Meu caro Lula

Meu caro Lula

Marcelo Rubens Paiva

10 de novembro de 2019 | 17h05

Nos dias em que você ficou preso, as coisas aqui fora pioraram.

Na economia, política, natureza, relações pessoais e, sobretudo, na democracia.

Que é frágil e incompleta. Agora, até voltou a censura, que chamam de filtro.

Tudo do que precisamos é de um estadista que nos pacifique. O ódio que era exceção virou norma.

Ouvi com preocupações o discurso que você deu quando saiu da prisão.

Minutos antes, Gerson Camarote dizia na Globo News que fontes do PT afirmavam que seu discurso iria ser o do Lulinha Paz&Amor. Pelo visto, ouviu as fontes erradas. Ou você mudou de ideia.

Você tem muitos motivos para expor sua ira. A família sofreu. Perdeu esposa, um neto e o irmão no curto período entre acusação, julgamento, condenação e soltura.

Muitos viram através dos vazamentos da Intercept Br que seu processo foi manipulado por má-fé.

Até pessoas que não votaram no PT se enojaram quando o juiz que o condenou virou ministro logo depois exatamente do seu opositor. E do como ele se cala agora diante de tantos escândalos. O partido do presidente se esfacela. Até a direita rachou.

Você foi solto numa votação apertada e democrática pelo Supremo, baseada numa interpretação da Constituição.

E ainda em Curitiba atacou o juiz, promotor, presidente, ministros, e mesmo na cadeia sempre atacava parte da imprensa…

Quem sou eu para pedir moderação? Nos vimos pessoalmente apenas três vezes. Nem filiado sou.

Mandela saiu da cadeia depois de 27 anos (de silêncio) e foi de carro para casa.

Cem mil pessoas o saudavam pelas estradas. Por vezes, o carro era parado, subiam sobre ele. Mandela se assustou. Em casa, refrescou-se, recebeu um telefonema do arcebispo Desmond Tutu. “As pessoas querem ouvi-lo”, disse o Prêmio Nobel da Paz de 1984.

Mandela ficou tenso, pois deixara os óculos de leitura na prisão.

Então, o futuro Nobel da Paz de 1993 disse diante de uma multidão: “Camaradas e colegas sul-africanos, saúdo a todos vocês em nome da paz, democracia e liberdade. Estou aqui diante de vocês não como profeta, mas como humilde servo de vocês, o povo. Hoje, a maioria dos sul-africanos, em preto e branco, reconhece que o apartheid não tem futuro. Isso deve ser encerrado por nossa ação decisiva em massa. Esperamos muito tempo por nossa liberdade.”

Falou por meia-hora. “Honestamente, quando eu vi a multidão, devo confessar que eu estava sem coragem, confiança para falar para eles. Fui pego de surpresa”, escreveu em sua biografia.

Apesar de riots por todo país, ele pediu paz. E ela veio. Retirou oxigênio da fogueira. Foi eleito presidente.

Lula, sabe que agora são os radicais de direita que atacam a Globo, Folha, Estadão, que você tanto quis controlar e atacou?

A esquerda gritava “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo.” Agora é a direita quem grita “Globo Lixo“.

Precisamos nos pacificar. Nos ajude, cada paulada que você dá, mais razão dá aos extremistas, a direita se une, mais perde o cento, centro-esquerda e principalmente esquerda, movimentos sociais.

Paradoxalmente, mais perde a democracia. Sei que é duro.  Mas seja grande, político, conciliador, superior.

Passei ontem casualmente na Avenida Paulista. Tinha uma multidão de preto (luto) e verde-amarelo.

Protestavam contra sua soltura, o que me deixou perplexo, pois fora uma ordem do Supremo, e mesmo se não fosse, você seria solto em breve por cumprimento de parte da pena.

No Brasil, duvidam do VAR, duvidam de tudo, da ciência, ONGs, imprensa, Justiça, até da Constituição.

Agora, da democracia.

Tinham pessoas com a camisa da Seleção gritando “glória a deus”, que Bolsonaro é o presidente mais honesto que já tivemos, e que o Brasil não é Venezuela.

Apontavam para qualquer helicóptero que passava e gritavam: “Globo lixo”.

Num dos carros de som, discursava Modesto Carvalhosa, lembra-se dele? Advogado, jurista, grande ativista contra a ditadura. Chamava juízes do STF de bandidos. Chamou-o de “criminoso mor“.

Nos ajude, Lula. Você consegue.

Cale esses loucos com um discurso pregando normalização democrática, respeito às instituições.

Salve-nos da insana bílis do radicalismo.

Olha ele aí:

https://youtu.be/sZZuiIXNmk0

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