nâo fala assim…

Marcelo Rubens Paiva

22 Abril 2011 | 17h01

A briga pública entre NETO, o comentarista da BAND, e TIAGO LEIFERT, apresentador do Globo Esporte, tem mais a dizer que apenas revelar o poder, alcance e rapidez das redes sociais.

Ambos são amados por seus fãs.

Em comum, são tuiteiros de primeira e presentes na rede.

Além de mudarem o jeito [me recuso a usar a palavra ‘paradigma’] de fazer TV.

NETO é o comentarista que fala o que pensa.

É o torcedor da arquibancada na TV, que torce, xinga o juiz e o próprio apresentador.

Ri ao vivo das bobagens que fala. Manda abraços pros amigos.

Além de entender tudo de futebol.

Longe do padrão de comentarista repleto de estatísticas, mapas de táticas, correto, frio, que entende e pesquisa futebol e conhece as escalações completas de todos os times. Ou que só entra quando é chamado pelo narrador.

TIAGO reinventou o jeito de apresentar um programa cuja estrela eram e são os lances e polêmicas da rodada.

De jeans, camiseta desajeitada, tênis, estilo “apresento como vim de casa”, dispensa provavelmente a sala de maquiagem e figurino da emissora.

Fala ao telespectador como se fosse seu brother.

E com os convidados como se fossem brodinhos dele.

Zoa, coloca apelidos, mostra o ridículo de cada um.

Somos todos brothers and sisters.

Informal, ganha até imitadores.

A treta entre os 2 começou quando NETO afirmou que o jogador SEEDORF, do MILAN, iria para o CORINTHIANS.

Notícia quente, dizia o comentarista.

TIAGO dizia que nada foi confirmado e que NETO fala demais.

Chegou a dizer numa palestra, no palco de uma universidade particular de jornalismo, vídeo que foi parar no YouTube: “Ele [Neto] não é nada, fala tudo que vem à cabeça, não tem filtro.”

NETO replicou no Twitter, chamando o apresentador de mascarado.

A polêmica virou manchete em sites de notícia, numa quinta-feira morna de feriadão.

Curiosamente, a GLOBO é parceira da BAND nas transmissões dos jogos da seleção brasileira, Libertadores, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Estaduais, Mundiais etc.

A GLOBO monopoliza a transmissão de futebol da TV aberta e repassa o sinal para a BAND para não levar uma trolada do CADE.

Mas em discussão outra visão sobre o futebol.

TIAGO diz na palestra a estudantes: “Não veiculei esta notícia do Seedorf nem a do Ganso, porque não eram confirmadas, e respeito o jornalismo e o telespectador.”

Jornalismo?

E daí que era boato?

A cidade inteira comentou, mas o Globo Esporte respeitou o telespectador e não falou nada, em nome da ética jornalística.

Bobagem.

Futebol é poesia, não matemática.

Não o leve tanto a sério.

Futebol é paixão.

É 90% emoção.

E zoação nas ruas, no almoço de família, nos bares, na rede…

Desde as mesas redondas de AVALLONE & Cia, ou os ataques de riso de AMIGÃO da ESPM, as provocações de MILTON NEVES, as tiras de HENFIL, as crônicas de NELSON RODRIGUES, os debates entre XICO SÁ e SÓCRATES, está provado que futebol é do núcleo de espetáculos, não do de jornalismo.

Muito menos do de estatísticas.

Ou adianta saber que, jogando fora de casa, time B tem 43,5% mais vitórias que time A, e que o vento sopra a 3 nós?

E daí se Seedorf não foi para o Corinthians, e o Ganso idem?!

A graça está na boataria e provocação.

Postei outro dia no Twitter:

“Rogerio Ceni procura 9ine, admite que sonha jogar no Corinthians e fazer centésimo gol em jogos oficiais no ex-time. Timão faz proposta.”

