Mulheres assustam

Mulheres assustam

Marcelo Rubens Paiva

21 de agosto de 2012 | 22h15

 

Kika, 16 anos, tinha veneno no sangue. Também. Ficávamos nos amassos apertados. A cada dia, o amasso adquiria um novo componente: uma mão no seu peito; uma mão na sua bunda; um chupão no pescoço; levantar seu vestido; explorar por baixo do vestido; subir com suas pernas abertas; subir com meu pau contra ela. Um dia, fui longe demais: abri a calça, tirei o pau pra fora e pedi:

“Chupa.”

“O quê?!”

“Chupa pra mim.”

“Você tá louco?!”

“Põe a tua boca nele e chupa, aliás, não chupa, lambe, como um pirulito.”

“Pára com isso, Luiz!”

“Mas é gostoso.”

“Isto é horrível.”

“Não é, não.”

“Por quê?! Por quê?!”

“Você não é a minha namorada?”

“Vou chamar a mamãe.”

“Sua mamãe saiu com o seu papai, para provavelmente fazer o mesmo em paz.”

“Sai daqui!”

“Pega nele.”

“Sai!”

“É gostoso.”

“Vou chamar o meu irmão.”

“Ele está lá embaixo, com a namorada, provavelmente pedindo a mesma coisa.”

“Grosso.”

“Não é tanto assim.”

“Porco!”

“Vai, eu te amo, você me ama.”

“Eu te odeio!”

“Isso é um gesto de amor.”

“Você é nojento”.

“Vai. Vai! Estou perdendo a paciência.”

Ela se abaixou, colocou a boca no meu pau e, entre uma lambida e outra, repetiu:

“Eu te odeio!”

“Eu te amo.”

“Vou contar pra mamãe.”

“Você é linda.”

“Eu te odeio!”

“Eu te amo.”

Kika chupava, chorava e repetia que me odiava e, quando acabou, chorou desesperada, como se estivesse sem ar. Achei que ela ia ter um enfarte. Busquei água com açúcar na cozinha. Ela se trancou e não me deixou assisti-la.

 

Hoje em dia, quando uma mulher escreve sobre a sua vida sexual com palavras fortes, relatos picantes e detalhados, é sinal dos novos temos, é a liberdade e igualdade, é o direito garantido de se expor. Mas quando um homem faz o mesmo é um retrocesso, a linguagem é chula, e o acusam de machista. Mulheres falando de sexo é charmoso. Homem, é cretino.

 

Kika não contou pra sua mãe. Kika padecia de curiosidade. Experimentar o estranho e escondido. A ceninha, óbvio: uma cena, para não ferir sua dignidade, menina-de-boa-família. Quer saber do mais estranho? Ela me deu um pé-na-bunda fenomenal, me trocando por Cássio, meu colega. Põe estranho nisso. Trocou, como se muda de camisa, sem remorso, culpa, constrangimento ou uma papo sério. Mais uma, para a minha lista de abandonos. Cássio se apaixonou por ela. E virou o meu melhor amigo. Porque virei seu confidente. Dizia que ia se casar com Kika quando ela fizesse 18. Dizia que seus nomes, Cássio e Kika, combinavam. E, segundo ele me contou, e melhores amigos nessa idade contam tudo, ela queria chupar o seu pau todos os dias em todos os lugares, obcecada pela novidade, e quanto mais em público mais ela implorava: chupou meu amigo num táxi, numa esquina, no banheiro do colégio, na mesa de sinuca, no quarto da mãe. Chupava e repetia: “Eu te odeio!”

Cássio se assustou. Garotos desta idade se assustam à toa. Garotas assustam. E lhe deu um pé-na-bunda enjoado de tanto boquete. Vai entender…

Garotas assustam. Mulheres assustam. O processo discursivo pelo qual se passa de proposições conhecidas ou assumidas (as premissas) a outra proposição (a conclusão) à qual são atribuídos graus diversos de assentimento, maneira do dicionário entender um raciocínio, é incompreensível para um homem quando ele é feminino. Com o tempo, nos acostumamos. Continua incompreensível, mas se torna constante.

 

[trecho do livo Malu de Bicicleta, lançado há dez anos]

 

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TERÇAS E QUARTAS em SP.

E agora com a musa PAULA COHEN no elenco: