotina e todo um projeto de vida. Nos transformamos num ser indescritível repleto de acne que cobiça todas, a professora de religião, de violão, particular ou não, a tia do amigo, a irmã do inimigo, a maluca da rua, a chapeira da lanchonete, a balconista da padoca, a vizinha, a motorista da van, a babá do priminho, uma amiga, a amiga da amiga, a rival da amiga, as invejadas pela amiga, enquanto secretam pelo hipotalo, cada vez mais, fatores que soltam hormônios que induzem a hipófise a liberar folículo estimulante, ativando a produção de testosterona pelas células intersticiais dos testiculosas, droga poderosa que intoxica os pensamentos, a fé, os princípios religiosos, explicação química para o popular “tesão”, que Freud definiu como li-bi-do, que se desenvolve por fases desde a infância, etapas características do desenvolvimento, começando pela oral, anal, fálica, edipiana, até, ufa!, a genital.

Como as garotas de 14 anos, assim como as de 15 e 16, não dão a menor bola para os garotos da mesma idade, nos dividimos em castas de fracassados, extravasamos a energia acumulada em outras experiências: xadrez, video games, fliperama, álbuns de figurinha, aeromodelismo, coleção de super-heróis, pensamentos impuros, vandalismos em vasos sanitários ou poemas sujos, difamações e ilustrações eróticas em portas de banheiro.

Sem contar aqueles que não saem do banheiro por uns anos.

No caso de Jonas Donati, ele se juntou a um grupo conhecido como “comunistas”. Aqueles desenganados atordoados e em crise que ficavam numa sala do colegial entulhada chamada Centro Acadêmico, ou “centrinho”, que imprimia o jornal da escola que ninguém lia, e que encontraram no Existencialismo explicações e consolo para a falta de explicação para a existência e, vingança, para a existência delas também.

Dos 14 aos 17 anos, leram Dostoiévski, Kafka, Sartre e Camus, viram filmes da nouvelle vague com décadas de atraso. Usaram gola rolê, apesar da moda do final dos anos 70 ser golas largas e cumpridas, que se esparramavam pela clavícula até a ponta do ombro, usavam cabelos desalinhados, nada de gel nem de filmes de Spielberg e George Lucas. Não sabiam o funcionamento de lâminas de barbear, a não ser quando se imaginavam cometendo o suicídio iminente.

As mulheres eram tão incompreensíveis quanto alguns diálogos de Godard e letras de Luiz Melodia.

Maconha os deixava confusos e atrapalhava os infindáveis debates sobre o processo de Josef K, a náusea de Sartre, a dúvida de Ivan Fiodorovitch Karamazov, o crime de Raskólnikov, os efeitos da Revolução Cultural e os rumos da América Latina.

Preferiam a lucidez para desejar a tia do amigo, a irmã do inimigo, a maluca da rua, a amiga da amiga, a rival da amiga, a invejada pelas amigas, Léna Skerla, Yvonne Clech, Mona Dol, Jeanne Moreau, todas em Le Feu Follet (de Louis Malle), Brigitte Bardot e Jane Birkin, lógico, cantar no chuveiro “je vais, je vais et je viens, entre tes reins, je vais et je viens, entre tes reins, et je me retiens….”, e invejar Gainsbourg. Sem desprezar as musas da Bota, Monica Vitti, Silvana Mangano, Claudia Cardinale. E a patrícia Sônia Braga.

Desejavam Sônia Braga de dia, de tarde e de noite. Dedicavam horas do dia a ela. Homenageavam em momentos exclusivos, na solidão de seus pensamentos impuros.

Claro, começaram a fumar. Uma defesa contra os laços da infantilidade que tentava os içar de volta à impuberdade.

Cigarro = Rompimento.

Buscar aliança e conforto na nicotina.

Adquirir o fedor e a brutalidade do universo masculino.

Até a mãe de um amigo rico voltar da França com uma cartela de Gitanes. Que foi afanada e distribuída. Fumaram e guardaram os maços flip-top azuis como um bem precioso. O refil era outro: um estoura-peito nacional. Para, nas festas, suarem de cashmere e cachecol pelos cantos, encostados nas paredes com os falsos Gitanes, ignorando as garotas, já que elas os ignoravam mesmo. Elas eram estúpidas, fúteis, vazias como pedras, e davam náuseas. Não os mereciam. Sem contar que a vida não fazia sentido.

Então, surpresa. Aos 17 anos, umas menininhas mais jovens passaram a xavecá-los.

Passaram a convidar para fumarem os cigarros falsos no sofá, e não mais servirem de escora de pilastras, paredes e muros. Puxaram os caras para um ritual de acasalamento primitivo e curioso chamado dança. Filaram os cigarros fedorentos, perguntaram coisas. Disputaram a atenção deles.

Que se viram vítima dos olhares invejosos dos amiguinhos delas. Se viram num bote para deixar o navio condenado à deriva dos “losers” e entrar no iate “onássico” em busca de prazeres e praias paradisíacas, experimentar perfumes e peles inacreditavelmente suaves e bem tratadas.

Coladinhos, um pra lá e dois pra cá, sentiram seus peitinhos esmagados nos deles, suas coxas se enroscando nas deles, suas bundinhas duras esbarrando, provocando reações. Elas sentiam volumes que surgiam e desapareciam graças a seus esforços. Dependia da posição, da pressão de seus corpos, do suingue, para endurecerem e amolecerem membros míticos. Elas se deslumbraram com o poder que tinham sobre um membro que era deles!, patenteado pela classe masculina!, preservado e prioritário!

Eles sentiam as mãos delas acariciando as nucas, costas, coxas, esbarrando curiosas no membro duro, firme, prestes a explodir. E enfim lábios delicados, desesperados, inexperientes, línguas insanas, gemidos.

Descobriam juntos o complexo jogo do querer e não poder, ter que esperar, controlar, é cedo, é um processo, requer paciência, etapas, fase 1, fase 2, fase 234. E descobriram algo familiar nas mulheres, a culpa!

Porém, tinha muito rancor acumulado. Anos de desprezo não seriam reparados numa festinha de luz apagada com Steve Wonder ou  Je T’aime – Moi Non Plu na vitrola.

No mais, eles estavam nessa altura a fim das irmãs mais velhas delas, tadinhas. Que a essa altura rompiam barreiras e navegavam mares mais turbulentos do sexo sem culpa, fecundo e livre de pressões e opressões culturais, consentido.

Vingança boba.

Bobeira masculina.

O darwinismo deve explicar tudo isso. Pois, dependendo dos existencialistas…

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