Não odeie a democracia?

Não odeie a democracia?

Marcelo Rubens Paiva

02 de novembro de 2014 | 20h31

 

A democracia é o pior dos governos, com exceção de todos os outros.

Não existe uma democracia melhor ou mais verdadeira.

Como não existe voto certo e errado, bom e ruim.

Existem democracias.

Mas, de Tocqueville a Montesquieu, idealizador da divisão do Estado em três poderes, executivo, legislativo e judiciário, por trás das tépidas paixões de ontem e dos impetuosos ódios de hoje, é possível encontrar a força subversiva sempre nova e ameaçada da ideia democrática. Palavras do filósofo francês Jacques Rancière. Democracias se renovam.

O ódio à democracia nasceu quando deram à luz a própria. Para Aristóteles, o regime que tirou o poder de reis e deuses se tornou a expressão do ódio. Foi o primeiro insulto inventado na Grécia Antiga democrática, por aqueles que viam a ruína em toda ordem legítima no inominável governo da multidão.

A jornalista e atriz formada pelo Wolf Maia Studio, Deborah Albuquerque Chlaem Salomão, correu ao proscênio e improvisou o papel de musa do ódio. Por anos, jogou os dados e cumpriu algumas etapas do tabuleiro da fama. Avançou e retrocedeu num jogo disputado, concorrido. Nessas eleições, conseguiu graças ao acaso avançar muitas casas, sem precisar rebolar, usar shortinhos ou biquíni, graças ao desabafo que ela mesma postou.

Loiraça de corpão trabalhado, Deborah despontou como Legendete, figurante provocante assistente de palco do programa Legendários (TV Record), apresentado por Marcos Mion. Participou da Feira do Riso, programa de humor (Rede TV).

Aqui ela representa:

 

 

Entrevistada pelo blog Notas da Fama, disse que topa ser convidada para participar do Pânico na TV (Band), do reality show A Fazenda (Record), e segredou que Gilberto Barros a sondou para fazer parte do casting das Leoas, assistentes de palco que rebolam no Sábado Total (Rede TV).

Se ela não tem dado sorte na TV aberta, Deborah viu o jogo virar assim que saiu o resultado das urnas. Postou um vídeo domingo que se tornou viral (mais de 8 milhões de visualizações). A atriz que participou de um clipe do Jota Quest e concorreu à Musa do Brasileirão disse exaltada numa produção caseira, olhando para a câmera:

“Quer saber, estou me preparando para ir pra Orlando, onde mora o meu pai. Eu sou rica, bem-sucedida e muito bem de vida, e tentei ajudar vocês, miseráveis, imbecis, burros, que votaram na p… da Dilma. Vocês são muito burros e vão depender de Bolsa Família, bolsa miséria, pro resto da vida… Eu, não, eu tenho condições de sair desse país, que vai virar Cuba, que vai virar uma ditadura, vocês são burros… Estragaram o Brasil.”

Na segunda-feira, postou outro vídeo, já com 2 milhões de visualizações, mais calma, ao lado de Geralda, “mãe de criação”, para esclarecer melhor seu ponto de vista: “Disseram que que eu descrimino os pobres. Estão errados. Aqui está Geralda, que ajudou a me criar e me conhece bem. Descrimino sim os petistas que elegeram mais uma vez esse partido corrupto de m… , que promove uma ditadura neste país.” Geralda encerra o esclarecimento, abraçando a filha de criação: “Conheço há mais de 20 anos.”

Para o filósofo Janine Ribeiro, democracia não é um Estado acabado, mas algo desdenhado desde os gregos: o empenho insolente dos pobres em invadir o espaço que era dos seus superiores, enquanto a ideia de separação social continua presente e forte.

Deborah odiou o resultado da apuração. Odiou ser contrariada. Achou que ela estava certa, e os outros, não. Prefere se mudar de país a aceitar ser governada por aquela escolhida numa votação apertada por “burros imbecis”, a maioria.

Para todos os que acreditavam que o poder cabia de direito aos que a ele eram destinados por nascimento ou eleitos por suas competências, democracia quando surgiu na Grécia era sinônimo de aberração.

Em O Ódio à Democracia (Boitempo), Rancière afirma que a democracia é, em primeiro lugar, essa condição paradoxal da política, esse ponto em que toda legitimidade se confronta com ausência de legitimidade última, com contingência igualitária que sustenta a própria contingência não igualitária, por isso que suscita o ódio. O governo de qualquer um está fadado ao ódio infindável de todos aqueles que têm que apresentar títulos para o governo dos homens (nascimento, riqueza ou ciência).

Governos eleitos foram obrigados a aceitar diversidade na moral, religião, orientação sexual, apesar dos conflitos. Recusar a hierarquia é parte do jogo democrático. Aceitar a divergência, obrigação legal. É inútil procurar o que une acontecimentos de natureza tão distinta. Todos os sintomas, enumera Rancière, traduzem um mesmo mal e se chama democracia, “o reino dos desejos ilimitados”:

1. Um sistema representativo como critério pertinente de democracia é um compromisso instável, uma resultante de forças contrárias, que muda de tempos em tempos.

2. As eleições são livres. Em essência, asseguram a reprodução, com legendas intercambiáveis, do mesmo pessoal dominante. Mas as urnas não são fraudadas. Qualquer um pode se certificar disso sem arriscar a vida.

3. A administração não é corrompida, exceto na questão dos contratos públicos, em que ela se confunde com os interesses dos partidos dominantes. As liberdades dos indivíduos são respeitadas, à custa de notáveis exceções em tudo que diga respeito à proteção das fronteiras e à segurança do território.

4. A imprensa é livre. Quem quiser fundar um jornal, uma revista ou um canal de TV com capacidade para atingir o conjunto da população, sem a ajuda das potências financeiras, pode ter dificuldades, mas não será preso. Mais ainda hoje, no mundo digital,

5. Direitos de associação, reunião e manifestação permitem a organização de uma vida democrática, isto é, uma vida política independente da esfera estatal. Os “direitos do homem e do cidadão” são os direitos daqueles que os tornam reais.

Segundo Aristóteles, o Estado oligárquico de direito realiza esse equilíbrio bem-sucedido dos contrários por onde os maus governos se aproximam do impossível bom governo.

No seu caso, Deborah, sua oligarquia foi vencida por outra. Foi por pouco, mas foi.

Odeie a derrota, não a democracia.

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