muitas estradas em “na estrada”

muitas estradas em “na estrada”

Marcelo Rubens Paiva

16 de julho de 2012 | 12h32

 

Depois da gélida recepção a ON THE ROAD [NA ESTRADA] em Cannes, adaptação de WALTER SALLES da obra de KEROUAC, fui ver o filme com a expectativa baixa e o senso crítico em casa.

E não é que gostei.

Bastante.

Elenco, fotografia e trilha são geniais.

Muitos achavam que a adaptação da obra que não só revolucionou a literatura, mas o comportamento das próximas gerações, deveria ser numa linguagem cinematográfica radical.

Só que já fizeram antes SEM DESTINO.

WALTINHO fez um filme 99% fiel ao livro ciente de que a revolução proposta na trama chocou nossos avós, e hoje parece rotina: amigos se pegando, se drogando, sem projetos racionais, que não querem envelhecer, nem responsabilidades, mochileiros quebrando a rotina, descobrindo o mundo.

InsPIRAÇÕES da era pré-hippie e contracultura que nos fez ser o que somos.

O que me restou do filme foi outra visão, e a que talvez o diretor tenha sabiamente priorizado.

Logo ali na frente, meu camarada, existem muitas estradas, cada uma pode te levar a experiências fora do padrão. Você pode restar confortável na sua aldeia e se conformar ou decidir vivenciar um pouco de radicalismo. Entre elas, a que fura a fronteira da sanidade.

E vá correndo, porque a vida é uma só.

A loucura está logo ali, excita, converte.

Como entendi o filme? Tem a  cidade [NY]. A família. O trabalho. A carreira.

Pegue carona no primeiro trevo. A vida se torna sonhos comandados pelo acaso que tem levam a regiões inimagináveis das emoções, dos sentidos.

Na estrada à direita, você aparece plantando algodão e amando uma camponesa mexicana.

Pegue outra estrada, você se droga com o escritor que admira.

Cruza desertos nu e é masturbado pela namorada do amigo, das poucas cena aliás não tem no livro [eles tiram a camisa na estrada, mas não se masturbam].

Deixe o acaso te levar, como um solo de sax de CHARLIE PARKER, frenético, infinito, improvisado.

O filme é totalmente fiel ao livro. Mesmo que não fosse, pouco importa.

Nele tem uma busca que atormenta a todos nós nos novos tempos, indivíduos que não sabem se vivem dos vícios, do prazer ou das obrigações sociais.

ON THE ROAD não é DOM QUIXOTE, MADAME BOVARY, CRIME E CASTIGO, METAMORFOSE, 100 ANOS DE SOLIDÃO, ULISSES ou ESPERANDO GODOT.

Mas inventou um gênero. Tem relevância. Existe a literatura antes e depois de OTR.

KEROUAC não é cultuado como HEMINGWAY, FITZGERALD, PROUST, BRECHT, CONRAD, CAMUS, SARTRE, RIMBAUD.

Para a crítica acadêmica, o  livro não mudou a história da literatura.

Retratou um mundo em transformação e ebulição.

De gente que não cabia em si mesma.

O roteiro de Jose Rivera cumpre com eficiência o papel de gerenciar um filme clima, que capta a dúvida entre estar são e doidão, entre vivermos aquilo que se espera de nós, ou chutarmos o pau e buscar outras experiências.

Tal dilema não é nem nunca será datado.

 

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