muitos preferiam ser outro

muitos preferiam ser outro

Marcelo Rubens Paiva

14 Fevereiro 2013 | 13h36

 

Ela era densa.

Achava Ella Fitzgerald secundária. Gostava mesmo de Billie Holiday no talo. Nada de Clash. Era fã de Sex Pistols no talo. Era densa e radical. Nada de Antunes. Era Zé Celso, teatro evocação, cerimônia, culto. Ela não lia apenas Guimarães. Ia atrás de “Finnegans Wake” do Joyce, queria entendê-lo, perdia horas debruçada sobre o livro, palavra por palavra, anotava, montava um quebra-cabeça em busca dos sentimentos, porque sabia que naquele caso ler era sentir, não entender, e por que ficava obcecada quando começava algo?

Era de Touro. Persistência, o seu lema.

Mas quando a insistência vira doença, uma obsessão, a persistência deve ser tratada como uma neurose.

As amigas sempre falavam isso dela:

“Você precisa relaxar mais”.

Seu irmão sempre falava isso dela:

“Você precisa ir mais à praia.”

Praia?!

Sempre a desculpa:

Logo agora que tem Mostra de Cinema, Festival de Animação, de Documentário, de Arte Eletrônica, do Minuto, Bienal de Arte, de Livro, tantas palestras e cursos… Parar? Ela não podia parar! Aproveitava e acendia mais um Marlboro vermelho.

 

Parou um dia para se perguntar:

“Do que estou atrás?”

E sofreu quando se perguntou: “Estou correndo atrás de algo ou fugindo de?”

E parou. Sofreu, sofre ainda, sofrerá?

Ouve Jeff Buckley no talo e chora.

Do que estou fugindo? Da minha própria intensidade. Eu queria tanto ser de outro jeito…

Seu único alento: o cigarro.

E a certeza de que muitos preferiam ser outro.

 

+++

 

E tem quem acha que: