mundo livre?

mundo livre?

Marcelo Rubens Paiva

24 de agosto de 2012 | 12h12

 

Hoje estreia O DITADOR, do criador de BORAT (2006) e BRUNO (2009), Ali G, Sacha Baron Cohen.

Com Ben Kinsley, que considera Cohen o novo Chaplin.

É a história do General Aladeen, ditador de Wadiya, um país rico em petróleo, cercado por dunas de areia, que constrói uma bomba atômica para destruir Israel.

Pressionado por inspetores de Armas de Destruição em Massa, o ditador vai aos EUA discursar na Assembleia Geral da ONU e explicar que suas pesquisas nucleares são para fins pacíficos.

O filme é para rir [e muito] do começo ao fim. Os ditadores são homenageados.

General Aladeen tem uma guarda feminina, como Muammar Kadhafi, da Líbia, seu país entra em convulsão e a população derruba a sua estátua, como Saddam Hussein, do Iraque, sem contar a contestada pesquisa nuclear do Irã.

Além disso, o filme é dedicado ao falecido Kim Jong-il, da Coreia do Norte .

Na pele do segundo melhor jornalista do Cazaquistão [Borat], ou de um jornalista gay [Bruno], a fórmula de Cohen, e o que nos atrai: o mundo ocidental, especialmente o chamando mundo livre e suas contradições, é que está no centro da gozação, é o alvo da sua sátira.

Quando chega nos EUA, o chefe da segurança vai logo avisando:

“Eu não gosto de árabes.”

“Mas não sou árabe”, esclarece o ditador.

“Para mim, judeus, negros, homossexuais, todo mundo de quem não gosto é árabe.”

Não escapam da sátira aqueles que defendem refugiados políticos, feministas que não se depilam, lojas de produtos orgânicos, hipsters, verdes e especialmente a ideia duvidosa de que a América é a eterna guardiã da liberdade e da democracia.

No final das contas, o ditador resolve abrir o seu país, aceitar eleições, numa primavera de liberdade, e discursa para a História:

“Farei de Wadiya uma ilha de democracia, como a americana, em que os ricos pagam cada vez menos impostos, 1% da população controla 40% da economia, uma minoria racial, os negros, é maioria nas prisões, e há muros que os separam de um país vizinho mais pobre.”

Cohen, inglês, sabe apontar os pilares fracos da nossa civilização.

Não está ali para fazer humor fácil e criticar ditadores. Está para mexer em feridas que são mal cicatrizadas no bem-intencionado mundo livre.

 

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Resolvi homenagear o grande ADÃO ITURRUSGARAI, humorista de primeira, nosso exilado em Córdoba, Argentina, que passou por aqui para lançar sua autobiografia ilustrada, MINHA VIDA RIDÍCULA, já nas livrarias, e que homenageou HOPPER, o pintor da solidão.