Depois, como alguns não entendiam a piada, provoquei mais:

“Ego de Ceni é tão grande que ele deseja ser ídolo e algoz de tricolor. Por isso acerta com Corinthians, segundo Agência Lier”

Poucos leitores indignados me pediram prova, com o argumento “jornalista tem que dizer a fonte.”

A grande maioria riu da piada.

Como riu, quando passei a semana afirmando que Ganso iria para o Corinthians, sem prova alguma.

Irresponsável, eu?

Irresponsável é aquele que leva muito a sério o esporte de um bando de homem correndo atrás da bola.

Que reclama quando o craque dribla o adversário para “humilhar”.

Futebol é para ser ver com a alma, não com a razão.

E por isso fascina tanto.

Outras bobagens que tuitei:

“Adriano fala que não está acima do peso. Diz que até consegue ver a ponta dos pés e que nunca comeu nenhuma Dalila.”

“Ronaldinho Gaúcho depois de hostilizado pelos gremistas e festejado por flamenguistas pede para ser chamado agora de Ronaldinho Zona Sul”

“Corinthians consegue aprovação da FIFA para plantar a grama geneticamente modificada de cor preta para o Itaquerão”

“Quero ver a torcida do vôlei Cruzeiro gritar hj: Opção sexual pelo mesmo sexo! Opção sexual pelo mesmo sexo! Opção sexual pelo mesmo sexo!”

Deu pra entender a piada ou preciso tuitar a explicação?

+++

Por sinal, decobri que uma das graças do twitter é brincar com clichês jornalísticos.

Como meu amigo e professor de jornalismo Cláudio Tognolli [cuja tese de pós-graduaçãoi é sobre clichês]  costuma fazer. Tuitou nesta semana: “Zé Dirceu vai falar hoje na novela Amor e Revolução do SBT: vai roubar a cena”

Devolvi: “Descoberto verdadeiro motivo de viagem de Dilma à China. Foi buscar know how de como governar sem oposição.”

O caso Aécio foi uma delícia para todos nós, gozadores que não perdem uma.

Mandei ver:

“PSDB pede para senador de MG evitar boemia em Estados governados pela base aliada de Dilma. Oferece bares de SP, cuja PM é tucana.”

“Ulisses curtia poire. Collor, Logan. FHC, champanhe. Lula, cachaça. Aécio não sabemos. Não rolou bafômetro.”

“Mineiras protestam: Quer ser nosso senador? Tem que nos xavecar também.”

Este, algumas mineiras protestaram. Continuei:

“PSDB pede explicações a ex-governador e atual senador de MG, por que não sai de RJ, se BH tem mais botecos por M2.”

“Luciano quer ser presidente pra fazer deste País 1 gde caldeirão. O Aécio quer tb, pq o passaporte dele venceu.”

“Aécio tem habilitação apreendida no Rio e se recusa a fazer teste do bafômetro. FHC tem razão. Se fosse do povão ia pra delega”

“FHC falou nada mais que a pura verdade. Tucanos e povão nunca dançaram a mesma música. Muda o DJ”

E sobre a Virada Cutural:

“Virada? Dei uma hoje na cama pra pegar o controle remoto do DVD.”

“Sozinho sem beber fumar tomar drogas vendo na TV todo mundo bebendo, se drogando se comendo e se matando. Pelo menos acordo melhor que eles”

“Tenho a impressão que meu gato só se comunica comigo por metáforas.”

Bem, neste caso, a última tuitada é a mais pura verdade.

Porém, eventualmente, é preciso ser paciente e didático, e cumprir o papel que as escolas estão devendo.

Tuitei outro dia:

“Triste ver como amigos jornalistas q começaram comigo nos 80 deram passos à direita. Eu ao contrário estou cada vez + indignado c/ o Brasil”

A resposta do leitor @Gilmarb52 foi: “Vai embora do Brasil!”

Alguns mais estourados bloqueariam o cara ou criariam uma polêmica.

“Ñ fala assim. Este era um lema nazista. Igual ao ‘ame ou deixe’ da nossa ditatura”, tuitei em 15 Apr.

É preciso ensinar também.

Ele não respondeu.