Mulher perfeita

Mulher perfeita

Marcelo Rubens Paiva

19 de maio de 2009 | 12h16

Assisti ontem à pré-estreia da nova produção da Conspiração Filmes, A MULHER INVISÍVEL, longa escrito, dirigido e produzido por CLAUDIO TORRES, com o incrível SELTON MELLO, mais MARIA MANOELA, LUANA PIOVANI e VLADIMIR BRICHTA.

Uma comédia que provoca gargalhadas no começo ao fim.

A história é engenhosa e com reviravoltas. Pedro, SELTON, que abre o filme afirmando ser um homem diferente, pois ama completamente a sua mulher, chega em casa e a surpreende partindo. Entra num estado de paralisia. Dá uma galinhada com o melhor amigo nos primeiros 3 meses, mas se cansa, pede demissão, se tranca e mergulha na depressão, contando que não quer mais saber das mulheres…

Então, AMANDA, uma vizinha nova, LUANA PIOVANI, toca a campainha com a desculpa de sempre: pede uma xícara de açúcar.

Passam a viver um amor perfeito. Ela é uma mulher perfeita, segundo os anseios do cara: lindíssima, gostosa, paciente, maternal, que não cobra quando ele chega tarde e acompanha até jogos da Série C. Ela gosta das mesmas coisas. A autoestima de Pedro volta ao pico, ele retorna ao trabalho, usando os argumentos que AMANDA lhe ensinou, revigorando, amando.

Pouco a pouco, como diz o título, desconfiamos que AMANDA não existe, mas foi uma criação caprichada do seu inconsciente, que, seguindo os preceitos básicos da psicanálise, é o espelho do cara, a mulher ideal, que é, na verdade, o que somos, fruto do narcisismo que empareda muitas relações.

Se Jung dizia que buscamos na nossa parceira os traços idealizados da mãe,
ou o arquétipo da mãe-substituta, Pedro quer uma mulher igual a ele. Quando conversa com a sua amada, na verdade fala sozinho. Quando vai dançar numa boate, na verdade está só.

E entra o talento cômico de SELTON MELO, que magnetiza a tela e contracena com o invisível, o momento mais engraçado do filme.

Tá, a mensagem é óbvia, não existe mulher ideal. No caso, o amor pode estar ao lado [sua vizinha verdadeira, MARIA MANOELA], e não num ideal fabricado pelas nossas virtudes.

Pode-se, no começo de uma relação, acreditar que ela [ele] gosta das mesmas coisas do que gostamos. Até, pouco a pouco, revelarem-se as diferenças, acabarem as mentirinhas fabricadas pela paixão. Então, nos deparamos com a máscara que cai, a realidade das imperfeições, a fábrica de conflitos. Isso se chama amor?

Eu deveria entrar para o ramo dos livros de autoajuda. E faturar em cima da minha nova fase piegas, 1 conselheiro sentimental raso.

*

Abre aqui hoje em São Paulo, no MUSEU DO FUTEBOL [nas arcadas do estádio do Pacaembu], a exposição MANIA DE COLECIONAR. Uma crônica minha sobre JOGO DE FUTEBOL DE BOTÃO será exposta.

Apesar de, na verdade, eu colecionar CADEIRAS DE RODAS [tenho 6, uma amarela, uma verde, uma vermelha e 3 manuais; não sou um OBCECADO, apenas não consigo me desapegar daquelas que foram minhas companheiras por tanto tempo; e doar uma cadeira de rodas usada é como doar cuecas velhas], quando me pediram o texto, não tive dificuldades para escrevê-lo, já que, como um moleque que viveu os anos 60-70, fui completamente viciado em botões. Era a pré-história dos jogos, quando o fliperama dava os primeiros passos, e o computador era privilégio dos astronautas.

Brincávamos com o lúdico nas ruas: bola de gude, empinar pipas, esconde-esconde, pega-pega, pingue-pongue. Não na escuridão e silêncio das lan houses. Não que o presente seja pior do que o passado. Apenas havia mais contato físico e verbal entre nós. Será que nasce uma geração que não saberá se encostar?

Aqui vão trechos da crônica:

Por que jogávamos botão? Porque somos loucos por futebol. Porque se joga com a turma. Porque se joga com primos, pais, irmãos, tios, avós, amigos. Porque se joga sozinho. Se joga na mesa da sala, onde a família se reúne. Ou no chão do quarto, quando a família se reúne. Se o chão estiver sendo lustrado, se joga na garagem, no hall do elevador, na calçada.

Alguns amigos têm mesas próprias. Cada casa tem a sua regra. Muitas vezes, as discussões sobre elas demandam mais tempo do que o próprio jogo. Mas há uma ética: a regra do visitante não vale na casa do outro.

Há jogos em que cada jogador só pode tocar uma vez na bola. Há em que se pode tocar no máximo três vezes. E há a do jogador, como Maradona, que pode sair da própria intermediária, driblar todo o time adversário e entrar com bola e tudo. Uma regra é a mesma em todos os lares: é preciso avisar “vai pro gol”, para o goleiro do outro time ser posicionado.

Cada cidade tem o seu jeito de jogar. No Rio, jogava-se com um dadinho, comprado em qualquer papelaria. Parece coisa de maluco, jogar com uma bola quadrada. Mas ela dá efeito, é rápida, voa, como se estivéssemos no estádio de La Paz (Bolívia). No Rio, o galalite era o material do jogador. Cada um de uma cor, brilhante como madrepérola, devia ser lixado antes, para correr como um recordista de cem metros. Os atacantes eram menores. Os beques, altos. O goleiro? Chumbo derretido, enfiado em caixa de fósforo.

Em Santas, jogava-se com tampas de relógio. As de despertador viravam beques. As de pulso, atacantes hábeis. Toda molecada fazia incursões pelos relojoeiros do Centro, em busca de grandes craques. Mas a bola era quase redonda: a peça do jogo War.

Já em São Paulo, se jogava com bolas de feltro, esféricas, mas lentas, que corriam desengonçadas, e por vezes eram amassadas, vítimas de um pisão involuntário.

Sozinhos, treinávamos. Jogávamos nós contra nós. Fazíamos campeonatos com tabela e torcida. E, claro, narrávamos, como um locutor de rádio esbaforido. O som da torcida era confundido com a asma do avô.

Alguns tinham a manha de manufaturar arquibancadas com caixas de sapatos, desenhar torcedores, bandeiras e faixas.

Como qualquer técnico, tínhamos os jogadores favoritos, o artilheiro, o Bola de Ouro, guardados em caixas separadas e tratados com cuidado, como se fossem nosso maior bem. Na dureza, poderíamos até vender o craque para um amigo.

Amadurecemos e nos esquecemos deles. Mas pode checar: em cada casa, em cada fundo de armário, está lá, o time intacto, hibernando pacientemente, esperando enlouquecermos, para voltarmos a jogar com eles.

*

Ôps… Garoto propaganda?

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